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Imagem não é nada

Uma das lembranças mais vivas que eu tenho da escola, um liceu francês aqui de São Paulo, é uma frase dita pela professora a uma classe primária e distraída. “O poeta trabalha com imagens.”

A frase me caiu como um raio, literalmente. Um raio real, de trovão e voltagem metafóricos, ou seja, também reais. Fiquei tonto. Ainda hoje, lembrando aqui, sinto um pouco mais dessa tontura benigna que a frase gerou. “Como assim, imagens?”, pensei absorto num ambiente existencial cujo lado interior era o gás ainda liquefeito da minha alma nova e o lado exterior era a realidade dura da sala de aula. Logo a sala de aula, cenário fundamental da etapa inicial do processo civilizatório, em que sondas tão inteligentes quanto as bombas americanas são lançadas dentro desse gás da gente para uma missão de guerra cirúrgica: apartar a palavra da paisagem, extrair o nome da imagem, dissociar definitivamente a realidade da imaginação.

“O poeta, um escritor, trabalha com imagens?” Eu, criança, fiquei mesmo muito confuso. Na boca da professora, o poeta já parecia querer contradizer tudo aquilo que a própria professora estava lá para ensinar. O que talvez eu ainda não tivesse entendido a respeito da introdução da poesia no currículo é que ela é uma última chance oficial dada à criança de resgatar tudo aquilo que ela já nasceu sabendo e vai perder ao longo dos anos. Imaginação é paisagem. Chão é Sonho. Palavra é imagem.

Dos desregramentos que a poesia aplicou aos meus sentidos, a frase do primário deve ter sido o primeiro. Mas o maior, sem dúvida, foi ter conhecido o poeta Waly Salomão. Sorte de principiante. Meu primeiro poeta era especial entre os poetas. Como muitos deles, Waly projetou imagens no papel. Como poucos deles, Waly projetou a poesia imediata na tela da vida. Na cena da realidade. Alterando-a, ou, pelo menos, alterando-me, para sempre. Waly foi um dos meus maiores educadores.

Lembro do nosso primeiro encontro. Fui levado pelo Duncan Lindsay, um amigo comum. Lembro bem. Em HDTV, com som digital e edição emocional, afinal, como dizia o próprio Waly, “a memória é uma ilha de edição”. Faz uns 15 anos. Waly estava hospedado no mais banal dos apart-hotéis de São Paulo. Toquei a campainha. E ele abriu a porta de uma amizade instantânea. De humor à primeira vista. Conversamos, numa troca justa, ele entrando com o verbo e eu com a gargalhada. Aí o telefone tocou. Ele atendeu à janela, olhando para a cidade. Atrás dele, eu procurei discretamente o relógio. Pra quê. “Tá atrasada, querida”, ele perguntou, virando direto na minha direção. Enrubesci, claro. A professora primária da escola francesa não tinha me avisado que poeta tem um olho nas costas.

“Não é nas costas, não, é no cu mesmo.” Ele não disse isso. Mas foi por acaso. Quem conviveu com o Waly sabe que ele certamente me diria uma coisa dessas, mesmo tendo sido apresentado a mim havia poucos minutos, sempre em sintonia radical com os versos de Oswald de Andrade que ele adorava citar: “Poesia é tudo: jogo, raiva, geometria/assombro, maldição e pesadelo/mas nunca/cartola, diploma e beca”. Poesia é deseducação. E a poesia 24 horas de Waly vinha às vezes travestida em blagues ácidas e pedestres, ou em agressividades quase sempre macias, congregadoras, golpes certeiros no apartheid existencial em que pode se transformar a boa educação. E, onde quer que se localizasse de fato o tal do olho, a impressão era de que ele era mesmo onisciente. Na vida e no papel. Como se pretendesse ser algum radar total, alguma câmera irrestrita, algum browser esfomeado, conectado à existência em banda larga. Para processá-la. Para transformá-la.

Waly nasceu em Jequié, Bahia. Em sua trajetória, a escola, a biblioteca, o livro, foram fundamentais. Além do que leu e publicou, Waly se tornou secretário da Leitura do Ministério da Cultura, onde criou o projeto Fome de Ler, que levaria uma cesta básica de livros a todas as escolas brasileiras. O projeto foi abortado pela morte prematura do poeta, há dois anos. Além da saudade mortal, guardo de Waly uma lição de vida. É fundamental educar-se. É vital deseducar-se.

Currículo da vida
Três, dos 3 milhões de pilares da minha primeira formação, foram minha mãe, Jesus Cristo e Arthur Rimbaud. Sinceramente ainda não descobri o que isso significa.

*Carlos Nader, 41, o da foto acima, é videoartista e, secretamente, desde menino, poeta. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com

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