Eu me preparei para sair aqui fora e enfrentar o preconceito das pessoas. Diziam-me, seria assim. As pessoas estavam prevenidas com quem sai da prisão. Claro, parecia bastante compreensível. A escalada da violência pela violência, o vandalismo e a estupidez humana dos últimos anos só podia resultar nisso. Mas, já percebi, o que nos parece improvável é o que provavelmente acontecerá.
A vida tem seus próprios desígnios. De repente, uma tragédia pode se tornar uma piada. Pior ainda – uma dor. Acontece que dentro de nós estremecemos por melhores momentos. Se realmente quisermos, e se aprendermos, sempre conseguiremos atingir nossos desideratos. É claro que não podemos esquecer as conjunções. Se elas não estiverem alinhadas, quase todo o esforço torna-se insuficiente.
Fui muito bem recebido em todos os lugares onde estive. Acolheram-me carinhosamente e me aceitaram quase que integralmente. Sempre há exceções, óbvio, mas fiquei gratamente surpreso e pensei ter cometido enorme equívoco. Aos poucos fui me desarmando, me acomodando à situação.
Somente algum tempo depois fui perceber. Meus amigos me aceitavam. Os outros toleravam. Mas, à medida que me agüentavam, deram chance de abrir a boca. E isso era tudo que eu precisava. Se puder falar, tenho consistência e minha história é convincente. Conquistei a maioria dos opositores. Particularmente aqueles cuja idéia tinha por base o preconceito social.
Os “formadores de opinião” carecem de pontuar positivamente no Ibope para continuarem com suas idiossincrasias. E, em nome dessa audiência que os mantém no ar, vale tudo. Inclusive exacerbar a opinião pública. Tentam apavorar, assustar. Não sabem de nada acerca do que realmente acontece. Partem de seus preconceitos para emitirem opiniões absurdas, tiradas sei lá de onde.
Segundo pesquisa do mesmo Ibope, 75% de nossa população (e isso significa 130 milhões de pessoas) não consegue ler ou escrever satisfatoriamente. Por viverem imersos na ignorância, não têm capacidade crítica. Estão à mercê de aproveitadores que os “informam” diariamente. É da falta de conhecimento, do analfabetismo funcional, do abandono cultural e da informação duvidosa que nasce o preconceito.
Dentro da prisão, os companheiros presos também têm uma sociedade estratificada. O preconceito não é de cor; o uniforme é bege para todos. Por lá também valemos pelo que temos. Embora o que somos também conte, nunca é o suficiente.
Em resposta a meus textos nesta coluna, constantemente recebo e-mails. Algumas pessoas me atacam, ofendem. Fica claro que desejam me ferir. Chegam ao cúmulo de afirmar que eu devia estar morto. Até ameaças já fizeram. Não criticam meu texto. Sequer prestam atenção. Sou atacado por puro preconceito pelo fato de haver sido preso.
Em compensação… Tenho leitores maravilhosos! Gente que me incentiva, gosta sinceramente do que escrevo e se interessa por mim de verdade. Fiz grandes amizades a partir das críticas que recebo, nesses quatro anos de coluna. Puxa, agora é que me recordei: este mês faz quatro anos que escrevi meu primeiro texto nesta revista. Vê? Se fosse ligar para os preconceitos das pessoas…
*Luiz Alberto Mendes, 53, é autor de Memórias de um Sobrevivente e Às Cegas (ambos Cia das Letras), e cumpriu 31 anos e 10 meses de reclusão. Já experimentou diferentes formas de preconceito dentro e fora das prisões. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
Ilustração Sesper
