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Marcelo Yuka no Caminho das Setas

Poster do filme Marcelo Yuka no Caminho das Setas

Poster do filme Marcelo Yuka no Caminho das Setas

 

Marcelo Yuka no Caminho das Setas, documentário que estreia nesta sexta-feira (30) em circuito comercial, seria mais um documentário sobre música, de uma leva muito interessante de bons documentários sobre música brasileira. Mas, nesse sentido, é incômodo, porque a carreira musical de Yuka tornou-se tortuosa, fragmentada, interrompida e reconectada várias vezes, com sua saída d’O Rappa, grupo que fundou e no qual funcionava como espécie de mentor, além de letrista e compositor. Poderia ser um filme sobre um drama humano, mas o gosto amargo de ver um baterista tornado paraplégico após ser baleado no ano 2000 e depois ser expulso do grupo que criou é um pouco forte demais, mesmo para as audiências que aplaudiram o filme da jornalista paulista Daniela Broitman nos festivais e mostras onde foi exibido.

Então, o que é Marcelo Yuka no Caminho das Setas? Bem, arriscaria dizer que é um filme sobre injustiças. Sobre um artista inviabilizado comercialmente no exato momento que alcançou o sucesso popular e que, no caminho de capitalizar a imagem de mártir, foi expulso da banda que criou e cuja imagem concebeu. (As cenas em que Marcelo Falcão explica por que O Rappa demitiu Yuka já entram para a história da arte de embrulhar o estômago, léguas a frente de qualquer Jogos Mortais). As dores, as readaptações, o desconforto com as limitações físicas e artísticas, os constantes recomeços. Como Yuka sempre cantou sobre as injustiças (curioso notar que logo que voltou à música, depois do acidente, voltou-se para a “arrogância” dos Estados Unidos em “Ninguém regula a América”, em vez de voltar-se para sua própria condição), o Yuka flagrado no documentário é o meta-personagem.

Como o aspecto arquivista de Caminho das Setas pouco faria diferença em um artista dos anos 1990, o filme opta acertadamente por situações documentais do cotidiano do música – como Yuka lendo pela primeira vez as cartas que os fãs lhes escreveram durante sua internação ou o pouco esforço que o músico faz para martirizar-se ou posar de guru.

É nas humanidades (quando Yuka expõe brutalmente sua dor e, eventualmente, seus traços de desesperança, e mesmo quando seus ex-colegas d’O Rappa expõem seus valores pouco nobres) que Caminho das Setas ganha força. E faz refletir sobre as limitações de todos nós, físicas, éticas e psicológicas. É muito mais do que música, como a boa música sempre deveria ser.

 

 

Vai lá: www.facebook.com/yukanocaminhodassetas

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