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Máquina do tempo

Caro Paulo,

Estou mais uma vez viajando em Minas. E como sempre, quando
venho para cá, viajo mais no tempo do que no espaço. Veio toda a família,
da mãe Marita ao neto Joaquim, para participar de mais um Encontro
Nacional dos Primos (Enconpri), evento de três dias em que todos os
parentes Cavalieri se encontram para se divertir e colocar em dia nosso
passado, presente e futuro. Desta vez, devemos ser uns 80 primos.
Somos todos descendentes diretos de Primo e Izilda, meus avós e
trisavós do Joaquim, que tiveram dez filhos, inclusive minha mãe.

Estamos todos hospedados no Retiro das Rosas, hotel-fazenda que fica
entre Itabirito, cidade origem de nossa família, e Ouro Preto. Esse Retiro
pertence às Irmãs Salesianas, que reformaram seu antigo convento para
transformar num hotel. Somos recepcionados pela querida irmã Rosita,
que, entre muitas responsabilidades, cuida do roseiral do Retiro das
Rosas, faz uma deliciosa geléia de rosas e é amiga de minha mãe desde
os tempos do colégio interno em Mariana.

Mas não é por isso que estamos aqui. Minha família é católica de
tradição e prática, e esse já é um aspecto importante dessa viagem. A
fé numa paz prometida, característica dessa religiosidade, tem o poder
extraordinário de criar um ambiente de tamanha positividade e otimismo
que quando ligo a TV parece que viemos para outro planeta. Fica evidente
que o mundo que a televisão nos reporta não tem projeto, não tem
sonho, não tem fé. Os fatos têm causa e efeito, mas não sentido. Tudo
mostra que vamos muito mal: a violência, a corrupção, a poluição.

Desligo a TV e volto para minha viagem, o encontro das raízes com as
sementes que criarão raízes que produzirão sementes que criarão raízes…
enfim, a viagem no tempo. É o tempo que mostra nossa identidade, que
nos dá a perspectiva da evolução; de que hoje somos melhores do que
fomos e piores do que seremos.

Levamos o neto Joaquim para visitar uma mina de ouro do século 18,
em Ouro Preto, e aprendemos as barbaridades que os portugueses faziam
com os africanos. Por exemplo: esmagavam os testículos do adolescente
para que, evitando a produção de testosterona, o escravo ficasse baixinho e pudesse trabalhar nos minúsculos corredores das minas. As
meninas, a partir dos 12 anos, tinham que parir um filho a cada dez
meses para aumentar a mão-de-obra escrava.

ZOOM OUT DO COTIDIANO
A moral da época achava isso normal. Hoje, se alguém cometer alguma
atrocidade semelhante a essas, ninguém achará normal e essa pessoa
será presa porque há lei que proíbe a violação dos direitos humanos em
qualquer parte do planeta. Sem a perspectiva do tempo, perdemos o
norte e ficamos à deriva num mar turbulento de fatos desconexos. Daí
o pessimismo. Na minha opinião, a ciência e a espiritualidade nos ajudam
a manter a perspectiva do tempo e a não perder o norte.

A espiritualidade porque nos dá a perspectiva do futuro, mostrando
um sentido para tudo de bom e de ruim que nos acontece, proporcionando
aquele sentimento de conforto e proteção, típico de quem sabe que
não está sozinho no mundo. A ciência porque nos dá a perspectiva do
passado, mostra o quanto aprendemos sobre a vida e sobre as relações
sociais. Dessa maneira, além de mostrar nossa evolução como
humanidade, permite deduções e projeções seguras sobre o futuro.

Há pouco tempo, li Why are you optimistic about?, livro cujo editor,
John Brockman, questionou o otimismo de 155 cientistas (físicos, químicos,
sociólogos, antropólogos etc). E a conclusão a que cheguei é que a
gente está indo muito bem. Essa é a notícia que o Enconpri 2007 me
entregou e que quero enviar para você: estamos indo bem.

Viagem serve para isto: nos afastar da realidade cotidiana, fazer um
zoom out do nosso pequeno mundo para obter a perspectiva e a compreensão
de onde estamos, de onde viemos e para onde vamos. Enfim,
descobrir o roteiro da jornada diária. Volto a São Paulo em tempo de participar,
com honra, do Prêmio Trip Transformadores. Estou levando um
pote de geléia de rosas, da irmã Rosita, para vocês. Até aí.

Abraço,

Ricardo

*Ricardo Guimarães, 59, é presidente da Thymus Branding. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br

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