Levante a cabeça. A frase foi dita pelo patrocinador do evento, Kaito Maia, ao campeão na hora da entrega do prêmio, em junho deste ano, e não no sentido figurado. A.S.F., então com 17 anos, embora justo merecedor do título do primeiro campeonato de skate disputado pelos internos da Febem, estava visivelmente constrangido e cabisbaixo pela situação nada habitual de ser homenageado.
F. tem uma família, foi incentivado a estudar, teve o que comer na infância e o conforto de um teto e uma cama sempre à disposição, o que para a maioria dos seus colegas é um padrão acima da média. Ainda assim seu desconforto com a exposição pública no Ginásio Babi Barione era nítida. Timidez pura, vergonha pela condição de detento, as idéias viajando no sonho de ser um atleta consagrado, o que ia na cabeça dele no momento em que recebia os aplausos dos presentes e foi chamado a atenção não se sabe. Mas, dias depois, quando o entrevistei, a ficha já havia caído.
Os motivos que o levaram a pagar a pena ele prefere não lembrar, acaba de sair da Febem e diz estar pronto para retomar a vida. Teve a sorte de cair numa das unidades que não têm rebeliões e que oferecem boas opções de estudos técnicos, a de Vila São Vicente, no litoral paulista. Surfista e skatista, gostaria de ter a oportunidade de se dedicar aos esportes, o título do Manobra do Bem, o nome do campeonato, é um forte incentivo, mas sabe que vai precisar procurar alguma atividade entre as que estudou no período em que esteve recluso, marcenaria por exemplo, para salvar o sustento.
Anderson, que agora em liberdade assistida pode ter seu nome revelado, disputou com mais de 40 internos das diversas unidades da fundação o título na modalidade street, e teve a oportunidade graças ao trabalho de Sandro ‘Testinha’ Soares, 27, que em 2002 implantou aulas de skate para os internos e, claro, da direção da fundação, que incentivou o projeto.
É um paradoxo o skate, tradicionalmente associado a transgressão e à rebeldia, ser eleito como esporte apropriado para educar e recuperar garotos infratores. A presidente da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, Berenice Giannella, explica: ‘O skate, como qualquer outro esporte, ajuda na concentração e faz com que sejam estabelecidas metas para a vida’.
Essa perspectiva de uma vida melhor Anderson está contemplando neste momento ao voltar à liberdade. A vitória no primeiro Manobra do Bem também lhe valeu um pequeno patrocínio para integrar a equipe amadora da Chilli Beans, que, mais do que o incentivo financeiro, vale pelo status. Participar de uma equipe de skate, de uma marca bacana, compõe o estilo de vida desejado por nove entre 10 jovens da sua idade. Mas essa condição está associada ao seu comportamento de agora em diante.
O esporte sempre foi um atalho para a inclusão social, a novidade é oferecer e, principalmente, incentivar de forma adequada, no caso com aulas e competições, a prática esportiva mesmo para aqueles que na maioria dos casos costumam ser excluídos. A escolha do skate, esporte que está entre os preferidos e que mais cresce entre o público jovem, é quase óbvia embora possa não parecer.
Notas
Tow in bombando
Semana passada os adeptos do surfe a reboque se divertiram no litoral paulista. Um ciclone provocou ondas de até três metros e a praia das Pitangueiras, Guarujá, foi a que melhor combinou a direção do vento e da ondulação. Big riders como Jorge Pacelli e Silvio Mancusi passearam.
Alpinismo no Himalaia
Integrante de uma expedição internacional Ana Elisa Boscarioli, 39, vai tentar fazer o cume do Cho Oyo (8201m), Tibet, e se tornar a primeira brasileira a concluir uma escalada acima dos 8000.
Corrida de aventura
A terceira e última etapa do circuito Brasil Wild acontece neste final de semana na região de Poços de Caldas e Andradas, MG. A equipe Clight Salomon Atenah lidera o ranking.
