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Mãos à obra

Nós somos do Colégio Renascença,
Um traço de união entre dois povos
Procurando com o estudo e com a crença
Transmitir a tradição para os mais novos

Esta escola que é um ninho de carinho
Onde cada professor é um amigo
Ficará para sempre na memória
Levarei tua lembrança aqui comigo

De Israel nos vem o velho e venerável,
O culto à terra e o respeito aos ancestrais
Do Brasil brota em tudo a novidade
É nossa terra e a queremos sempre mais

Quais novos macabeus nós aqui vamos
Entoando um canto alegre e juvenil
Porque essa mocidade estudiosa
Quer honrar a Israel e ao Brasil

Do hino da minha escola, ficaram essas quatro estrofes guardadas numa prateleira empoeirada num canto escuro, no fundo da minha memória. Muitas vezes não sei o que fazer com certas lembranças que como essa hesitam em desaparecer, como briquedos quebrados que nunca jogava fora com medo de mais tarde vir a me arrepender.

Evocando a lírica ufanista e a melodia pujante e rastaqüera do hino do Instituto Hebraico Brasileiro Renascença, sinto um nó na garganta. Foi lá na rua Prates que aprendi a ler e escrever, foi lá que eu aprendi a fazer conta e a fazer de conta… Foi lá que aprendi a dar beijo de língua, a fumar baseado e a jogar Motum Perpetum.

Motum Perpetum era jogado nos bastidores escuros do teatrinho no último andar do Renascença. Um grupo de meninos se sentava em círculo no chão. De calças abaixadas cada um masturbava o compa-nheiro do lado esquerdo, que por sua vez era masturbado pelo companheiro do lado direito. E o primeiro a gozar ganhava uma esfiha de carne e uma Fanta Uva no recreio. Recentemente descobri que existe uma versão inglesa do nosso jogo, o Wet the Biscuit (“Molhe o Biscoito”): um grupo de meninos se masturba em torno de um biscoito. O último a gozar tem que comer o biscoito umedecido de sêmen. A índole celebrativa do nosso Motum Perpetum (quem ganha leva) e o espírito punitivo do Wet the Biscuit (quem perde toma) refletem dois modos diferentes de olhar para o sexo e para o mundo.

Ainda sinto a dor de não ter sido goleiro titular do time da escola que disputava as Macabíadas, uma espécie de Olimpíadas das escolas judaicas. Eu me imaginava como um desses goleiros sólidos e introvertidos que não jogam conversa fora e gostam da solidão do gol. Meu modelo era o Cerras, goleiro argentino que jogava no Santos e era um craque.

Mas eu tomei um frango humilhante num amistoso contra uma escola rival, o famigerado Peretz. A bola passou debaixo das canetas. Eu já não estava numa boa fase e meu time se voltou contra mim. O Hilton, nosso capitão e meu melhor amigo, me enxotou do campo a pontapés. E quando cheguei em casa chorando ainda tomei uma bronca da minha mãe, que não gostava que eu levasse desaforo para casa.

Mas, no balanço do passado, o fracasso no gramado foi compensado pela glória no palco. Na pecinha de teatro do jardim-de-infância fui eleito para ser Moisés e guiar o Povo Escolhido a caminho da liberdade na terra prometida. Mas a terra prometida era o próprio Bom Retiro, e Deus, que aliás é brasileiro, só nos escolheu mesmo para ser quem somos e nada mais.

O guarda-chuva cor-de-rosa de uma velha em Bond Street se associa à calcinha da professora de história no ginásio. A pasta de dentes comprada na loja de produtos orgânicos tem cheiro do gosto de Mentex. No ventre da minha mulher reencontro o calor do colo da babá.

Fragmentos involuntários de memória, meteoritos aleatórios viajando a esmo pelo espaço, vindos do nada, viajando numa velocidade estonteante em direção ao nada. A história não tem uma moral precisa. Não precisa. A gente aprende. Mesmo sem entender muito bem o quê.

Currículo da vida
Na minha formação tem sido importante sentir amor. Perder o amor me ensinou a querer amar e ser amado melhor. Todo o resto é muito menos importante do que o amor. Ainda não me formei, estou em plena formação. Só a morte nos forma.

*Henrique Goldman, 44, cineasta, confessa que viveu. Na foto, é ele o Moisés, puxando o êxodo do Colégio Renascença. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

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