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Hora extra

Por Louise Dreier

Em fevereiro de 2005, passei uma madrugada fugindo de extraterrestres no deserto de Los Angeles. Sob uma chuva fina, fazia parte dos mil refugiados que tentavam atravessar uma ponte para onde supostamente viria um barco ao nosso resgate. Por mais rápido que andasse, era impossível passar da marcação número 3 antes do “Cut!”. A outra possibilidade de fuga se resumia a uma van com capacidade para 8 passageiros, o único veículo que ainda funcionava no meio daquele caos. Mas o Tom Cruise se recusava a parar, limitando-se a olhar-nos com (exagerado) espanto. Na verdade, a culpa não era dele, mas do motorista do caminhão com câmeras que rebocava a sua van. Assim como todos ali, recebera ordens do titereiro Steven Spielberg, que mandava e desmandava do interior de um jipe com vidros fumê, através do seu porta-voz. Como figurante do lote F, minha obrigação era povoar a primeira parte da ponte e, mais tarde, bater na janela da van quando ela passasse em frente à capela. Não deveria esmurrar o vidro, simplesmente bater de leve e dizer coisas como “please stop” e “help”.

Enquanto implorava para que o astro de Guerra dos Mundos me salvasse, a cena toda me pareceu muito ridícula e sofri um acesso de riso. De um megafone surgiram então os gritos do assistente de direção: “Steven viu gente rindo. Não se ri nesta cena”. Alguns instantes depois, alguém me cutuca. Trata-se de um capacho da produção que me coloca lá no fundo, arruinando a minha breve carreira hollywoodiana. Assim que a chuva estiou, ligaram sprinklers (aquela tubulação que produz chuva cenográfica). E nada de guarda-chuvas! (Steven não gosta de guarda-chuvas.) Às 5 da manhã, quando a respiração vira fumacinha, isso é possivelmente uma das coisas mais malvadas que se pode fazer com um ser humano, mas nem o Sindicato dos figurantes poderia brigar por nós, já que a produção cumpria a lei nos pagando $5 a mais pela inconveniência.

Após uma hora de trabalho, alguém percebe que há um cartaz da produção no meio da cena e é preciso recomeçar. Já tinha zunido a minha merendeira de refugiada quando o aderecista me viu: “Cadê o seu adereço? Tome esse.” E me deu a maior mala sem rodinhas que já vi em minha vida. Enquanto isso, o Tom Cruise, que receberia US$100 milhões pelos seus serviços, é escoltado até o seu helicóptero. Hipnotizados, acenamos para o nosso colega de trabalho: “Goodbye, Tom!” Novamente alguém me cutuca. Dessa vez é um homem ensopado comendo um cachorro quente, avisando para eu andar logo se quiser jantar, que as salsichas estão acabando.

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