Honestidade x Corrupção

O homem tem condições de ser honesto, justo e humano, caso venha a ser colocado em alguma posição de poder ou mando?

por Luiz Alberto Mendes em

O homem tem condições de ser honesto, justo e humano, caso venha a ser  colocado em alguma posição de poder ou mando? Acabo de assistir novamente o filme Hannah Arendt. Além da força interpretativa de Barbara Sukowa, ficou em mim uma impressão que a discussão ali não era somente o que fez Adolf Eichmann. Ele se colocava como "pau mandado" de Himmler e Hitler. Um alto funcionário, na verdade um burocrata, que seguia rigorosamente as diretrizes do governo de seu país. Ele se isentava de culpa. Afirmava que apenas cumprira ordens dos mais altos mandatários que governavam legalmente seu país. Mesmo que essas ordens inferissem na morte de mais de seis milhões de pessoas. Em sua opinião, estava sendo apenas um funcionário leal e eficiente ao governo de seu país. Mas se contradiz: havia sido encontrado na Argentina e julgado em Israel. Fugira da Alemanha incendiada pelos aliados, decerto por se saber culpado. Inocentes não fogem.

A filósofa Hannah estava no julgamento contratada pela New Yorker, revista norte americana, para fazer a cobertura do evento. Ao fim e ao cabo do julgamento, ela escreve um texto que é dividido em 5 artigos. Hannah havia concluído que nem todos que participaram daquela monstruosidade eram de fato monstros. Eichmann, para ela, era como qualquer pessoa comum, apenas que não pensava, deixava que seus chefes pensassem por ele. E é ai que ela exibe o seu terror: eram homens normais que haviam feito toda aquela desgraça monumental e por não possuírem opinião própria. Não eram capazes de questionar; nem todos eram loucos, psicopatas. A maioria deles eram pessoas comuns, alemães obedientes ao comandante de seu país. Então essa é uma questão do ser humano e não tão somente "daqueles" homens.

É até interessante como não se fala em mulheres nazistas, parece um movimento só de homens. Será que, na época, as mulheres ainda não tinham voz ativa? E ela vai mais fundo ainda quando relata que não seriam tantas as mortes caso algumas lideranças judaicas não houvessem colaborado na matança de seus iguais. Conclui que a covardia e o medo também são formas de apoiar e colaborar com o carrasco. E a partir dai, sofre extrema perseguição da comunidade judaica, sendo ela judia, sem jamais abdicar de suas verdades.

Devemos nos render ao fato de que, diante do poder ou do dinheiro, o homem é corrupto, como queria um certo barão? Ou ainda podemos falar em homens de princípio, éticos e incorruptíveis? Caso fosse colocado na posição de Eichmann (ele era competente e incorruptível), o homem comum cederia às ordens e pressões superiores? Complicado, não é mesmo? Também achei e por isso estou escrevendo para ver como pensam os outros.

Pensando em termos de governo em nosso país, há tantas denúncias de corrupção a nível federal, estadual e municipal que dá até para pensar que a corrupção campeia solta por ai. Na esfera do cidadão comum também há corrupção? O que dizer dos bancários? Eles poderiam ser a prova de que ainda dá para confiar no homem. Lidam com muito dinheiro o dia inteiro e é raro aquele que se deixa seduzir pelo roubo. A porcentagem é mínima, insignificante, segundo afirma a própria federação dos banqueiros. Já os empresários parece que partem do princípio que seus funcionários são desonestos por natureza. Revistam todos, sistematicamente, à saída do trabalho. Nos aeroportos passamos por aparelhagem destinada à vigilância, qual fôssemos todos terroristas, traficantes ou sequestradores.

Será que a sociedade moderna concluiu que não somos dignos de confiança e que a única solução é criar várias câmaras de vigilância e inspeção? O homem que vigia o homem que vigia o outro homem? George Orwell estava prevendo o futuro ao criar "1984"? E onde vai parar isso? Quem será o ultimo nessa cadeia de vigilância? O Presidente? Por incrível possa parecer, eu sei que a maioria das pessoas vive honestamente, sustentando suas famílias com seu trabalho. Outro dia a taxa de desemprego no país era a mais baixa de todos os tempos. Mas e se esses que vivem honestamente forem colocados em posição de mando e decisão sobre capitais ou propriedades, continuarão absolutamente honestos?

E eu (essa pergunta que não quer calar), como reagiria? Nossa! Seria um teste definitivo para saber se estou realmente firme em meus ideais e disposições pessoais. Dá até um certo receio. Mas, com certeza, me sentiria estimulado pelo desafio, não fugiria ao pau e encararia de boa.

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Luiz Mendes

28/04/2014.    

 

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