wDo monte Hermont, Fiúza se encosta em um velho tanque abandonado e contempla a destruição que a guerra trouxe a Israel
POR RODRIGO FIÚZA* FOTOS ANDRÉ BASSEGIO E RODRIGO FIUZA
Eram duas da manhã quando desembarquei no aeroporto
Ben Gurion em Israel. Apesar de acostumado a grandes desafios,
seria bastante excitante percorrer os caminhos de Jesus Cristo,
lugares conflituosos, conviver com diferentes povos, com
crenças e costumes diferentes. O primeiro desafio estava na
minha bagagem: bicicleta, equipamentos de alpinismo, duas cordas
de 200 m cada e uma enorme bandeira escrita PAZ, em
inglês, português, espanhol, árabe e hebraico, que seria estendida
em um importante prédio israelense.
Resolvi começar a expedição em um lugar tão óbvio quanto
especial. Tirei a bike da mochila e minuciosamente comecei a montar
e regular minha companheira. Tudo isso em cima do Monte das
Oliveiras. Logo após a regulagem de minha magrela, desci por
becos, chegando ao Jardim das Oliveiras. Rezei justamente onde
Jesus pregava aos discípulos.
Para entrar no Muro das Lamentações, passei por uma longa
revista e tive de me separar da bike pela primeira vez. Dali fui para a
mesquita Al Aqsa, uma das mais importantes do mundo muçulmano.
De novo de bike, percorri vielas estreitas, correspondentes
ao caminho feito por Jesus até o santo calvário.
Uma noite em Jerusalém e, dia seguinte, pé no pedal again.
Destino: mar Morto. Após 60 km pedalados, estava abaixo do nível
do mar. Logo que sai de Jerusalém, podia ver uma imensidão branca
que se estende até o sul do país. O ar muito seco me indicava
algo diferente, meus lábios a todo momento pediam água. Aí
deparei com uma placa sinalizando que estava a 400 m abaixo do
nível do mar. Dizem que o sol por ali queima menos. A verdade é
que o calor castigava…
Antes do fim da tarde, cheguei a Massada, antiga fortaleza
encravada em cima de uma montanha onde viveu o rei Herodes.
Dia seguinte me preparava para um dos trechos mais desafiadores
da viagem, rumo ao norte, mar da Galiléia, atravessando o deserto.
Saí sob os primeiros raios de sol. Passei por vários canyons e
encarei subidas cabulosas. O calor castigava, o suor descia e, quando
meu corpo parecia não agüentar mais, vi no meio da imensidão
branca uma miragem… um oásis.
Apesar de já ter percorrido vários desertos pelo mundo, nunca
tinha presenciado um local tão insólito: entre as árvores, um grupode beduínos com cara de poucos amigos. Quando me aproximei,
gritos em dialeto desconhecido ecoaram na minha direção –
saquei que não era bem-vindo. Cauteloso, tentei mostrar através
de mímicas que era amigo e ofereci uma camiseta da seleção
brasileira. Então chegou um senhor, pele curtida de sol e cabeça
enrolada em panos, me sinalizou para entrar.
Abasteci-me de água – aliás, tudo o que me ofereceram – e
me despedi. A noite chegava. Tive que improvisar acampamento.
A temperatura baixava rápido, ventava muito, a barraca parecia
que não iria mais agüentar a pressão da ventania…
“POR ONDE PASSAVA VIA POSTOS DO EXÉRCITO: A SENSAÇÃO ERA DE MONITORAMENTO 24 HORAS”
Me encolhi
escutando aquele barulho assustador, à espera do sol. De volta à
estrada, meu destino era o mar da Galiléia: 250 km de pedaladas
firmes. E sofridas. As câimbras me matavam… Saía do deserto e
avistava montanhas, plantações e áreas verdes. Exausto, afinal
atingia o rio Jordão, local do batismo de Jesus. Aproveitei para
tirar uma soneca.
Mais ao norte, tive de vencer as geladas colinas de Golã, palco
de guerras sangrentas. Mais uma longa jornada de pedaladas e
chego ao nevado monte Hermont. Dali pude ver o que a guerra
fez ao país. Diversas placas sinalizavam para não sair da estrada: o
caminho estava repleto de minas terrestres. Por onde passava via
postos do exército: a sensação era de monitoramento 24 horas.
PRA LÁ DO MURO
Tendo percorrido Israel, a próxima etapa seria, enfim, os territórios
palestinos. Passei por momentos tensos na travessia da
muralha construída por Israel para separar os povos. Tudo foi vistoriado.
Checaram meus documentos e me fizeram um pequeno interrogatório
– com passaporte estrangeiro, tive trânsito livre, o que
não ocorre com os locais. Palestinos que residiam em Israel antes da criação do muro têm um documento especial que lhes permite
acesso restrito aos territórios, o que não ocorre com quem vive do
outro lado do muro: esses jamais podem atravessá-lo.
Uma caravana de carros me esperava. Fui recebido com muita
festa: em cada carro, uma bandeira do Brasil, outra da Palestina.
Vinte pessoas me esperavam na fronteira. Entre elas, jornalistas da
Al Jazeera e Joad Albab, representante do Ministério dos Esportes.
Me levaram para andar pela beira do muro enquanto eu via manifestações
e inscrições de protesto contra a barreira.
Seguindo viagem até o centro de Ramallah, fiquei encantado
com a receptividade dos palestinos. Para minha surpresa,
no dia seguinte fui recebido pelo próprio primeiroministro,
Salam Al Fayed. Durante os 20 minutos de
conversas em inglês, falamos de minha jornada,
esportes, futebol e, como não poderia deixar de ser, de
paz. Ele agradeceu a maneira com que o Brasil vê a
situação palestina e elogiou nosso país por receber refugiados
que moravam no Iraque [Trip 159]. Terminada a reunião,
nosso guia me levou ao túmulo de Yasser Arafat, onde depositei
uma coroa de flores.
Dia seguinte, a caminho de Belém vi plantações de azeitona,
principal produto produzido na Palestina. Infelizmente, logo terminaria
minha visita à Palestina. Como todo bom muçulmano, meu
guia Joad me desejou sorte: “Que Allah esteja com você, amigo”.
Na volta a Israel, fui barrado em duas fronteiras diferentes, só
na terceira consegui atravessar o muro de novo. Pedaladas
seguras e chego à mediterrânea Tel Aviv, símbolo do capitalismo
israelense. Apesar da criminalidade praticamente inexistente, a
cidade foi alvo de diversos ataques suicidas. A aparente calma é
ofuscada pelas excessivas vistorias.
Uma grande jornada me esperava em Tel Aviv. Depois de uma
noite estudando estratégias, chegou o esperado dia do Rapel da
Paz. Jornalistas, funcionários do governo e curiosos acompanhavam
cada passo da minuciosa preparação, que durou três horas.
Preso por cordas, me joguei de uma altura de quase 150 m, abrindo
nossa bandeira da paz. Em segundos, pousava no solo e via
nossa imensa mensagem atravessando fronteiras pelo mundo.
