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Mar interior

     O sol estava em chamas no céu. O carro rolava na rodovia, solto, como se tivesse vida própria ou fizesse parte da estrada. Meu coração estava aos pulos. A vida parecia um corpo mesmo, espessa. Ocorria o ano de 1995 e eu estava preso há 23 anos. Conseguira autorização para passar as festas de fim de ano com a família. Estava solteiro e um amigo se propôs a me levar à praia.
     A áspera espera da saída criava uma tensão, que se dissipou lentamente. O coração era rebelde como meus cabelos revoltos pelo vento. Estava em silêncio. Partimos na madrugada, o sonho voava, virando manhã. Meu amigo, ao volante, me observava. Parecia querer absorver minhas emoções. Provavelmente estaria decepcionado. Estava fechado, confuso.
     Como era praia mesmo? O tambor das lembranças disparava flashes surrealistas. Meus quarenta anos imensos, saturados de pesadelos, antigas dores, donos de meus nervos. Eu era o hoje, o agora, todos os meus dias num suspiro. Sorri, pensando no amigo. Olhei-o e senti que relaxava. Era um bom amigo, queria ver minha felicidade. Tentei colaborar.
     Aproximávamo-nos. No vento, um cheiro conhecido. Mar, maresia. Me despedi da usual solidão, aos poucos. Agora já estava contagiado. Minha vida se dilatava. O Kadett voava enchendo de sons aquele silêncio, difícil como conchas cortantes na areia da praia. Meu peito se expandia ao encontro do vento. Separei-me de meu mundo. Devagar fui me embriagando de intensidade. Minha garganta, ferida de gritos, rouquejava. As palavras fugiam, lentamente.
     Chegamos à casa de veraneio. As filhas jovens e casadas do amigo, com seus respectivos maridos, nos aguardavam. Estavam todos prontos para a praia. Vesti short e sunga em meu corpo branco. As pessoas desconhecidas me constrangiam. Da casa à praia eram alguns passos. Areia branca, saudável, dava vontade de experimentar para saber o gosto. Praia da Baleia, São Sebastião.

Armando a barraca
     Estendidos guarda-sóis, toalhas e esteiras, as mulheres tiraram as saídas de praia na minha cara. Estremeci. Ambas esculturais. Bundas redondas, cheias e lisinhas. Imaginei que, se encostasse o rosto ali, sentiria o frescor, o geladinho da noite. Faltava muito pouco para que os corpos se exibissem de todo. Os seios saltavam para fora daquelas tiras coloridas. Minha alma se estalou em meus olhos e meu sangue todo fugiu para a virilha. Já estava de sunga. Cruzei as pernas, tentando desaparecer com o inevitável.
     E elas ficaram ali, com a maior naturalidade, a minha volta. Ninguém percebia meu desespero. A gravidade ameaçava me engolir. Nem sei por que o desejo era explodir em lágrimas. O sol, anônimo, exagerava em seu brilho mole e escorregadio. Eu suava, a alma presa entre os dentes. Era preciso muita coragem, a vergonha me fazia pensar todos os olhos em mim. Sofri, enquanto o sol riscava o horizonte de cacos de vidro.
     Saquei de uma toalha que se esvaziou ao lado. Levantei correndo como que para dentro de mim mesmo. Com as mãos, procurei mastros e velas que pesavam em meus ombros. Nada. Só espinhos e areia à frente. A água molhou meus pés, pernas, até o peito. Era frio, um sopro de gelo e aquelas ondas duras quebrando em minha boca e nariz. Me afoguei em água e sal. Voltei à praia tossindo, cuspindo fogueiras e brasas. No ouvido ecoavam sons de caracóis.
     Quando sentei na areia, água por dentro e por fora. Olhei o pessoal ao longe. Lembrei implacáveis noites de insônia, grades e muralhas. Abri os braços e o pulmão como quem abre janelas e portas. Sorri. Folha leve ao vento, voava. A mais brilhante pincelada de luz me dirigia. A dor, inteira como pedra, sólida como uma mão fechada de anos, décadas e da vida toda, se desmanchava como a areia sob meus pés. Pequenos, delicados segundos entre a dor e a felicidade; entre mim e o nada, em que vivi no limite. Meu peito ameaçava explodir em flores e sangue pelo universo todo. Eu era pleno, era tudo, e nada me faltava. Ultrapassava o limite entre o interno e o externo, era o limiar.
     Daí esgotado. Ora precipitado entre estrelas perdidas, além da miséria do meu medo e do meu curto espaço humano. Minha vida estava em minhas mãos e não sabia o que fazer com aquilo. Estava sendo engolido pela boca azul do céu. Entre a alegria e a gravidade da tristeza; entre o sofrimento e a paz das ondinhas brilhando na areia; entre a lágrima e o sorriso grande de amor; entre a poesia e o fim, havia o mar e seus segredos de mar.

*Luiz A. Mendes, 50, está preso há 30 ? praia, para ele, é quase ficção. Mas essa história é real. Seu e-mail: mendes@revistatrip.com.br

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