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Lauro

Já fora um homem, imagino, que até bem apessoado. Agora era apenas forte. Seu corpo estava encurvado, exibindo corcunda acentuada. Figura sombria, devastada pelos anos de prisão cumpridos e pelos vícios acumulados. Seus olhos eram pequenos e vermelhos, como de um rato. Moviam-se incessantemente. Rugas escavavam vales, vincando ambos os lados de seu rosto gordo e envelhecido que caía atraído pela gravidade.

Conhecido como delator especial, se é que existe tal especialidade, do chefe de disciplina, o Cirane. Estávamos em l973, ditadura plena no país. Lei do cano de ferro na penitenciária, acompanhando alinhamento político. Lauro trabalhava na distribuição de alimentação da cela forte, na penitenciária do Estado.

Todas as celas da prisão eram fortes. Mas aquelas eram especialmente fortes. Com chapas de aço na porta e na janela. O ar entrava pelo milimétricos furos na chapa da janela. O chão era caquinho de cerâmica. As paredes úmidas e pegajosas. Não havia nada além da privada, do colchão e do sentenciado ali, profundamente preso e mergulhado na mais negra solidão.

Não era apenas estar preso. O verbo não era de transição e sim de definição. A idéia era tornar o infeliz residente, em um ser aprisionável, domesticando-o. Isso através de isolamento e privação de qualquer objetivo e conforto ou necessidade humana. Fumar era proibido. Uma bituca apreendida acrescentava mais 30 dias à sanção disciplinar já em cumprimento. Nem Bíblia era permitido. Conversar era proibido. Só não era proibido proibir. O resto era tudo proibido.

A porta só abria para que os brutamontes que compunham o Choque da Casa revistassem a cela de manhã e à tarde. Banho era às quintas-feiras. Um a um, vestindo apenas calção de linho grosseiro, supervigiados pelo Choque.

Estávamos ali, eu e aproximadamente uma centena de companheiros, sofrendo o castigo. Inteiramente à mercê do Lauro, do Choque e do Marcelino, funcionário responsável pela cela forte. Cada um deles sentia-se na obrigação de nos humilhar e sacanear ao máximo, sempre que podiam.

Aceitávamos tudo com um silêncio carregado de tensão e ódio profundo. Nosso olhar era uma agressão velada. Mas o impacto de sua violência possuía toda potência de nossa alma. Eram ódios trocados, quase como duelos de espadas em fogo. Resistir sem jamais sermos quebrados, era todo nosso esforço. Chegaria nossa vez. E reagiríamos com toda virulência de nossa revolta acumulada.

Vivíamos à noite e dormíamos de dia, quais morcegos. Inventávamos jogos, contávamos histórias, tentando nos distrair. Isso através do encanamento da privada. Nosso nauseabundo "telefone".

Amarrávamos uma linha, tirada do colchão, a um sabonete. Arremessávamos pela privada até o cano do esgoto. O companheiro, lá dos andares acima, fazia o mesmo com uma linha mais forte, e dava descarga. Balançávamos as linhas até que se embaraçassem. Então puxávamos nosso sabonete, já trazendo a linha do parceiro em regime comum.

Por ali transportávamos cigarros, fósforos, café (em vidro), bangue-bangue de livro de bolso e muitas coisas de que necessitávamos. Pela manhã era tudo devolvido, antes da eletrizante visita matutina dos "amigos" do Choque. Sempre havia alguém que colocava o rádio na privada. Ouvíamos música pela noite adentro, de ouvido grudado na privada.

Guardávamos cigarros e fósforos para passar o dia entre as nádegas. Os guardas nos marcavam sob pressão. Possuíam prazer mórbido em nos encontrar em infração disciplinar. Muitas vezes nos pegavam fumando, escrevendo ou alguma coisa escondida no colchão. Lá vinha mais meses de condenação. Não bastavam os longos anos que cada um de nós tinha a cumprir de prisão.

O amigo Carlão já nem ligava mais. Já estava condenado a mais de cinco anos de cela forte. Matara três companheiros e ferira uma meia dúzia de uma vez só. Fora outros que ia matando sempre que tinha chance. Se o pegassem fumando ou lendo, apenas tomavam. Já nem faziam mais parte de infração. Que seriam meses para quem já tinha anos para cumprir?

O Lauro ficava indignado com isso. Não aceitava que, na cela forte dele, fôssemos surpreendidos com cigarros, papel, caneta, até, raramente, baseados de maconha. Os guardas do Choque e o chefe de disciplina pediam explicações a ele. Então, como era de acontecer, nos denunciava. Contava como fazíamos o transporte de coisas e nos comunicávamos com os companheiros do regime comum.

Era um canalha com os dias marcados. Sabíamos que, à primeira oportunidade, seria assassinado. Carlão o olhava sedento. Mas ele era esperto. Quando nos soltavam, ele se escondia e estava sempre armado.

O Cirane afirmava, possesso, que aquela situação não podia continuar. Não admitia, de modo algum, que os presos em regime de castigo pudessem continuar contrabandeando para a cela forte coisas que considerava regalias.

Foi então que o Lauro surgiu com uma idéia supimpa para acabar com aquele estado de exceção. Mudar o encanamento do esgoto das celas fortes, todinho. Individualizar por cela o encanamento. Construir caixas coletoras só para as celas disciplinares. Era dispendioso mas, para que a disciplina não fosse burlada, não deveria se considerar preços jamais. Desenhou, montou o orçamento e se propôs, junto com o Diego, seu auxiliar, a concretizar seu projeto.

O que ele ganharia com isso? Continuar gozando das regalias que lhe eram permitidas. Ficar solto à noite; comer uma comida melhor; a porta da cela aberta; poder ir e vir nos pavilhões; espaço; e liberdade. Conquistar a simpatia da diretoria da Casa. Havia carência emocional envolvida no processo; era uma identificação. Queria ser diferenciado e não mais um número como todos. Essas eram as motivações conhecidas e declaradas.

Em prazo recorde, concluiu o seu trabalho. Tornou impossível a nossa comunicação com o mundo exterior. Por trás de tudo, havia uma motivação oculta, de caráter econômico. Aliás, a história sempre apontou como sendo esta a causa fundamental de todas as atrocidades. Dai para frente, se quiséssemos fumar um cigarro, ler, escrever, receber ou dar algum recado, era preciso pagar um imposto superabusivo para o nosso caro amigo Lauro.

Nossos amigos nos mandavam as coisas de que necessitávamos. Mais da metade era sua parte para que chegasse até nós. E carecíamos ser cordiais, gentis e sorrir para o canalha. Caso contrário, nem pagando alto preço, recebíamos nada. Éramos, então, totalmente roubados e estaríamos à sua mercê.

Durante anos, esse nosso preclaro companheiro de prisão nos explorou o quanto quis. Ainda recebia os mais rasgados elogios pelo seu comportamento da diretoria da Casa. Culminaram em premiá-lo com a liberdade. A única coisa que fico em dúvida é se aí fora ele conseguiria todo espaço e liberdade que possuía na prisão.

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