Caro Paulo,
Dizem que você é aquilo que faz com seu tempo e seu dinheiro depois que fez tudo que era necessário para poder pagar as contas e sobreviver. Isto é, resolvidas as questões básicas de sobrevivência, o que a gente faz da própria vida são escolhas que dizem quem a gente é. Isso posto, vamos falar, olhos nos olhos, sobre trabalho, identidade e felicidade. Para não teorizar, falo de mim, que é o único assunto sobre o qual tenho alguma autoridade, embora isso não seja reconhecido por algumas pessoas superqueridas… Aliás, pessoas que são as primeiras a dizer que trabalho demais. Entendo essa acusação apesar de questionar se o sentido do trabalho é o mesmo, para mim e para elas. Tudo começa com aquilo que chamo de projeto de vida.
Projeto de vida é um compromisso que se cria consigo mesmo e que faz a gente dirigir todas as nossas energias naquela direção. Quando a gente tem projeto de vida, todas as decisões ficam fáceis de serem tomadas por mais difíceis que sejam de ser implementadas. Tive a sorte de definir meu projeto de vida muito cedo. Como era um cara muito confuso, cheio de perguntas e dúvidas sobre minha viabilidade como ser humano, resolvi que meu projeto de vida seria eu mesmo. Meu projeto era ser o melhor Ricardo Guimarães que eu poderia ser. Teria que desenvolver todo o potencial dessa pessoa, encarando todos os desafios e utilizando todas as oportunidades que surgissem para conhecer e expressar o seu potencial e torná-lo uma realidade. Como o eixo fundamental desse projeto era a minha identidade, tudo o que fazia contribuía para o tal projeto de vida.
Régua do mundo
Assim, acabei entendendo que tudo o que faço é um trabalho muito gratificante. Não importa se estou praticando esporte, vendo um filme, amando, educando filho, sofrendo, escrevendo, ganhando dinheiro ou viajando, estou sempre trabalhando no meu projeto de vida. A acusação que surge imediatamente após esse depoimento é que eu devo ser um cara muito egoísta. O que de certa forma não está errado. Egoísta é o cara que só pensa nele. Os outros vêm depois. Nesse sentido eu sou egoísta, sim. Mas a vida não é tão simples e fácil como parece. Na medida em que um egoísta vai ganhando consciência de quem ele é e começa a entender que sua pessoa faz parte de algo maior, como uma família, uma empresa, uma sociedade, um mundo, sua noção de identidade vai se ampliando e seu projeto de vida, que era de apenas uma pessoa, começa a incluir muitas outras, e mais outras, e mais outras até seu egoísmo ficar do tamanho da humanidade a ponto de seu destino se tornar indissociável do resto do mundo. Ele continua egoísta, colocando-se em primeiro lugar, mas junto leva o resto do mundo, o que significa uma complexidade enorme que só torna mais divertido e desafiador o seu projeto original de vida.
A segunda acusação inevitável vem logo em seguida: então você se acha a régua do mundo? Minha resposta não é simples apesar de curta: eu e todo mundo somos a régua do mundo. Explico: se todos se levassem a sério, como a única e grande responsabilidade que recebeu ao aparecer sobre este planeta; se todos se aprofundassem nas suas próprias identidades a ponto de se reconhecer no outro, no outro e no outro; todos nós estaríamos trabalhando arduamente por cada um e por todos ao mesmo tempo, todos nós estaríamos com o mesmo projeto de vida, o de ser humano. Tudo isso pode parecer uma grande e babaca utopia, mas tem funcionado para mim. Um dia, uma cartomante com cara de boa notícia me falou que eu ia viver 130 anos e, em seguida, com ar sádico, disse que eu ia trabalhar até o fim da vida. Deixei barato e não manifestei minha satisfação com a má notícia. Não contei a ela que eu tinha acabado de saber que seria feliz a vida toda. Quem sabe depois desta coluna as pessoas queridas me cobrem menos de trabalhar demais.
Fica com o abraço do amigo,
Ricardo.
