Não sei se foi culpa de um avião da American Airlines que passou sobre minha cabeça, mas, ao foliar o Carnaval em Recife, tive a sensação de estar vivendo num Second Life da fuzarca. Da balbúrdia. Da fuleragem. Da folia. E mais todos os sinônimos dignos para diversão sem limite. Ao todo, no Recife, são 16 Pólos de Cultura de intensa programação. Desde do Recife Antigo, região central, onde fica o Pólo Mangue, que abrigou a 12º edição do festival Rec-Beat, até o Alto do Zé do Pinho, zona periférica famosa graças a alguns moradores notáveis como a banda Devotos, onde fica o Pólo Mangue do Morro. A cada 100 metros caminhados, a cada esquina dobrada, você topa com milhares de “avatares” fantasiados de foliões reais – e devidamente embriagados. De frevo. De maracatu. De ciranda. De todos os ritmos imagináveis. Como exemplo, e só ficando nos figurões, teve Lenine, Tom Zé, Fundo de Quintal, Nação Zumbi, Marcelo D2, Alceu Valença, Elba Ramalho, Z’África Brasil, Mombojó, Gal Costa, Otto… E se for colocar as dezenas de pólos culturais e blocos de Olinda na roda, esse Second Life da folia ganha proporções de deixar qualquer panturrilha contraída. O esquema para ser feliz é querer-ver-tudo – culpa da euforia carnavalesca – e aproveitar ao máximo o-pouco-que-conseguiu-ver. Sem pesares. Deixa a ladeira te levar. Vamos ao que foi visto:
Quem é que sobe a ladeira?
Para celebrar 10 anos de vida, o bloco mais comédia do Recife, comandado pelos puxadores “anárquicos” Lenine, Bráulio Tavares, Silvério Pessoa, Lula Queiroga, Zé da Flauta, subiu ao palco ornado com muitos convidados especiais dispostos a ceder o furico. Explico. O grande barato do Quanta Ladeira é tirar sarro e comer o máximo de furicos alheios, mesmo que seja só na rima. Este ano sobrou para o “butão” de Junio Barreto, Elba Ramalho, Fafá de Belém, Arnaldo Antunes, Nando Reis e não lembro mais quem. E o melhor jeito de comer o furico do próximo é fazendo versões esdrúxulas para clássicos da música. Um exemplo, já consagrado: “I Will Survive” (Wilson vai, Wilson vem, Wilson vai, Wilson vem, Wilson vai e vem / Atrás de um “base” / Wilson vai / Wilson vem atrás de um “base”). Ou então, a versão para “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”, da Nação Zumbi: “Preu comer teu cuuuuuuuu falta uma polegada”. E por aí a coisa descamba despudoradamente.
Nação Unida
Show da Nação Zumbi é sempre bom, mas nada se compara à polvorosa gerada por um show dos caras de graça, no Marco Zero da cidade, pro povo pular sem miséria. Toda uma nação que nada tinha de zumbi. E como pulou-se no meio da pipoca. O show foi tão curto quanto intenso. E como meu comparsa de fuleragem bem observou, era o primeiro show que víamos em que a banda não tocou “Da Lama ao Caos”. Também nada se falou de Chico Science e os 10 anos de sua morte. Talvez porque seja melhor celebrar o aniversário do caranguejo com cérebro. E não aproveitar a oportuna data de sua morte, 02 de fevereiro, para botar mais lenha num Carnaval já incendiário por si só.
Libera o pancadão
Uma das celebrações mais emblemáticas do Carnaval recifense é, sem sombra de duvida, a Noite dos Tambores Silenciosos, tradicional apresentação das nações de maracatu de baque virado, o maracatu urbano. Bom para relaxar os tímpanos, abrir as têmporas e aproveitar os únicos minutos de silêncio que você encontrará em Recife. Aprecie sem moderação a cerimônia encabeçada pelo babalorixá Raminho de Oxóssi, que à meia-noite em ponto silencia os tambores, apaga todas as luzes do Pátio do Terço, em frente à Igreja de Nossa Senhora do Terço, no bairro de São José, para evocar os ancestrais e deuses africanos para abençoar o futuro, o presente e saudar o passado. Para um paulistano nato como eu, não muito ligado a regionalidades, num primeiro momento, a escuridão e as palavras de Raminho podem não significar muita coisa. Mas, dependurado numa janela feito uma gazela – foi o jeito de conseguir enxergar alguma coisa, tamanha a multidão –, fica nítida a devoção dos presentes e a importância histórica daquele momento ímpar do Carnaval na capital pernambucana. Como não dá pra querer tudo, perdemos o melhor show do Rec-Beat: o coletivo paulistano Instituto tocando Tim Maia Racional. Sorte a sua que nosso camarada Filipe Luna estava lá pra contar a história.
Raciocínio Quebrado
Não era a primeira vez que o Instituto se aventurava pelos caminhos tortuosos da filosofia racional de Tim Maia. Em show comemorativo em SP, deram uma amostra do potencial das releituras feitas por essa nova orquestra racional. Os convidados não ajudaram muito naquela ocasião, mas dessa vez, em pleno Carnaval pernambucano, a pregação da época mais “careta” e ao mesmo tempo pirada de Tim Maia balançou esqueletos como se fosse uma “Vassourinhas” entoada a plenos pulmões por uma orquestra de rua. E os convidados dessa vez foram bem mais de acordo com a grandeza do finado soul man brasileiro. Thalma de Freitas, com um vestido ousado e uma performance desinibida encantou com todos os seus predicados; B.Negão foi grave e possante como o Tim do passado; China fez o orgulho dos conterrâneos; e Carlos Dafé, repetindo a desenvoltura e o carisma do show de São Paulo, foi a ponte, o elemento original, um ex-racional. Ganjaman comandou com a categoria de um maestro de orquestra de rua um elenco estelar que contava com os ótimos guitarristas Fernando Catatau e Júnior Boca, o baixista Rian e um naipe de metais de entoar qualquer frevo de bloco. Alegria total dos pernambucanos e turistas que deliraram com os clássicos dos dois volumes do disco Racional. As músicas eram cantadas pelas dezenas de milhares de vozes que se espalhavam pelo cais da alfândega em uníssono. Nos 100 anos de frevo, brilhou a obra de uma mente enevoada por uma seita/religião/conhecimento que fez um sentido esquisito, mas bom, em meio à folia carnavalesca. [por Filipe Luna]
Aipim ou macaxeira?
A surpresa do festival ficou a cargo do multiinstrumentista Curumin e sua banda, The Aipins. O apuro musical, a mistura balanceada de funk, dub, samba-rock, um pouco de brega e “otras cositas más”, mais o vozeirão do baixinho Luciano “Curumin” Nakata arrastou pelos ouvidos os que não os conheciam e passavam pelo local. Especialmente quando os caras tocavam suas versões tão pitorescas quanto competentes para “Feira de Acari”, do MC Batata; Madonna em versão dub com “Like a Virgin”; e uma “Negro Drama” carregada de suingue capaz de fazer Mano Brown chacoalhar o black power. Desce mais uma porção de macaxeira, por favor?
Tom Zen
O grande Tom Zé encarregou-se da aulinha de desenvoltura e desapego que pôs fim ao Rec-Beat, em plena terça-feira, já com a ressaca batendo à porta. Esnobando energia macrobiótica, de causar inveja em garotões de 27 anos, Tom fez e desfez o que quis no palco. Impulsionado pelo aniversário de 100 anos do Frevo, ele cismou de compor seu próprio frevo entre uma música e outra. Aos poucos, a viagem tomou forma. No final, Tom evocou a massa a entoar sua mais nova obra coletiva. “Se o Galo regalo tem plano/pro amarelo, mulato e ariano/meu diploma de pernambucano/vou tirar no Recife este ano.” Ao perceber que a brincadeira não colou, não titubeou em pôr um fim na palhaçada, com uma frase algo assim: “Xiiii, o frevo não tá com nada. Deixa pra lá”. Mas sem rancor. Só com humor. Um humor que só cabe àqueles desprovidos de ego inflado, que não precisam provar mais nada e que já tiveram seu tapete puxado uma vez, nos tempos de exílio de terceiros em Londres, se é que vocês me entendem. Mas na humildade Tom subiu de novo. Sozinho. E não desce nunca mais. [por Endrigo Chiri Braz]
