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Máquinas da verdade

Esqueça os “blablablás”, propõe nosso colunista-fotógrafo. Deixe de lado aquilo que os deputados, pregadores, jornalistas ou atores falam na TV e preste atenção no que dizem seus corpos

O filme Blade Runner, dirigido por Ridley Scott, é considerado, e acho que com razão, um dos clássicos do cinema universal. A partir de um livro, escrito pelo esquizofrênico Philip K. Dick, Scott criou uma obra-prima. A primeira cena, por exemplo, mostra um policial interrogando um outro indivíduo, em um futuro de ficção científica não muito distante. O policial está usando um estranho aparelho que foca no olho do interrogado. Mais precisamente: o aparelho é uma máquina que percebe qualquer alteração da íris. O interrogado é suspeito de ser um replicante, uma série de robôs idênticos aos humanos, mas com uma diferença: não sabem mentir. Qualquer mentira deles se reflete na contração do nervo óptico. Os replicantes também não têm passado. São robôs e não têm memória. A maquininha do filme é infalível. Tanto assim que essa primeira cena termina com o replicante “apagando” o policial quando se vê prestes a ser desmascarado.

O corpo fala
A inquieta Milly Lacombe me deu um livro de presente. Se chama Blink [Piscar], foi escrito por Malcolm Gladwell e é, de acordo com o que está escrito na capa, sobre o poder de pensar sem pensar. Não tem nada a ver com Blade Runner, mas, calma, eu chego lá. Não é um livro de auto-ajuda, são apenas considerações sobre como aceitar a sensação de que sabemos alguma coisa sem saber o porquê disso. Como lidar com as primeiras impressões [aquelas que ficam] corretamente. Gladwell descreve, por exemplo, um estudo feito com alunos de uma universidade americana. Mostraram para eles videotapes de professores dando aula. Quinze minutos, com som, para cada um dos professores. Os alunos identificaram os que acreditavam serem competentes e os incompetentes. Depois tiraram o som. E então reduziram o tempo da fita sucessivamente até chegarem a cinco segundos. Sempre sem som. As avaliações do comportamento dos professores, no fim do ano, confirmaram o que os alunos já tinham percebido, no começo do ano, por meio das fitas.

Bem. Aqui chego eu. Sugiro que você ligue a televisão e experimente sua própria maquininha da verdade. Pode ser novela, Comissão Parlamentar de Inquérito, Jornal Nacional, pregador religioso, teste de fidelidade ou o que seja. Tire o som do aparelho. Você verá que os seus olhos vão ouvir melhor o que as pessoas falam. Não estou me referindo, claro, à exata dimensão das palavras que estão sendo articuladas. O que eu quero dizer é que você vai ter a sensação [em itálico mesmo, por favor] de saber como é aquela pessoa que você está observando. Por exemplo: ela se sente confortável falando? Os olhos dela parecem que olham os seus? O corpo está tenso? Relaxado? Você pode confiar nela? E, se você ainda tiver dúvidas, a pergunta final que derruba qualquer um que não esteja sendo verdadeiro: você compraria um carro usado dessa pessoa?

*J. R. DURAN, 52, É FOTÓGRAFO E ESCRITOR. NÃO COMPRARIA UM CARRO USADO DE MUITA GENTE DA CAPITAL FEDERAL
Ilustração Eduardo Kerges

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