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Malditos cariocas

     O grande dramaturgo Nelson Rodrigues morava na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Ele raramente saía de seu bairro e quando saía dizia: ‘Cada vez que eu atravesso o túnel Rebouças (que separa a zona norte da zona sul) sinto uma enorme saudade do Brasil’.
     Moro fora do Brasil há vinte e um anos. Conforme o tempo foi passando, a saudade do Brasil transformou-se, se subdividindo em diferentes níveis de saudade. Tem a saudade de quando morava aqui. Tem a saudade específica de cada uma das vezes que vim ao Brasil. Tem a saudade das diferentes saudades que senti ao longo dos anos. Este sentimento cheio de camadas, uma envolvendo a outra, é como uma enorme cebola melancólica que pulsa dentro de mim.
     No momento estou no Brasil. Estou mais ou menos no Brasil. Estou no Brasil, mas estou o mais longe possível da minha terra. Me explico: sou paulista e estou no Rio de Janeiro. Rio pra mim não é ‘em casa’. Me sinto mais no Brasil diante do Palácio de Buckingham do que à sombra do Corcovado. Sempre achei a Cidade Maravilhosa uma cidade horrível, porque a beleza do Rio e a eshperrteza dos cariocas me humilham.
     Na minha infância, todas as férias meus pais me traziam para o Rio. Tinham as melhores intenções: jamais poderiam imaginar o quanto sofri e me envergonhei nas areias da praia de Copacabana. Desde a infância eu era irremediavelmente paulista: bunda mole, otário e babaca. Nunca ninguém riu de uma piada minha no Rio. Eu era gordo, branquelo e não sabia jogar vôlei. Anos de psicanálise não foram o bastante para me ajudar a superar o trauma supremo de ter sido um paulista no Rio. Talvez por isso eu tenha ido me esconder na Europa.
     Há um tempo, em Ipanema, um incidente irrelevante me marcou profundamente. Estava num carro com um amigo paulista que morava no Rio. No meio do trânsito, vimos duas criancinhas num outro carro à nossa frente. Percebi que as duas inocentes criancinhas me encaravam. Sorri pra elas com minha pieguice paulista e até dei um tchauzinho. Como se um sexto sentido as tivesse alertado para minha esdrúxula origem bandeirante, as criancinhas desgraçadas olharam para mim com ar de desprezo, viraram de costas e me ignoraram. Meu sábio amigo me disse com um ar resignado: ‘No Rio, criancinha não dá tchauzinho pra otário’.

Cidade de Deus
     E o paulista, que além de otário é um grande masoquista, em vez de reagir ainda se deixa seduzir pelos encantos mil. Eu mesmo, até mesmo porque nunca me dei bem no Rio, morro de tesão pelo sotaque e pelas bundas das cariocas. Reagir como? Tudo no Rio é indiscutivelmente melhor do que em São Paulo. Carioca é mais bonito, mais cosmopolita e menos careta. Carioca tem menos caspa, aftas e hemorróidas. Por isso tenho tanto ódio e rancor.
     Não me proponho a liderar um movimento que promova a segregação de cariocas em campos de extermínio. Não seria capaz de um ataque kamikaze no Maracanã em dia de jogo do Fla X Flu. Não quero implodir o Corcovado. Não chego a propor um holocausto com câmaras de gás, fornos crematórios e valas comuns para cariocas. Nem acredito no extermínio como solução final para a ‘questão carioca’. Mas o Rio me deixa puto da vida.

*Henrique Goldman, 40, é cineasta, vive no exterior há quase uma década, mas ainda assim não está livre da guerra. Seu e-mail é: henrigold@yahoo.com

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