Há quem diga que depois de Shakespeare ninguém fez nada diferente. Se nos atermos aos enredos dos filmes e novelas que estão em cartaz, a maioria são realmente recorrentes aos temas das peças do grande mestre. É sempre alguém a quem se fez grande mal e que vai se vingar. Ou então a velha angústia sobre fazer ou não, conflitos familiares, o pai que não quer e vai por aí afora. “Nada se cria, tudo se copia”, dizia o Chacrinha, eu acho. De verdade, as raízes shakespearianas estão até nos menores pedaços de textos. É até de bom tom citar o vate inglês, ninguém censura, pois julgam sinal de cultura do autor.
Com certeza existe esse momento de admiração pelo texto de alguns autores. Tentar imitá-los é esforço grandioso porque, quem imita, ama o que está imitando. Imitar Machado de Assis, Clarice Lispector ou Graciliano Ramos, é tarefa que considero impossível, ao menos para mim. Querer parecer com o que se admira é humano, mas querer não é poder coisa nenhuma.
Não há nada mais gostoso que encontrar a própria voz. Certamente é parecida com o que admiramos. Dizem que alguns de meus textos lembram aos do mestre Graciliano. O que me enche, deixa gordo como um sapo, de vaidade. Identifico-me também com Henry Charriére, do livro “Papillon”; Érico Veríssimo e Charles Bukowski. Eles estão dentro da identidade que é formada em minha voz. Sou no que escrevo. Essa mistura toda de temas, reflexões, sentimentos e pensamentos, como “Ulisses” de James Joyce.
Escrever para mim é mais que liberdade. Liberdade é pouco. Escrever é meu método particular de tornar o processo pessoal em coletivo; um ato social de comunicação. A palavra é minha relação com o mundo, antes de ser meu domínio sobre ele. Então, depois de encontrar minha própria voz, imitar conscientemente, ficou sem sentido.
