Karim Aïnouz

Por que um dos maiores nomes do cinema nacional foi viver em Berlim?

por Nina Lemos em

Em Praia do futuro, novo filme de Karim Aïnouz, um rapaz cearense se muda para Berlim. A sinopse é a mesma da vida do diretor, que saiu moleque de Fortaleza, perambulou pelo mundo e, há cinco anos, vive feliz na cidade alemã, de onde não pretende sair mais – pelo menos por enquanto.

No novo filme do diretor Karim Aïnouz, Praia do Futuro, um menino olha para o infinito do mar por minutos. Esse menino poderia ser Karim, cearense e viajante de alma. Praia do Futuro, que se passa em Fortaleza (cidade onde nasceu) e Berlim (cidade onde mora há cinco anos), conta a história de um salva-vidas (papel de Wagner Moura) que vive uma paixão intensa com um alemão, viaja para vê-lo e nunca mais volta. Anos depois, seu irmão mais novo vai ao seu encontro na mesma Berlim.

Tudo a ver com a história de Karim. “É, eu sei que é totalmente autobiográfico, mas eu finjo para mim mesmo que não é, para não ser muito egoico”, ele ri, em um café próximo à casa onde mora com o namorado, Mario Brandão, companheiro de viagem há dez anos.

A sinopse parece, sim, a vida de Karim, o menino filho de uma bióloga cearense com um engenheiro argelino. Os dois se conheceram quando a mãe do cineasta fazia pós-graduação nos Estados Unidos. “Ela voltou para Fortaleza grávida, e o meu pai, que estava fugindo da Guerra da Argélia, logo voltou para lá porque a situação se normalizou.” O menino do filme que olha para o mar quer conhecer o mundo e encontrar o irmão mais velho. “Eu sei, é igual à minha história com meu pai. Afinal, ele foi embora, nunca mais voltou, e só fui conhecê-lo de novo em Paris, quando eu tinha 18 anos”, ele diz.

Karim, que foi criado pela mãe e pela avó, recebia cartões-postais do pai mandados de vários lugares do mundo. E, segundo ele, nasceu para botar o pé na estrada, coisa que fez com 16 anos e nunca mais voltou. “Acho que quando a gente sai da cidade natal é uma ruptura. É muito difícil voltar.” Karim morou em Brasília, Paris, Nova York, Rio de Janeiro e São Paulo. “Agora acho que estou na minha última parada”, ele diz.

“Adoro perder avião”

Quer dizer, mais ou menos. Apesar de amar Berlim loucamente, Karim não para na cidade. O cinema de Aïnouz é um cinema de viagem. Ele é autor de O Céu de Suely Viajo porque preciso, volto porque te amo. Os dois se passam nas estradas do Nordeste. “Eu tenho, sim, essa coisa com viagem e ruptura. Inclusive porque eu amo viajar, amo um aeroporto, amo avião. Sabe o que eu mais gosto? Quando o táxi que vai me levar para o aeroporto chega na minha casa. Amo aeroporto, conexão longa, tudo. Esse é um momento bom da vida, porque a gente não tem que controlar nada. Se o avião atrasar, não é culpa nossa, se tiver trânsito, também não, pega outro.” Sim. Eis o primeiro homem na Terra que gosta de perder conexão e é capaz de escolher voos com várias conexões. “Esses são os mais gostosos.”

Ele consegue ficar, no máximo, três semanas sem viajar. No dia seguinte à entrevista, daria uma palestra em uma cidade do interior da França. “Eu até podia não ir, mas, sabe, acabo falando sim, porque vai ser legal, tem que pegar um avião para Paris, depois um trem que dura 4 horas, e eu adoro tudo isso.”

Um diretor de cinema controla muita coisa, por isso, Karim acha bom perder o controle de vez em quando. “Eu gosto de mandar, claro que gosto, senão, não seria diretor de cinema.” E ele é centralizador.Gosta de ter a ideia, sempre muito pessoal, de escrever o roteiro junto com colegas, filmar. Mas o que ele gosta mais é de editar. Esse é um momento de introspecção. É como um artista pintando. Ele edita em Berlim, perto da sua casa.

Mas continua, sim, com os dois pés no Brasil. De dois em dois meses, viaja para Fortaleza para coordenar uma oficina de roteiro e visitar a mãe, de 82 anos. “Adoro, fico com ela, cuido, gosto de trabalhar no Brasil.” Em Praia do Futuro, Karim conseguiu o inimaginável. Juntou uma equipe alemã e brasileira. Deu certo.

O diretor é premiadíssimo: já ganhou mais de 30 prêmios internacionais e hoje desfila com tranquilidade no tapete do Festival de Berlim, com amigos na cidade como o cineasta Wim Wenders, que o convidou para o projeto Catedrais do futuro, coordenado por ele. Em uma exibição de Viajo porque preciso, volto porque te amo, em Berlim, Karim foi aplaudido de pé e teve o filme elogiado publicamente pelo cineasta de Asas do desejo. Era 2010. “Nossa relação começou ali.”

A voz do metrô

Karim se apaixonou pela Berlim de Asas do desejo em 2004, quando morou na cidade após ganhar uma bolsa de estudos do Estado alemão e viver na cidade por um ano. Quatro anos depois estava de volta, com dois gatos e tudo mais que tinha em São Paulo. “Eu queria demais morar aqui. Mas na hora em que estava tudo empacotado em casa em São Paulo eu olhei para o Mario e comecei a falar: “Meu Deus, o que estamos fazendo? Estava tudo bem aqui, tínhamos uma casa, tudo direito... Por que a gente está indo?”, ri. Hoje, não se arrepende nem por um momento da escolha que fez.

 

"Amo aeroporto, conexão longa, tudo. É um momento bom, porque a gente não tem que controlar nada"

 

“Estou numa fase muito boa. Tenho 48 anos e moro em uma cidade onde você pode ser jovem com qualquer idade. Aqui é como uma cidade do interior. Compro meu bilhete de um ano de metrô, ando a pé. Em São Paulo estava ficando doente, engordando, porque tudo o que fazia era ir a restaurante.” A relação de Karim com a cidade é daquelas apaixonadas. “Lembro que, depois de ter morado aqui, vim para ficar só uns quatro dias e na hora de ir embora não parava de chorar, de tão desesperado que estava por estar indo embora.” Ele diz que para fazer um filme precisa sentir tesão pela cidade. E é isso o que ele sente por Berlim. Principalmente pelos terrenos abandonados (reflexos da guerra e da queda do muro de Berlim). “Esta é uma cidade que ainda está sendo construída. Isso é muito maravilhoso.” Se sente esse tesão por Fortaleza, onde filmou e nasceu? “Sinto especialmente pela Praia do Futuro, esse lugar que está acabando porque o mar está destruindo as dunas.” Terrenos baldios, dunas, essas são as paisagens de que Karim mais gosta.

Uma vez, em São Paulo, o encontrei na padaria do bairro de Pinheiros, onde ele morava. “Estou com uma saudade de Berlim”, ele disse. “De quê?” “Daquela voz que fala no metrô.” A voz é uma gravação de uma mulher que fala em alemão algo como “Saia de perto da porta”. “Pois é. Claro que eu botei a voz no filme, né?”, ele diz. “São esses detalhes todos que fazem a gente amar uma cidade.”

Praia do Futuro, afinal, é ou não é autobiográfico? O personagem principal, assim como você, é de Fortaleza e se muda para Berlim... A coisa mais autobiográfica de todas é essa de sair de casa e ir para o mundo. Claro que o filme é sobre a minha casa e sobre a casa onde eu decidi viver. Mas é mais amplo. É sobre quando você sai de casa. Acho que, quando você sai, não pode mais voltar. E eu saí de casa muito cedo. Fui para Brasília, Nova York, Paris. Agora estou em Berlim. Eu fui inventando essas casas na vida. Uma amiga dizia que alguém tem que morar em muita casas para não ter uma vida chata. E eu acho que é verdade. A coisa central do filme é sair de casa e se reinventar.

No filme, o personagem desaparece e inventa uma nova vida. Essa é uma fantasia sua? Eu sempre tive vontade de sumir. Essa é uma fantasia. Começar sem passado. Isso é impossível, o passado sempre volta e te assombra. Eu queria, precisava, filmar Berlim. Esse filme só podia ser aqui. Esta cidade é nova. Filmei por amor. Filmar, para mim, é foder o lugar. Tenho que ter tesão. E precisava fazer isso com Berlim.

que faz você se apaixonar por uma cidade? Coisas pequenas. A voz do metrô, por exemplo. Eu coloquei no meu filme duas vezes. É tão lindo... Queria também filmar meu bairro. E os terrenos baldios, que eu adoro. Berlim está sendo construída ainda. Tem a coisa das bombas... Hoje eu estava voltando do médico, andando por uma rua que conheço. Olhei para dentro de um portal e era um lugar que provavelmente foi bombardeado. Olha isso! Quando morei aqui em 2004, escrevi o roteiro de O Céu de Suely, mas fotografei muito a cidade. Tenho centenas de fotos. Esse filme foi como voltar para essas fotos. Eu gosto dos sons, dos não lugares. Falar que é um hino de amor à cidade é muito pretensioso. Mas digamos que eu escrevi uma carta.

 

"Filmar, para mim, é foder o lugar. Tenho que ter tesão e precisava fazer isso com Berlim"

 

é uma carta de amor a Fortaleza também? Não para Fortaleza. Mas para a Praia do Futuro. Esse era um lugar muito importante na minha infância, e é uma praia que está acabando. O filme começa com um cara olhando para o horizonte. Ele é salva-vidas, mas a praia é vazia.

Você era tipo esse menino quando morava em Fortaleza? Outro dia achei uma coisa interessante na casa da minha mãe. Ela vinha para a Europa todo ano, porque é pesquisadora de bioquímica. Achei um livro que eu fiz assim que comecei a escrever, com 6 ou 7 anos. Ela ficava tipo dois meses fora e me mandava muito cartão-postal. O primeiro livrinho que eu fiz para a escola foi com os lugares que eu queria ir. Eu ficava com a minha avó. E morria de inveja [risos]. Tinha a coisa do meu pai também...

Qual é a história do seu pai? É uma história muito louca! Meu pai é de uma tribo da Argélia. Ele largou a gente e foi para a Argélia, depois para a França. E ficava me mandando cartão do mundo todo. Ele era engenheiro, ia para Tóquio, Arábia Saudita, só esses lugares sensacionais. Na verdade ele queria que eu fosse encontrar com ele. Mas minha mãe não deixava, tinha medo de eu ir e não voltar. Eu tinha esse imaginário do mundo, sempre esteve muito presente em mim. E, uma hora, eu comecei a rasgar essas cartas do meu pai [risos]. Teve um dia, com 8 anos, que eu rasguei várias. Tipo assim: “O que esse cara pensa? Isso é uma tortura! Fica me mandando essas cartas e não vem aqui”. Eu já queria ir, mas não podia...

Onde seus pais se conheceram? Meu pai conheceu minha mãe nos Estados Unidos. Minha mãe fazia doutorado e ele, mestrado. Isso foi nos anos 60, logo depois da Guerra da Argélia. Na verdade, meu pai foi condenado à morte e meu avô também, pelos franceses. Meu avô mandou meu pai para os Estados Unidos para ele estudar e ficar protegido. Eles casaram lá, namoraram por dois anos e foram morar no Colorado. Ele voltou para a Argélia, porque a situação já estava melhor. E lá ficou. Minha mãe voltou grávida para Fortaleza e eu fiquei com ela. Esse desejo de ir embora está no meu DNA. Fui criado para me largar. E Berlim é a minha ultima parada. Por enquanto, né [risos].

Você pensa em se mudar daqui? Não acho que saio daqui tão cedo, viu? Tenho uma rotina tão gostosa, estou tão feliz... Mas viajo o tempo todo. Eu falo: “Vou ficar três semanas sem viajar”. Mas não consigo.

Por que não? É esquizofrênico. Estou sempre falando: “Que legal ficar aqui, vou ficar dois meses sem viajar”. Aí de repente aparece uma coisa para fazer, eu aceito e entro no avião [risos]. Tipo amanhã eu vou para Rennes, na Bretanha, para uma retrospectiva. Na verdade, não precisava ir. Mas eu não aguento. Pegar avião é tão gostoso! Estou coordenando também uma oficina em Fortaleza, então vou para o Brasil a cada dois meses. Isso para mim é perfeito, porque tem a parte da ruptura que eu adoro. Aqui eu meio que me escondo. É muito fácil de desaparecer. Estamos no leste, longe. Mas estou muito presente em Fortaleza. Acho que eu nunca fui tanto ao Brasil desde que moro fora. É incrível. E o avião parece que é um trem. 

Você não fica cansado de pegar tanto avião? Não. Eu adoro avião! Adoro! Quando chega o táxi para me levar para o aeroporto é o momento de maior felicidade da minha vida. Essa viagem para Rennes, por exemplo, é ótima, porque tenho que pegar um avião, depois um táxi, ir para a estação de trem... Tudo isso em uma viagem que vai demorar só 3 horas.

Então você gosta de viagem que demora? Adoro! Amo conexão. E amo ainda mais perder conexão. Juro [risos]! Eu amo hotel de aeroporto. Minha vontade é ficar um ano entrando e saindo de avião. Tô amando que nessa viagem para a França tenho 4 horas no [aeroporto] Charles de Gaulle. Já estou pensando no que vou escrever lá, planejando. Adoro viagem pingada [risos]. Essas de ir para o Brasil, amo. Faço Berlim, Munique, Lisboa, Fortaleza. Eu amo, amo mesmo.

Você gosta de trocar de avião? De fazer conexão? Sério? Sim, é meio louco. Mas eu adoro. Na volta tem 6 horas de espera no aeroporto. É uma casa para mim o aeroporto de Lisboa. Mas paraíso para mim mesmo é o aeroporto de Frankfurt. Amo o aeroporto de Frankfurt. Amo [gritando]!

o de Guarulhos? Não gosto. É muito vermelho e marrom. Prefiro ir por Fortaleza para não ficar preso em Guarulhos. Mas eu gosto de voo longo, de tomar café da manhã. Não ligo para classe econômica, nada disso. Eu me preparo. Entro, brinco de casinha. Tenho um kit. Coloco aquele travesseirinho que eu assopro, a máscara e o cinto. Quanto está taxiando, eu já dormi. Adoro! E gosto cada vez mais porque não tem telefone, internet. São os poucos momentos em que a gente consegue desligar. E avião tem outra coisa maravilhosa: a gente não tem que controlar nada! Os outros que controlam. Se atrasar, se cair, não é problema nosso. Estou entregue. Se tiver trânsito e eu perder o avião, é culpa do táxi, não minha. Pego outro. Eu sei que é meio maluco. Mas eu amo [risos]. Imagina, horas sem responder e-mail! Isso é maravilhoso!

Você tem fobia de receber e-mail? Tenho visto muita gente sofrendo disso hoje em dia. Não gosto de receber e-mail. Você já recebeu um com alguma notícia boa? Falando que você recebeu uma grana, ganhou um prêmio? Nunca. É sempre um pedido, uma cobrança. A carta tinha uma coisa bonita, de contar história. E-mail é sempre cobrança. Coisa que você tem que resolver. Você nunca recebe um e-mail que você se deleita. É muito chato. E isso de ter pessoas com acesso direto é muito louco. Eu não consigo 

não responder. Sofro com isso. É horrível.

 

"Eu não tenho tanto conhecimento de cinema assim. Não tenho vergonha de falar isso"

 

Você disse que gosta de não ser o responsável por controlar as coisas quando viaja. No set você tem que controlar tudo, não? Sim, eu concentro tudo. Sou centralizador. E, quando não estou, parece que dá errado. Estou na ideia, no roteiro. Em todos os processos. Tenho tentado não estar com as duas mãos no processo. Mas é difícil para mim. Preciso fazer teste de elenco. Preciso estar perto. E, por exemplo, eu superencano com o pôster. Por isso eu acho que eu não conseguiria fazer um cinema comercialzão. Meu pôster normalmente não é o mais comercial. Eu fico pirando. Fiz com um cara e ele, de julho a novembro, me mandava coisas. Eu estava no avião, no mais gostosinho, de Lisboa para Frankfurt. E quando cheguei em Frankfurt, como sempre, tive uma epifania! Aqueles corredores de granito, a voz daquela mulher em alemão. Aí pronto. Veio a ideia do pôster. Eu gosto de controlar, gosto, sim, de mandar. Adoro mandar. Eu fiz colégio militar, né?

Como assim? Fiz colégio militar, vê se pode? E por ideia minha. Imagina, minha mãe era de esquerda e não queria de jeito nenhum. Fiz por vontade própria, para me rebelar, né? Imagina, coitada da minha mãe, dando aula na universidade, tendo que falar que o filho estudava no colégio militar. Imagina que vergonha. Claro, um ano depois eu desisti. E ela não deixou. Falou: agora fica até o final!

era horrível? Cara, deve ter sido. Mas eu não lembro de ter sido horrível, não. Tenho uma coisa Pollyanna com as memórias e acho que tudo foi meio bom, apesar de que deve ter sido meio ruim [risos]. Mas tinha um lado legal. Aprendi muita disciplina. E isso é fundamental no set. No set você tem que ser militar.

Qual a parte do processo de fazer um filme que você mais gosta? Eu gosto de tudo. Gosto do ofício. Mas acho que o que mais gosto é a montagem. É uma hora de se recolher. Você fica igual a um pintor. Você tem aquele material e pode mudar tudo, se quiser. Eu gosto dessa coisa do controle. E no set você não tem. Tudo pode dar errado. O ator pode cair, pode começar a chover. Em última instância, você não tem controle nenhum.

Quando você decidiu fazer cinema? Quando eu era adolescente nem passava pela minha cabeça fazer cinema. Essa profissão não existia. Então, como queria sair de casa, resolvi fazer arquitetura. Queria ir para São Paulo. Mas eu tinha uma prima em Brasília, por isso fui morar lá. Minha mãe não tinha dinheiro para me bancar em São Paulo. Depois de dois anos em Brasília pensei: “Nem morto, preciso sair daqui!”. E fui continuar a faculdade em Paris, foi quando eu encontrei meu pai. Tive que voltar porque a minha mãe não me deixou ficar, mas fui para Brasília. Para Fortaleza, mesmo, nunca voltei. Acho que a gente só volta para casa para visitar mesmo.

depois você foi morar em Nova York... Um dia meu pai me deu um presente. Ele me mandou um cheque de US$ 5 mil. Imagina, US$ 5 mil para um adolescente! Eu fui para os Estados Unidos para trocar o cheque, vê se pode! Porque tinha câmbio negro, aquelas coisas. Você acha que eu voltei? Claro que não, né? Eu tinha 21 anos e estava em Nova York com US$ 5 mil na minha mão. Comecei a fazer mestrado em arquitetura e a fazer uns cursos de teoria de cinema. Mas não era para fazer cinema. Nem tinha tanto interesse no assunto! Era mais para estudar psicanálise, arte, outras coisas. Aí fui me encantando, mas pelo viés teórico. Fiz mestrado em cinema e, na hora do doutorado, comecei a encher o saco de tanta teoria. E vi que era possível fazer. Conhecia pessoas que faziam curtas, essas coisas. Imagina, ninguém no Brasil fazia isso. Nem existia cinema no Brasil!

você começou? Entrei em um projeto de estudo legal e conheci o Todd Haynes [diretor independente americano]. Aquilo me deixou muito encantado. Pensei: “Tem gente fazendo filme com boneco, que legal”. Sabe o que eu fiz? Bati na porta da casa dele e pedi um estágio. Ele aceitou na hora. Fui para limpar lata de lixo, claro. Mas foi maravilhoso. Eram pessoas idealistas, que faziam cinema para mudar o mundo, tinha um projeto coletivo. Eu até hoje acredito nisso, em trabalhar com amigos. Isso foi fundamental para a minha formação. Sempre faço cinema com idealismo. Ele era guerreiro. Fazia filme de US$ 80 mil com efeito especial. Acho que continuo a fazer cinema por causa dessa experiência.

cinema dá dinheiro? Lembro que esse filme dele deu dinheiro. Custou R$ 80 mil, e deu R$ 300 mil de bilheteria. Comecei a aprender um pouco sobre mercado e vi que o cinema poderia ser uma coisa viável. Aí pensei: “Também posso”. E comecei a fazer meus curtas. Mas não era um projeto de carreira. E não tenho tanto conhecimento de cinema assim. Não tenho vergonha de falar isso.

Você nunca foi um cinéfilo? Não. Quando eu morava em Brasília, o lance era ir ao cineclube. Eu ia, mas não porque eu era cinéfilo. Eu ia para paquerar, porque era sexy. E no meio-tempo, claro, fui me encantando, vendo ciclos de Herzog, um monte de coisa. E quer saber? Até fazer Madame Satã eu não sabia nada de cinema [risos]. Foi um blefe [risos].

Se você não sabia nada de cinema, como conseguiu levantar dinheiro para o filme? Eu “obcequei”. Sou muito teimoso. Comecei a pensar que as pessoas deveriam conhecer a história daquele cara, me apaixonei pelo Madame Satã. Achava que era um absurdo todo mundo saber sobre Chateaubriand, Getúlio Vargas e não saber sobre ele. Eu sou teimoso. Muito teimoso. Encarei isso como uma missão: “Tenho que contar a história desse cara!”. E achei que pelo cinema era a maneira mais glamourosa de contar. Fiquei seis anos tentando, enchendo o saco das pessoas. Uma hora desisti e resolvi estudar business em Nova York. Pensei: “Estou louco, estou há seis anos tentando fazer essa merda. Chega!”. Aí começou a entrar dinheiro...

 

"Achava um absurdo todo mundo saber sobre Chateaubriand, Getúlio Vargas e não saber sobre Madame Satã"

 

por que foi um blefe? Eu trabalhei em uns três filmes em set e era um péssimo assistente de direção. Trabalhei com montagem por muito tempo, era bom, mas era péssimo como assistente. Como montador, comecei a ver muito filme, alugava mesmo, em VHS. Mas nunca tinha feito set. Fiz o dever de casa, muita pesquisa, storyboard. Mas, quando eu cheguei no set no primeiro dia de filmagem, não sabia o que fazer. E, menina, eu tinha mobilizado dezenas de pessoas! Não era um orçamento de R$ 80 mil, era uma produção de R$ 1 milhão! Estava o Walter Carvalho, era uma produção de uma festa, então tinha bicho, umas frutas. Fugiu do meu controle. Eu não conseguia fazer. Sabe quem salvou? O Lázaro Ramos, que fez o Madame. Ele estava fazendo aquilo com tanta verdade que cumpri o dia.

Voltou para casa desesperado? Pensei que tinha jogado tudo no lixo, né? Não tinha experiência. Fiz planos sem foco. Foi ridículo [risos]. No dia seguinte, a gente filmou em uma delegacia de polícia. E aí eu pensei: “Agora eu vou fazer tudo direito”. E fiz. Quando cheguei na linha de montagem e vi como tinha ficado, usei coisas do primeiro dia no filme. Porque podia não ser correto, mas tinha muita verdade. Eu aprendi fazendo o filme. Eu não sabia o que era lente. Pensa que absurdo! E eu devia saber, né? Vamos combinar? Como eu me meti a fazer cinema sem saber isso [risos]?

agora, você sabe? Fui aprendendo. Tenho um domínio muito maior do cinema do que tinha antes. Nesse filme, acho que já dá para perceber que eu tenho um domínio maior.

Mas você não tinha em O Céu de Suely, seu filme mais premiado? Não, quer dizer, acho que eu tinha bem mais ou menos, né [risos]? Mas aí volto para esse meu começo de pessoas fazendo filme por idealismo. Sei lá, se você faz de verdade, acaba dando certo.

que você acha da atual situação do Brasil? Acho que não está desesperadora, está melhor do que foi em muito tempo. Quando a gente era criança, tinha aquela coisa: o FMI, a inflação. Mas, ao mesmo tempo, acho que as coisas estão muito estranhas. E não é só no Brasil, é no mundo. Eu fico abismado com essas passeatas na França contra o casamento gay. Gente, o que está acontecendo? E o número de crimes homofóbicos no Brasil, esses Felicianos? Acho que tem uma virada à direita muito grande. Eu realmente não consigo entender o que está acontecendo. Sempre acho que a história anda para a frente, e isso não está acontecendo. O mundo anda muito conservador, esquisito. Não estou entendendo o projeto do Brasil. Existe um plano para o futuro? Existe um projeto para São Paulo? Existe transporte público, arquitetura? Não, deu tudo errado. Então, é isso, está tudo melhor. Mas, ao mesmo tempo, não estou conseguindo decifrar certas coisas. Acho que a gente tem que olhar com cautela. Vai ver é só um momento estranho. O Brasil cresceu no susto. Ninguém imaginava que o país fosse crescer economicamente, nem em sonho.

nesse filme você fala do amor entre dois homens... Eu faço questão de falar dos temas que me interessam. Acho que as pessoas estão com muito medo e tento mostrar isso. O filme mostra, sim, uma cena de sexo forte entre dois homens. Eles estão tentando se salvar. Mas quis falar sobre homem. O Céu de Suely e Abismo prateado são sobre mulheres. As mulheres são muito importantes na minha vida. Fui criado pela minha mãe e pela minha avó. Mas tive essa vontade de falar sobre o masculino. De mostrar que homem chora, sente, sofre, se ama, se ajuda, se fode. Quis, sim, fazer um filme masculino. Praia do Futuro só tem três personagens. Mas eles passam por experiências que a gente não associa à masculinidade. Fiquei com vontade de mostrar homem marrento, mau, rebelde. Tem homem que é super-herói, homem que é covarde. Sempre quis fazer um herói covarde, acho isso bonito. Pensa, peguei um salva-vidas, um clichê de um super-herói, e fiz esse salva-vidas fazer bobagem.

Em todos os seus filmes você fala sobre viagem... Todos os meus filmes falam sobre a mesma coisa: viagem e abandono. Esse resolvi contar de outra maneira. Agora, meu sonho é fazer um “Estou em um momento da vida em que me sinto mais livre para experimentar”. Antes eu pensava que tinha que fazer um cinema com olhar crítico sobre o mundo, ainda acho isso. Mas agora acho que estou mais livre.

Você é filho único? Eu sou filho único, mas tenho uma irmã. Minha mãe tem o maior problema com isso. Ela viajou uma vez para Paris e descobriu que o meu pai tinha se casado de novo e tinha uma filha. Ou seja, meu pai é bígamo, porque nunca se separou da minha mãe. Eu tenho uma boa relação com meu pai. Quando vou a Paris, janto com ele. Mas é uma relação meio distante.

Você é muito próximo da sua mãe? Totalmente. Muito mesmo. Ela está velhinha agora e doente. E, como sou filho único, tomo conta de tudo. Filho único é tão difícil, né? Às vezes, acho que devia ser proibido por lei. Essa é uma das razões de eu fazer esse trabalho em Fortaleza. De dois em dois meses, vou ver a minha mãe, fico na casa dela, levo no médico, tomo todas as decisões. Estou aqui em Berlim, mas, se ela precisar de mim, vou para Fortaleza correndo.

Você está casado com o Mario (Brandão, artista plástico) há muito tempo. Isso te dá segurança? Totalmente! Imagina, estamos juntos há dez anos. Nos conhecemos em Nova York. Tenho para onde voltar nesta minha vida louca de viajar o tempo todo, isso é muito, muito importante para mim.

 

"Tenho para onde voltar nesta minha vida louca de viajar o tempo todo. Isso é muito, muito importante para mim"

 

Às vezes você se arrepende de morar fora do Brasil? Olha, vou te contar uma história. Eu fiquei quatro anos obcecado, querendo voltar para Berlim. Convenci o Mario, que não estava assim tão certo. A gente estava morando em São Paulo e eu estava com um trabalho estável [fazendo a minissérie Alice, para a HBO]. Mas desalugamos o apartamento e empacotamos tudo. Tive um ataque. Olhava aquele apartamento todo empacotado e falava para o Mario: “Meu Deus, por que a gente está fazendo isso? Estamos loucos, estava tudo bem aqui. Por que estamos indo?” [risos]. Mas, assim que eu cheguei, vi que tinha feito a escolha certa, e não penso em ir embora tão cedo. Hoje estou muito feliz, fui ao médico e ele disse que estou com a saúde ótima, que posso viver mais 50 anos. Aí vim no metrô pensando: “Que ótimo, eu posso viver mais 50 anos em Berlim” [risos].

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