Os acontecimentos a seguir descritos aconteceram de verdade. Não são um delírio, uma metáfora ou uma cena deixada de fora do roteiro de Cidade de Deus ou de O Invasor. Podem ser lidos ao som de ‘My Way’, na versão dos Sex Pistols. São Paulo. Dois dias depois do domingo da primeira rodada das eleições. Hora do almoço. Restaurante sofisticado, mas não metido, perto da avenida Faria Lima. Todas as mesas lotadas, ninguém em pé esperando. Os clientes sentados às mesas podem ser publicitários, jornalistas ou executivos de empresas. Algumas gravatas, muitas calças com pregas, mocassins. A classe média no paraíso. Conversam calmamente de negócios, planos e oportunidades. Alguns falam inglês. Na mesa do lado direito, três homens falam do resultado das eleições. Compra e venda de terrenos, escrituras. Falam mal dos bancos. Na mesa à esquerda, um homem e duas moças falam de fotolitos e gráficas. Na minha frente, entre meu amigo carioca e eu, um prato de risoto de perdiz com favas ao molho de vinho a vinte reais está sendo acompanhado de uma garrafa de água mineral sem gás. Lá fora, sol forte e tempo quente, com certeza vai chover mais tarde. Aqui dentro, o ar-condicionado deixa a temperatura no nível certo. Uma luz agradável se filtra pela janela de vidro. Por pouco não podemos falar de calma, luxo e voluptuosidade. Galinha sem cabeça Pouco antes das duas da tarde um rapaz jovem, alto e forte entra no restaurante. Deve ter 20 anos. Veste camisa verde e suja de tecido grosso, calça curta de jeans recortados à mão, chinelos nos pés. No ombro, um caixote de madeira. Daqueles de engraxate. O rapaz é negro e tem a cabeça raspada. Em um casting fotográfico poderia ser escolhido para ser surfista. Poderia ter saído da Febem. Poderia, também, desfilar em alguma Fashion Week. Passa a ser o único negro no salão. Dá dois passos e olha em volta. Rapidamente uma das garçonetes vai falar com ele na tentativa de que volte em direção à porta. O rapaz não se intimida. Se esquiva da moça e vai em direção à mesa ao meu lado, a mesa dos três homens que reclamam dos bancos e seus lucros fabulosos, pára e pede alguma coisa. Engraxar o sapato? Dinheiro? Eles fazem de conta que o rapaz não está lá. Ou que são surdos, ou mudos. Mudos não, porque não param de falar entre si. Talvez façam de conta que estão em outro planeta. Que são de outro planeta. O rapaz vai dar um murro na mesa? Não, vira cento e oitenta graus e vai em direção ao bar. O barman sai de trás da barra e fala com ele. Uma mão no ombro, o corpo empurrando suavemente para a porta. Tudo com muita calma. O restaurante inteiro percebe o que está acontecendo, mas o incrível acontece: ninguém faz nada. Os rostos viram imperceptivelmente. A expressão corporal das pessoas continua a mesma, apenas um pouco endurecida. O que mudou foram os olhares das pessoas que se mexem independentemente de suas bocas, de suas mentes. Um ritmo assustado de galinha sem cabeça, tentando manter o controle. Calma violência, violência calma, é a violência de minha alma, diz o cearense. O engraxate, neste momento, está sendo envolvido entre o barman e duas garçonetes. Os três falam baixo com ele, são gentis, mas o rapaz consegue se esquivar novamente. Vai em direção a outra mesa, ao meu lado. A dos caras falando de fotolito que também ignoram a presença dele. Não param de falar e fingem que não estão nem aí, como se o que estou vendo fosse uma alucinação exclusiva para os meus olhos. O ignoram. Tempo de malemolência Neste momento ponho a mão na minha carteira e tiro uma nota de dez reais que estendo em direção ao rapaz sem falar nada. É das novas, com aquela estrela de não sei quantas pontas sobre um plástico transparente. Fico mudo com o braço erguido em sua direção. Segurando uma isca? O cara pega o dinheiro, me parece que agradece e vai embora. Por um instante acho que fiz a coisa certa. Depois, não sei. Alguns olhos de galinha giram na sala do restaurante, bolas de pingue-pongue incontroláveis convergem sobre mim. Aprovação? Reprovação? Fiz alguma coisa errada? Só dez reais, por que não vinte – o que custa meu prato de risoto que esfriou definitivamente na minha alma? Por que não cinco? Deveria ter jogado pó de pirilimpimpim sobre minha cabeça e ficado invisível também? Fazer de conta que não vi o que vi? Deveria convidá-lo a sentar na mesa e oferecer-lhe um prato? Pedir que engraxasse os meus sapatos e explicar que assim também se começa na vida? Mas por que sou eu, e não o Estado com todas as suas obrigações, que devo tomar conta dele? Devo dar graças aos céus que o cara não estava armado? Ele vai voltar armado? Quando ele voltar armado, terei comprado minha vida por dez reais? Ou a perderei por causa disso? Se os caras da mesa ao lado tivessem se encontrado com ele na rua, à noite, sem a proteção numérica da maioria, o teriam ignorado também? Ou será que ele entrou apenas para provocar? Se for assim, meu caro, foi perda de tempo. Para os que estavam almoçando lá, naquele dia, o jovem engraxate negro de cabeça raspada, camisa verde e calça jeans rasgada nunca existiu.* J. R. Duran, 49, é fotógrafo e enxerga muito bem. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br