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Memória flash

Até o nascimento do meu primeiro filho, Renato, eu tinha os olhos voltados unicamente para a minha sobrinha, então com um ano de idade. Tratava-se da criança mais bonita do mundo. Ninguém, em tão tenra idade, a superou em beleza e graça. Assim como se aloca arquivos num computador, guardei para a eternidade essa imagem na minha memória. Mas nem só de belas recordações meu hard-disk interno é abastecido. Recordo também cada uma das celas em que estive “morando” em mais de 30 anos de reclusão. Penso nos ex-companheiros de sofrimento e cada vez sinto mais compaixão por eles. Prisão é uma idéia que não deu certo. Uma idéia que fracassou no tempo. Mas, como nada se criou de diferente (criamos tanta tecnologia, por que não somos tão geniais no social e no humano?), parece ainda mal necessário. Diria por pouco tempo, querendo ser otimista e confiando na humanidade. Segundo estatísticas do governo de São Paulo, é preciso construir duas penitenciária por mês para vencer a demanda. O índice de reincidência é de quase 70%.

Há quem diga, insciente do existente, que se o sujeito reincide deveria ser preso e a chave jogada fora. Nos Estados Unidos, país de primeiro mundo e pleno emprego, é até mais radical. Depois da terceira condenação, a pena é de prisão perpétua. Reincidentes vivem presos até a morte. Não acho justo ninguém morrer na cadeia. Mas se por lá existe trabalho bem remunerado para todo mundo, até para emigrantes e clandestinos, porque a opção pelo crime? É de se refletir, não é mesmo?

Mas por lá eles também manifestam uma inteligência legal que por aqui não se vê. Réus em primeiras condenações começam a cumprir suas sentenças em regime tipo como é o semi-aberto e o aberto aqui no Brasil, meio que soltos. Ou seja, procuram não encarcerar porque estão cientes da cultura criminal produzida nas prisões e como os jovens são frágeis a ela. Prender um jovem em nosso país é quase condená-lo ao crime para o resto de sua vida. Poucos são os que conseguem escapar dessas garras afiadas. De criminosos passam a vítimas, reproduzindo o assimilado na prisão imperceptivelmente.
A minha compaixão tem a ver com tudo isso. Pesa em meu coração ver jovens com suas vidas destruídas pelo descaso e abandono da sociedade. Não defendo o crime, apenas penso nas pessoas criminalizadas. Está certo; eles roubaram, mataram, ou traficaram. Mas por conta disso é preciso eliminá-los, alijá-los para sempre do processo social? Não sei das culpas dos outros. As minhas carrego-as com a dignidade que conquistei a duras penas. Mas quem não errou, quem não erra, quem tem certeza de que não errará? Não vamos computar erros pequenos, esses do dia-a-dia. Coisas graves, mor das vezes encoberta pela família ou pela sorte de ninguém perceber ou saber.

Eu provo, com minhas atuações e vida, que qualquer pessoa pode transformar sua vida. Ao mesmo tempo provo que, quando se vira as costas para um garoto sujo da rua e segura a bolsa ou o bolso com medo de ser roubado, também se está cometendo violência. Não pagar salário digno é violência, e das mais graves, pois atinge a família toda, particularmente as crianças. Há quem afirme que, a ser paternalista com as crianças, seria mais inteligente que antes se pagasse um salário digno aos pais. Assim eles não se matariam de trabalhar, teriam tempo para educar e criar seus filhos. Conheço muita gente com dois ou até três empregos, e ganhando somente para suprir necessidades.

Faz dois anos e alguns meses que estou aqui fora. É inteiramente possível viver em acordo com as regras sociais. Não consigo viver como as pessoas que sentam na frente da televisão para assistir a novela ou futebol todo dia. Não me iludo que possa vir a ser comum ou igual, mesmo porque não conseguiria. Minha história não me permite. Claro que as ameaças sociais também não me fazem medo. Não temo o que possam me fazer em represália a meus atos. O pior seria a morte. Não temo a morte, embora tenha medo da dor que ela cause. Mas aprendi a lidar com a dor e não creio que morrer seja assim tão mais sofrido que viver sem dignidade.

Viver aqui fora legalmente não é nenhuma tarefa impossível. E eu matei e roubei. Não, jamais trafiquei. Como viciado que fui, detesto tudo o que envolva isso. Estupro nem pensar. No meu tempo, estupradores morriam na prisão, depois de sofrerem inúmeras vezes exatamente o que fizeram sofrer. Jamais aprovei ou participei de tais sadismos. Quem estupra o estuprador, estuprador também é. E se posso, depois de estar preso por mais de 30 anos, conviver em paz com as pessoas, procurando colaborar de alguma forma, por que os demais que estão presos não conseguirão? O que posso eu ter de melhor? Absolutamente nada. O que é necessário? Estímulo, incentivo, acesso à cultura, à educação, ao trabalho e principalmente a confirmação de que serão aceitos aqui fora. Quem lhes poderá dar essa certeza? Eu? Você? É exatamente por isso que tenho compaixão das pessoas aprisionadas. Às vezes me pego de olho morto fixo no teto, pensando, perscrutando o instante, mergulhado na vaga consciência de estar. Presença não é o suficiente. Saudade é mais. Tudo que ideal tende a ser mais inteiro na lembrança. O que parecia feio vai se embelezando; o que era belo fica maravilhoso no tempo. Saudade não se completa, transforma-se em longa reticência…

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