Milly Lacombe: trancada em casa com o inimigo

Nossa colunista fala sobre a contínua negociação entre o otimismo e o desespero que tem experimentado no confinamento

por Milly Lacombe em

Ontem à noite, entre sete e oito horas mais ou menos, fui invadida por uma calma que ainda não havia provado. Trancada sozinha em casa há quase 13 dias tenho experimentado muitas emoções diferentes e existido em uma contínua negociação – mediada por mim mesma – que se dá entre o otimismo e o desespero; já a calma, especialmente a do tipo que me invadiu como uma brisa ontem, foi a primeira vez. Não sei ainda o que me trouxe tanta calma, mas eu a acolhi e dentro dela senti como pode ser uma vida sem medo. Eu preciso contar a vocês que viver mergulhada naquela paz, especialmente uma paz alcançada em meio ao caos, desde ontem passou a ser meu objetivo maior.

O que fazer para me encontrar outra vez com esse estado de espírito? Comecei então a repensar meu dia na tentativa de buscar o portal que me levou até aquele lugar de calmaria. Tenho tentado escapar como posso do noticiário, é verdade. E, embora fracasse aqui e ali, ontem foi um dia cheio de vitórias. Consegui ler, meditei bastante (uma hora ao todo, em blocos de 20 minutos), fiz ioga, falei com minha namorada (por chamada de vídeo) sobre muitas coisas que não dizem respeito à política, liguei para minha mãe, com quem agora falo muitas vezes ao dia e que me faz rir, cozinhei, passei aspirador, pano no chão, lavei toalhas e roupas de ginástica. Tudo isso dentro da minha pequena caverna repleta de privilégios de classe: posso me dar ao luxo de não sair de casa, de trabalhar, de me sustentar por algum tempo mesmo que tudo desmorone, de meditar, contemplar, refletir. Luxos, luxos, luxos. Em volta de mim aqueles que eu amo parecem estar protegidos, ainda que nada seja garantido. Luxos, luxos, luxos.

Ainda assim, trancada a porta, estamos para dentro eu e uma conhecida inimiga: minha mente. É ela que me faz voltar toda a atenção à garganta que coça: “Aha! Você pode estar doente. Já pensou? Que fim horrível vai ser o seu. E quem disse que vai haver um ventilador para dilatar seus pulmões?”. Em segundos, entre a vontade de tossir e a tosse, minha mente me leva ao pior cenário possível (eu desmilinguida no corredor de um hospital) e é lá que eu fico se não estiver atenta e forte. Quando me percebo nesse inferno, respiro, tento me acalmar, volto. E então, algum tempo depois, uma certa vontade de espirrar me conduz outra vez ao enredo criado pela mente: hospital, solidão, sufocamento. E eu outra vez volto e me convenço de que minha mente não é a melhor orientadora e não está jogando o jogo que eu gostaria de jogar. Ela fala de mim e de minha sombras quando na verdade estamos precisando falar dos outros e, para isso, sair das sombras dentro das quais o ego nos acorrenta.

A maioria das pessoas que pegar o vírus não vai morrer nem precisar de auxílio hospitalar – eis aí um fato que deveria nos acalmar. Não se trata exatamente de um vírus mortal, mas de um vírus que, ao se espalhar como fogo, mata o sistema de saúde de um país. Em colapso, não haverá como atender os que necessitam e muitas vidas que não precisariam desaparecer porque a medicina tem os recursos para nos curar, serão perdidas. Por isso o mantra do: se você pode, fique em casa. Ficando em casa você colabora para que o vírus não se espalhe tão velozmente e faz com que o sistema de saúde possa dar a quem precisa o cuidado necessário.

E então a gente escuta o discurso do “não fique em casa! Vamos salvar a economia!”, que parece fazer algum sentido porque somos constituídos pela noção de que a economia é fundamental, uma verdade absoluta, e de que nossas vidas dependem dela, e não de saúde ou de uma cama hospitalar, cuidados médicos e, quem sabe, de um respirador. O que não fica muito claro para mim é por que “salvar a economia” não poderia ser, por exemplo, orientar que as fábricas que hoje estão ociosas produzissem ventiladores, máscaras, aventais. Voltar nossa força econômica para a guerra que estamos travando. O governo poderia pagar para que as fábricas fizessem isso. “Ah, quanta bobagem, dinheiro não nasce em árvore”, diriam os entendidos. Verdade. Árvores demoram muito mais para nascer do que dinheiro.

Vejamos: desde que dinheiro é apenas crédito os bancos fazem dinheiro a partir do nada, apenas através de empréstimos. "Ah, mas isso geraria uma dívida monumental", diriam os “especialistas” – os mesmos especialistas incapazes de analisar que a economia de uma sociedade moderna e saudável não é necessariamente aquela que tem zero dívida, e sim uma que certamente estaria preparada para uma pandemia. Afinal, essa não é a primeira e nem será a última. Mas, estranhamente, sobre isso eles não têm uma opinião.

Para o antropólogo David Graeber, a economia virou uma ciência desenhada para resolver problemas que não existem mais e economistas tradicionais, a despeito do retumbante fracasso de suas análises nas últimas décadas, se comportam com incrível arrogância, desencorajando que outros participem ou mesmo humanizem o debate. Graeber diz: Inflação, por exemplo. Estudantes são ensinados de que a função da economia é estabilizar os preços. Nesse cenário um governo que apenas imprima mais dinheiro é pecador. Governos devem se restringir a manter estável a oferta de dinheiro. Essa passou a ser uma verdade incontestável e jogou o foco nos gastos do governo, que devem ser vigiados e controlados rigorosamente. Mesmo depois de 2008 esse mito segue sendo repetido a despeito de governos estarem imprimindo dinheiro maniacamente na esperança de gerar inflação e encorajar os ricos a fazer coisas úteis com seu dinheiro acumulado. Sem sucesso, diga-se. O cenário pós 2008 é outro. Queda do desemprego não mais aumenta salários. Imprimir dinheiro não gera inflação.

E aí eu penso: dinheiro é uma ficção que a gente criou. É papel. É um contrato. É uma construção, assim como a economia. Se para salvar todas as vidas que pudermos salvar a gente precisar endividar o Estado e depois ver como fica, o que exatamente nos impede de fazer isso? Regras? Que regras podem estar acima do direito à saude e à vida? Por que não usar o imoral lucro dos bancos privados para “salvar a economia”? Por que salvar a economia com vidas humanas se no mundo de hoje sobra dinheiro para isso? Por que estamos presos a essas histórias fictícias que criamos – dinheiro, mercado, limite de gastos – mantendo nossa imaginação bloqueada para saídas alternativas? Por que não parar tudo e erguer clínicas? Por que não colocar vidas acima da economia, do Brasil, de Deus? Não é toda a vida, afinal, filha de Deus? E o que é essa tal de economia se não você e eu? Ou por economia eles querem que a gente entenda o lucro de poucos a partir do trabalho de muitos?

Você não entende de economia, dirão os economistas que seguem com o mantra de que economia é a história de leis matemáticas universais, quando eu quero acreditar que economia é, como pensa Graeber, uma teoria de argumentos, uma ciência mais humana do que exata. É sobre vidas e relações e não sobre números e limites de gastos. 

Minha cabeça entra outra vez em looping e começa a fritar. E eu, outra vez, paro, respiro e tento encontrar aquele portal para a calma que senti na noite anterior, o lugar onde o medo não existe. Ah, que sensação maravilhosa viver sem medo. Que experiência divina. Meditar, que remédio essencial para tempos sãos e para tempos brutos.

Se você, assim como eu, está trancafiada em casa com sua mente, busque algum tipo de meditação. Encontre um lugar onde você possa, por cinco minutos que seja, fechar os olhos e escutar o silêncio. Existe uma dimensão dentro da gente onde o medo não entra, onde tudo é paz e onde a gente é capaz de entender que passaremos por isso. Um lugar que mostra que nossa vida vale tanto quanto qualquer outra, que a morte não é o fim, que estamos todos juntos nessa aventura. Em nosso dia a dia, como somos encorajados a viver nesse ambiente sem medo se tudo à nossa volta convida continuamente ao contrário? É um exercício que exige dedicação, como trabalhar um músculo, e a vida está convidando a gente a exercitar a couraça moral do caráter.

É certo que sairemos dessa. Resta saber em quanto tempo e com quantas mortes. E resta torcer para que, na saída, possamos entender onde e como erramos. Com isso, quem sabe, nos reinventar, nos reorganizar, nos refazer e, principalmente e acima de tudo, nos abraçar.

Créditos

Imagem principal: Regina Parra

Obra de Regina Parra TO REMAIN TERRIFIED__TO BECOME TERRIBLE, 2016 Neon 10 x 100 cm and 10 x 125 cm

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