por Milly Lacombe

Mariéme Jamme poderia ter virado estatística, mas viu sua vida mudar a partir da dedicação aos números. Hoje, comanda o I am the code, que pretende ensinar programação a 1 milhão de meninas

As chances de Mariéme Jamme prevalecer eram mínimas. Abandonada pela mãe aos 5 anos, passou por mais de 28 orfanatos em Dakar, no Senegal, antes de ser separada do irmão gêmeo e traficada para a França, aos 14 anos. Lá, foi abusada sexualmente algumas vezes e precisou viver nas ruas. Não sabia ler ou escrever, não sabia quem era nem o que significavam necessidades básicas como afeto e carinho. Sabia apenas que havia dentro dela uma voz que repetia: “As coisas vão melhorar”. “Se eu visse duas pessoas se beijando ou se abraçando, eu ficava tentada a separar achando que era briga”, disse Mariéme quando nos encontramos para uma conversa durante a viagem que ela fez ao Brasil em outubro. “Minha casa eram as estações de trem e de metrô.”

 

Aos 16 anos, a polícia francesa a deteve nas ruas e ela foi para um centro de refugiados, onde aprendeu a ler, a escrever e entendeu que havia nos livros uma paixão. Aproveitando um programa que transferia refugiados para estudar em outros países, aos 19 anos foi para a Inglaterra, a fim de aprender uma nova língua. Trabalhou em casas de família, fez faxina, cozinhou e conseguiu emprego em um supermercado. Nas horas livres, se trancava na biblioteca e estudava programas como Excel.

Desde sempre os números foram seus amigos, uma paixão que a faria voar: quando Mariéme nasceu, em 1974, empresas como a Apple e a Microsoft estavam sendo fundadas, fazendo bater uma brisa no oeste americano que acabaria salvando a menina abandonada em Dakar. “Quanto mais estudava, mais pensava, e comecei a ficar perturbada com algumas questões, como ‘quem era eu? Por que tinha passado por tudo isso? O que significaria minha vida?’.”

 

Ela nem imaginava

Enquanto fazia perguntas a si mesma e estudava cálculos matemáticos, soube de uma vaga de trabalho em um pequeno banco perto de Londres, onde acabou ficando por dois anos, fazendo entrada de dados em planilhas. Depois disso, recebeu um convite do HSBC, onde deveria fazer a mesma coisa. Ficou na corporação por nove meses, até que um dia um dos diretores a chamou. “Ele foi até a minha mesa e disse: ‘Venha à minha sala’. Nessa hora, eu soube que seria demitida. Quando você passa pelas coisas que passei, está sempre pronta para que tudo desmorone, e eu estava pronta para isso.” Sem pensar muito, ela levantou e o seguiu até a sala. “Sente-se”, ele disse. “Sim senhor”, Mariéme respondeu. “Não me chame de senhor”, disse Simon. “OK”, ela respondeu, ainda bastante tensa. “Você sabe o que você fez?”, Simon perguntou enquanto ela se sentava. Antes que ela pudesse responder qualquer coisa, ele completou: “Você fez US$ 75 milhões para o banco”.

Nessa hora, Mariéme soube que não estava sendo demitida, mas não tinha muita ideia do que eram US$ 75 milhões, então respondeu apenas: “Verdade? Que bom”. Simon, então, a pegou pelas mãos e a levou a uma sala no andar debaixo, onde dezenas de pessoas a esperavam.

 

Os cálculos e os relatórios que Mariéme fazia todos os dias e deixava na mesa do CEO em nome de Simon tinham levado o banco a tomar decisões que renderam essa dinheirama. Ela foi recompensada com uma comissão e sua vida mudou. Depois de um tempo, foi trabalhar na Oracle, saiu, fundou uma empresa de software, casou e, em 2001, teve um filho. Tudo parecia bem, exceto por um pequeno detalhe: ela ainda não sabia o que era o amor. “Nem quando meu filho nasceu eu entendi o amor imediatamente”, diz. “Talvez eu tenha finalmente entendido o amor quando me tornei budista.” O marido, de quem hoje está separada, deixou escapar a chance de conhecer Mariéme mais profundamente: “Com tantos traumas, é difícil se manter numa relação. Meu ex-marido é um homem branco, e, sendo um homem branco, ele tem todos os privilégios e não entendeu muito bem de onde eu vinha emocionalmente; ele nunca me percebeu por minha essência”, conta.

Hoje Mariéme tem três cidadanias: a britânica, a francesa e a senegalesa. Quando pôde se perceber como ser humano, como mulher e como cidadã, entendeu que não foi a única menina a ter a vida roubada por um sistema cruel e desumano e decidiu se dedicar a salvar a vida de meninas e de mulheres na África e no mundo. “No meu país, quando uma menina é estuprada, não há consequências, ninguém faz nada. Se a pessoa é pobre, ninguém liga mesmo. Passei a me colocar, a criticar celebridades que usavam as tragédias na África para se promover, passei a emprestar minha voz a essas crianças.”

 

Mariéme não tem diplomas, esses papéis tão supervalorizados, mas tem conhecimento e sabedoria, esses conceitos tão esvaziados. Há dez anos, transformou sua empresa em uma cooperativa, fazendo com que todos os funcionários sejam também proprietários, e deu início ao movimento I Am the Code, que pretende ensinar um milhão de meninas na África e no mundo a programar até 2030.

“Aprendi a programar sozinha, de C++ a Python, então quero dar poder às gerações futuras com o conhecimento da tecnologia. Meninas e mulheres são o futuro. Feminismo é dar poder a mulheres e a meninas”, diz. O movimento I Am the Code foi recentemente endossado pela ONU, de quem Mariéme ganhou o título de embaixadora de tecnologia. Um dos produtos que ela criou é um kit básico e simples que ensina meninas a programarem em até cinco minutos.

 

Ouvir é diferente de escutar

Com isso, ela quer mudar o mundo, uma programadora por vez. E quebrar silêncios. “As pessoas não estão sendo ouvidas”, diz. “Meninas que moram em comunidades não têm voz, não tem ninguém escutando o que elas têm a dizer, e elas têm muito a dizer. Existe um silêncio coletivo que é penoso.” Para ela, lunáticos de extrema-direita estão sendo eleitos pelos quatro cantos do mundo justamente porque as pessoas estão cansadas de não serem escutadas, e estão apelando para tudo, até para a possibilidade de um outro tipo de horror.

Durante sua rápida passagem pelo Brasil, em outubro, ela visitou comunidades no Rio e escutou mais de 20 meninas em dois dias. “Elas me emocionaram demais, são pessoas lindas.” Estamos tão alienados pelos celulares que, para ela, acabamos escutando os outros por distração, que é um ouvir sem prestar atenção. “Escutamos também em busca de compreensão, que é quando pegamos o que o outro diz e pensamos em nossas vidas. Ou escutamos por caridade, apenas repetindo: ‘Ah, que pena, eu sinto muito’, mas sem refletir a respeito do que está sendo dito. O que falta é escutar por reciprocidade. Aí sim podemos construir uma relação significativa. Mas não é fácil isso. As pessoas estão com raiva, estão machucadas, então é preciso um esforço e empatia. Falta empatia. Estamos vivendo uma crise de empatia.”

Mariéme é alguém que não deveria ter sido. Mas ela é. E, ao prevalecer de forma tão arrebatadora, está ajudando outras meninas e mulheres a fazerem o mesmo porque entendeu que liberdade é indivisível: não se limita liberdade sem matá-la por inteiro. Enquanto todas as meninas e mulheres do mundo não forem livres, nenhuma de nós de fato será.

Créditos

Imagem principal: Jonathan Perugia/Divulgação

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