Pensando nesta edição de férias, fui a um pesqueiro. Quando
menino, pescando pequenos carás e tilápias em lagoas, guardei na
memória grande prazer em pescar. Queria conferir se ainda havia aquela
alegria. Ver, deglutir, somar o vivido ao conhecido e produzir texto é
meu esforço. Jamais sei quando consigo passar a leitura do que vivo,
mas não me canso de tentar fazê-lo.
Procurei pescaria e encontrei um mundo novo. A fazenda Maeda
fica em Itu. Só por isso já se pode imaginar o quanto pode ser vasto e
amplo o pesqueiro. São dez tanques descomunais, peixe de montão.
Além disso, tem o tancão, quase uma lagoa. Ajudei a alimentar os peixes
do tancão. Saí correndo com um saco despejando ração na água,
no meio de uma ponte sobre barris de 110 m. Quando voltei, deu
medo. Peixes enormes pulavam alto no meio da ração, batendo nos
barris. A ponte balançava desequilibrando e a água espirrava no salto
dos peixes, me molhando todo. Segurei firme e esperei passar a
euforia daquele cardume de esfomeados.
André Maeda, criador daquilo tudo, me levou para pescar em um
tanque de engorda. Colocava a isca na água e peixes enormes
avançavam, dispostos a tomar. A maior covardia. Agora posso até
me censurar, mas na hora foi emocionante, trepidante. Passei quase
o dia pescando, feliz da vida. Acho que peguei e soltei mais de 100
peixes. Pesca esportiva.
O chalé era agradável, a pousada, como tudo à volta, imensa. Depois
da pescaria, fui convidado a um jantar dançante. O restaurante é
para mais de 5 mil pessoas. Eles chegam a receber 15 mil pessoas a
cada fim de semana no pesqueiro. Havia uma cidade de gente jantando
ou dançando ao som de animada banda. A alegria das pessoas me fez
sentir próximo delas. Lamentei meus anos preso. Entre outras coisas,
não aprendi também a dançar.
Seguindo recomendação do dono, fui fazer passeios programados
para as excursões. Não estava preparado. O trenzinho parou embaixo
de três árvores gigantescas que se expandiam em todas as direções.
Cada uma com mais de 200 anos. Para se ter idéia do tamanho, no
meio delas foram encaixadas plataformas sucessivas, como andares.
Comportam cerca de 500 pessoas em cima delas. São nove andares e
113 degraus; chega a 19 m. Lá de cima a visão panorâmica é de deixar
atordoado. É uma massa de muitas toneladas de vegetação. Ficus nitida
é o nome daqueles seres únicos. Poderão chegar a 500, 1.000 anos…
É um prazer enorme estar próximo a vidas daquela magnitude.
QUE BELEZA
Segui a mata e fui dar com um esquema de 26 rodas-d’água que
funcionam sincronizadas, sem nenhum combustível. Ali dá para ver a
genialidade humana atuando. Bombeiam 700 mil litros de água/dia para
os tanques do pesqueiro. Nos pequenos lagos abaixo de cada roda,
carpas coloridas giram em paz. É comovente o modo como a natureza
é cuidada ali. Sei que é próprio da cultura japonesa, mas emocionou
muito ver o carinho que eles dispensam a cada detalhe.
No caminho de volta, por entre trilhas na mata, de repente o choque
cultural. Saí da selva e entrei no jardim japonês. Ali a arte e o prazer
humano mergulham profundo na natureza. Tudo absolutamente desenhado
para o deleite de olhos sensíveis. É de matar de prazer qualquer
um que ame plantas e árvores. Além de ser o maior do Brasil, para mim
já é o mais belo. Pequenas árvores centenárias esculturadas. Folhagens
multicoloridas em dégradés e matizes profundos. Flores, flores, flores,
todas as cores em profusão, a reorganização poética do mundo.
Na Casa da Fazenda, o amor e a arte se entrelaçam. Mesas fantásticas
feitas de cortes horizontais em árvores milenares. Pau-brasil e
imbuia, em geral. Bancos, escrivaninhas, peças originais que o dono
afirma não negociar nem por todo dinheiro do mundo.
E ainda tem tirolesa de 500 m, piscina com toboáguas, teleférico,
carruagem, playground, passeios a cavalo, caminhada em trilhas, pedalinho
e um monte de diversões. É uma enorme fazenda completamente
dedicada ao entretenimento. Consegui rir, brincar e, principalmente,
me emocionar muito com a arte e o cuidado que aquela gente tem
com a natureza. Estou suave, leve como nunca estive.
*Luiz Alberto Mendes, 54, ficou guardado durante 30 anos antes de se divertir com anzóis; sua experiência carcerária está contada em Memórias de um sobrevivente.
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