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Jogando o jogo

Caro Paulo,

Quando falamos de acolhimento, o desafio não está em acolher o bom e o gostoso da vida, mas o doloroso e o desagradável. Não é fácil acolher a doença, o prejuízo, a rejeição, o errado, o chato e a morte. Mas vamos pegar leve – e não encarar o acolhimento da morte. Vamos falar de nascimento, identidade, paz e do acolhimento dos limites que definem quem somos e não somos. Nessas águas, navego com mais conforto e segurança.
Acho que não existe maior sensação de acolhimento do que a que sentimos quando estamos na barriga da mãe. Nada nos pesa. Nem carregar o corpo nem respirar nem se alimentar. Somos acolhidos e amados pelo simples fato de existirmos. Sair desse acolhimento incondicional, nascer, crescer e se desenvolver significa entrar em contato com os limites que nos separam do outro e que definem que tipo de ser humano somos. Alto ou baixo; homem ou mulher; hetero ou homo; loiro, moreno, pardo, negro ou amarelo; com que grau de eficiências e deficiências físicas, mentais e emocionais; etc.

Quebra-cabeças do destino

Que eu me lembre – estou com 58 -, descobrir e acolher quem somos e quem não somos é o primeiro e definitivo exercício de acolhimento que fazemos na vida. E da qualidade desse exercício dependerá o acolhimento que temos com o outro e da viabilização da paz numa vida que só tem graça porque é feita de diversidade, de desafios, de aprendizados e evolução.

Imagino que a vida nesse planeta é um grande e divertido quebra-cabeças que nunca se resolve porque é composto de infinitas peças diferentes e vivas. As peças se modificam e se movimentam permanentemente e, encaixando-se e desencaixando-se umas nas outras, vão resolvendo o jogo e revelando um todo cada vez mais bonito e complexo. Só existe uma regra nesse jogo e ela nunca muda: a identidade da menor parte precisa ser identificada e respeitada para formar as partes maiores que, por sua vez, terão sua identidade identificada e respeitada para formar partes ainda maiores e assim por diante.

Como no mais simples e infantil quebra cabeças, para jogar bem esse jogo, é preciso acreditar que: 1. cada peça tem um desenho específico e seu lugar está reservado no jogo; e 2. que o todo se resolverá; mesmo que, em seu movimento permanente, ele nos remeta para um nível mais complexo e difícil de jogo. É uma questão de crença sim, embora a vida tenha muitas evidências de que a coisa funciona por aí. É verdade que, comparando com os quebra-cabeças que existem no mercado, esse tem uma dificuldade muito grande.

Não temos a tampa da caixa do jogo com a imagem a ser montada para nos orientar e facilitar a identificação das peças. Mas essa é a graça: não nos é dado conhecer o todo enquanto o todo não se revelar. Por isso é importante cuidar de todas as peças do quebra-cabeças, acolher cada uma como peça original e necessária que de fato é. Mesmo que num momento ou outro aquela peça pareça absurda e sem encaixe, ela deve ser cuidada como indispensável para a harmonia do todo. Sem aquelas crenças e desrespeitando essas regras, o ser humano pode acabar com a diversão e tornar o jogo violento a ponto de destruir peças e a guerra acontecer no lugar da evolução.

Não acredito que devemos respeitar as regras por medo da destruição ou da morte mas porque assim o jogo fica divertido e nos leva à evolução. Aliás, se a gente estiver de acordo até aqui – estamos? -, dá até para falar de acolher a morte do mesmo jeito que falamos de acolher a vida. Mas isso fica para uma próxima. Vamos ver se a gente janta antes disso. Saudade.

Abraço do amigo. Ricardo

*Ricardo Guimarães, 58, presidente da Thymus, quebra a cabeça para tentar encontrar mais sentidos para a vida. Seu e-mail é rguimaraes@trip.com.br

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