Por Thiago Lotufo
Marcelo conhecia Karim que conhecia Sérgio. Karim, que conhecia os dois, apresentou Marcelo a Sérgio. Isso foi há cinco anos, em 2000. Karim preparava a sua estréia em longa-metragem; os outros dois vislumbravam – um pouco mais ao longe – o mesmo tipo de début e aproveitavam para dar pitacos no filme de Karim.
Karim é o cearense Karim Aïnouz, 39 anos, diretor de Madame Satã, película que ganhou as telonas em 2002 e teve Marcelo Gomes e Sérgio Machado como co-roteiristas. A dupla somente agora conseguiu a carteirinha para ingressar na mesma academia do amigo: finalmente estréiam na direção de um longa de ficção. Marcelo com Cinema, Aspirinas e Urubus; Sérgio com Cidade Baixa. O primeiro, de 42 anos, já tinha documentários e curtas-metragens no currículo e teve de esperar sete anos – entre produção, roteiro, filmagem e finalização – para assinar um trabalho em formato espichado. Sérgio, 36 anos, foi assistente de direção de Walter Salles em Central do Brasil e Abril Despedaçado e aguardou menos para a estréia: cerca de três anos. Os filmes de ambos, que contaram com Aïnouz em seus roteiros, acabam de entrar em circuito e projetam uma luz renovadora no escurinho das salas de cinema brazucas.
Tanto Cidade como Aspirinas foram elogiados pela crítica. No início do ano, os dois receberam aplausos entusiásticos ao serem exibidos em Cannes na mostra Un Certain Regard – Madame Satã, em 2002, havia sido a última produção brasileira a passar por ali. No Festival do Rio, no mês passado, Cidade Baixa foi eleito o melhor filme do evento e Alice Braga levou o prêmio de melhor atriz. Cinema, Aspirinas e Urubus ficou com o prêmio especial do júri e João Miguel foi considerado o melhor ator.
O reconhecimento não vem à toa. Marcelo, Sérgio e Karim, nordestinos radicados no eixo Rio–São Paulo, imprimiram no formato de película uma investigação apurada de linguagem e formam um núcleo criativo (e tecnicamente competente) que traz um frescor de renovação na maneira de pensar e realizar cinema no Brasil. “São filmes que vão além do puro entretenimento”, diz Karim Aïnouz. “É um tipo de cinema que pretende provocar e fazer pensar.” Além desse desejo, os três compartilham também um imenso prazer com a profissão que escolheram. “Para nós, escrever e dirigir não é um ato burocrático, uma coisa estritamente profissional e neoliberal”, afirma Karim. “Amamos cinema e queremos fazê-lo da melhor maneira possível”, corrobora Marcelo.
Os três adoram trabalhar juntos, num clima de ação entre amigos – sem o menor sentido pejorativo ou de panelinha. “Formamos uma espécie de triângulo amoroso”, brinca Sérgio. Dentro do espírito, cada um submete suas idéias à aprovação do grupo e promove leituras coletivas – e demolidoras – de roteiros. “Falamos a verdade um para o outro, sem dourar a pílula”, afirma o baiano. O resultado disso tudo é que os filmes deste trio de realizadores apontam para um caminho diferente pouco mais de dez anos depois do início da “retomada”, em 1994. “Podem até não gostar do que fazemos, mas jamais vão poder dizer ‘isso não é cinema’”, acredita Marcelo Gomes.
