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Malandragem

‘É rara a chance de ler obras produzidas pelas classes marginalizadas. Desabrigo, de Antônio Fraga, pode assim ser descrita, ainda que transcenda qualquer rótulo, tanto pela autenticidade (foi um dos primeiros livros publicados usando gíria) quanto pelo estilo, que agrega à rica prosódia citações rebuscadas e uma complexa construção narrativa, toda em terceira pessoa. Hoje obscuro, na época do lançamento (1945) Fraga alcançou certa notoriedade pelo uso pouco convencional da língua – incluindo ausência de pontuação e uma linguagem que oscila entre o sutilíssimo e o punk.
‘Cobrinha entrou no buteco e botando dois tusta no balcão pediu pro coisa
– Dois de gozo
Coisada atendeu à la minuta Largou no copo talagada e pico de água-que-passarinho-não-topa e sem tirar a botuca da cara do cobrinha empurrou o getulinho
– Tou promovendo a bicada’
Expulso de casa aos 16, Fraga mudou-se para o Mangue, onde se enturmou com malandros e prostitutas. Até 1995, ano desta edição, consta que ainda teria obras inéditas. Em Desabrigo, a dedicatória de Fraga é ‘para mim mesmo, com muita estima’.
(Daniel Rocha, cineasta)

Desabrigo, de Antônio Fraga
Editora Relume Dumará, 118 páginas, R$ 15,58.

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