FOTO ARQUIVO Marcos Vilas Boas
Também sentiam dó do cãozinho, mas havia dois pro-blemas em deixá-lo solto. Seria necessário tosá-lo e higie-nizá-lo. Depois, seria preciso alimentá-lo com ração e não mais com restos de comida. Não havia dinheiro para tais despesas extras. Pelo menos não até aquele instante. Claro, tirei do que não posso, paguei a tosa e comprei o maior sacão de ração. O cão voltou pelado, cor de rosa e cheirando a talco. O bichinho ficou solto, correndo pelo quintal, enlouquecido de alegria.
Fui passar o fim de semana na casa de minha sobrinha. Quando voltei, a notícia me foi atirada no rosto, qual um crime. O cão havia sido atropelado e morto a alguns me-tros do portão de casa. A liberdade ensandecera o animal. Sempre que se abria o portão, o bichinho escapava correndo ao menor vacilo. Quando me contaram essa característica do cão e o perigo que era a rua de casa, afirmei que seria melhor que morresse mesmo a ficar ali acorrentado na parede. Mas agora, diante de fatos, reflito. Seria mesmo melhor que morresse a ficar ali preso? Não quis que me matassem quando estive condenado a uma centena de anos de prisão. Lutei desesperadamente para sobreviver e consegui. Atravessei o túnel inteiro e estou aqui fora.
O que me fez sobreviver e esperar? Havia uma voracidade de viver que jamais me permitiu acomodações. Sempre tive que enfiar a cara e isso me levou a novas vidas. Tenho livros publicados por grandes editoras e outros a serem editados. Todos escritos na prisão. Mantenho essa coluna há mais de três anos. Fui obrigado a inventar espaços e ocupá-los todos. Caso contrário, a angústia e o desespero me destruiriam.
A comparação não é absurda. O que, exatamente, faz com que minha vida seja mais importante que a daquele cãozinho? Porque possuo razão? Bolas para minha capacidade de raciocinar! A razão, unida à liberdade, tem infeli-citado o homem e está acabando com o planeta. Nesse caso, a liberdade foi fatal para o cãozinho. Se continuasse preso, viveria o resto de sua vida reduzido a dois metros quadrados. Penso que sempre que há vida, há esperança. Sempre poderia escapar se alguém abrisse a corrente. Mas meu coração usa um outro tipo de visão, o da emoção. Não foi melhor morrer assim, livremente? E você, o que acha? Que atitude tomaria?
*Luiz Mendes, 50, há três anos escreve para a TRIP. Mendes cumpriu a pena máxima prevista pela justiça brasileira, 30 anos, por assalto e homicídio, e hoje vive em Barra do Piraí (RJ), ao lado de sua companheira, Oneida Borges. Seu e-mail é: l.mendesjr@ig.com.br