Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Mais uma

POR LUIZ ALBERTO MENDES*

Fechei os olhos e relaxei. Tentei, por um momento, esquecer tudo e preparar-me para as nuvens. Adoro olhar aquelas montanhas de nuvens translúcidas a pairar sobre o nada. Aquilo que me comove. Faz perguntar quem sou eu e o que é mesmo o que quero. Acho que sou pelo menos um pouco do que quero, porque é exatamente o que quero que dá consistência ao que vou sendo. Como estou me sentindo caminhando na direção do que me agrada (ainda não o que quero exatamente), vou bem.

O avião pairava. E foi rápido, quando percebi estávamos chegando ao aeroporto Santos Dumont. Kissy, da produção, nos esperava. Sim porque na aeronave estava uma personalidade. Quem conhece Pauê sabe do que estou falando. O carinha é um todo de energia e vitalidade. Nele a voracidade de viver fica transparente, pulsante. Está sempre ativo; ele e seus pés de ferro não param. Antes de saber, senti que ele estava na mesma pegada que eu. Entregaríamos o prêmio Orilaxé 2008, do grupo AfroReggae, para pessoas que se destacaram em atuações sociais humanistas.

Levados ao hotel Windsor no centro do Rio de Janeiro, soubemos que o evento ocorreria no Teatro Municipal. Mal pisei no hotel e já sai andando. Claro, queria, mais uma vez, declarar meu amor àquela cidade verdadeiramente maravilhosa. Vasculhei praças, os Arcos da Lapa e o centro todo. Comi as deliciosas empadinhas cariocas, tomei raspadinha e namorei aquela gente toda. De volta ao hotel, tomei banho e desci para a missão. Pauê me esperava e juntos saímos caminhando até o Teatro Municipal, logo ali do lado.

Andar com Pauê na rua é, no mínimo, interessante. As pessoas reparavam em suas pernas de ferro. Até para o carioca, que não cuida da vida de ninguém, ele é uma entidade e chama a atenção. Todos sentimos que provavelmente afundaríamos, no lugar dele. A leveza e a velocidade com que se desloca é impressionante. Expressa otimismo, força de vontade inquebrantável e está sempre sorrindo, alegre como um menino extasiado com a vida. É um gigante.

No teatro, ele conhecia o pessoal do AfroReggae e fomos entrando para trás do palco, em busca do povo que nos trouxera. Entramos no camarim, estavam todos se vestindo, conversando suavemente. Pauê foi apresentando e as conversas foram rolando. Na platéia encontrei amigos valorosos que me transmitiram afeto genuíno, fruto de longa saudade.

O show começou em alto nível com o grupo da casa encantando com suas coreografias e seus tambores mágicos. Logo em seguida Rap´n Hood fez sua apresentação. A rapaziada dança muito; lançam-se no ar e flutuam no espaço de um passo para o outro. A essa altura, Kissy retorna à cena me arrancando da carteira em que eu estava encaixado. Pegou em minha mão e saiu furando espaços e me arrastando no meio daquela multidão. Quando dei por mim, depois de driblar pernas, pés e gente que ia fechando à minha frente quando ela passava, estava do lado de dentro do palco. Ao meu lado, linda, exalando suavidade e sensibilidade, estava Letícia Sabatella. Conversamos rapidamente. Eu entregaria o primeiro prêmio da noite a uma jornalista do jornal O Globo. Ela entregaria o seguinte.

O troféu pesou em minhas mãos. Enorme, de acrílico e parecia bonito. De repente, meu nome ecoou no teatro todo. Um breve texto sobre minha biografia foi lido solenemente por Fernandinha Abreu. Saltei para o palco quase catapultado pela produção. Estava bem, tranqüilo. O que incomodava era o “não fala nada” que me foi buzinado no ouvido várias vezes. E lá veio a jornalista. Seu sorriso era de pura modéstia. Gostei muito de entregar o prêmio, senti que merecia, mesmo sem conhecê-la.

Desci para a platéia, mas já estava querendo sair fora. Teria que visitar amigos, o tempo era curto, às 8h15 da manhã devia estar embarcando para São Paulo. O teatro estava lotado e a entrada cheia de gente querendo entrar. Sair foi difícil, tive que empurrar. Caminhei pela cidade emocionado com a noite estrelada. Logo estava aos pés do morro Santa Tereza, na casa de um casal amigo. Conversamos, rimos e brincamos até a madrugada.

Nem fui dormir, de manhã cedo já estava no aeroporto. E demorou. Somente às 10h fomos liberados para o vôo; o aeroporto não tinha teto de vôo. Pensei muito ali sentado na espera. Realmente estou indo em direção ao que me agrada e, se não estou satisfeito ainda, posso ficar tranqüilo: jamais estarei.

Sair da versão mobile