Fotomontagem do próximo projeto de Srur, espalhar 100 caiaques no rio
Pinheiros, em São Paulo: “Vejo o rio morto e tenho que preencher como
se fosse uma tela”
por Fernando Luna
Só idiotas não se deixam levar pelas aparências. É bater o olho nos dois e ter um resumo de São Paulo, onde nasceram e cresceram. Dos contrastes da cidade, em especial. Eduardo Srur, 32 anos, é filho de pai brasileiro e mãe argentina. Sempre morou nos Jardins, bairro privilegiado da capital paulista – apesar de só restarem jardins no nome ou dentro de casas protegidas por muros e cercas elétricas. Marcelo Cidade, 26, é filho de brasileiros. Vem da Vila Sônia, região de classe média baixa, limite da Zona Leste remediada com a Zona Sul devastada.
Srur é alto, Cidade é baixo. Srur tem porte de surfista, jeito de surfista e é surfista mesmo. Pega onda, faz snowboard quando viaja. De cara, parece mais um local de Maresias que de galeria de arte contemporânea. Cidade tem talhe de skatista, ar de skatista e andava mesmo de skate, até machucar para valer o pé num campeonato amador de street. À primeira vista, lembra mais alguém à beira de um half-pipe que freqüentador de galeria. Só idiotas se deixam levar pelas aparências: os dois são representados por uma das galerias mais inquietas do país, a Vermelho. Estão se tornando habitués de mostras importantes. Srur fica até 28 de maio no Rumos, no Itaú Cultural paulistano, um afiado detector de novos talentos. Cidade prepara um trabalho inédito para a próxima Bienal de São Paulo, distinção rara a um artista tão jovem. Esse início de carreira promissor é outra das poucas coincidências entre eles.
E talvez dê para esgotar neste parágrafo as semelhanças que restam na dupla – aliás, dupla apenas nesta entrevista, jamais trabalharam juntos. Srur e Cidade fizeram artes plásticas na Faap (Cidade ainda tem de acertar uns carnês atrasados na faculdade, onde a mensalidade passa de 1500 reais). E, finalmente, os dois sempre se interessaram pelo que acontece nas ruas. Fora isso, seus perfis voltam a se distanciar. O modo como cada um se relaciona com a cidade, pessoal ou profissionalmente, é muito distinto. Suas diferenças se complementam, e juntas oferecem uma visão original do que é viver numa cidade tão cheia de contrastes quanto São Paulo – ou quanto qualquer cidade grande e desordenada.
Srur circula numa moto, uma Honda Falcon de 400 cilindradas, ganhando tempo entre engarrafamentos. Cidade prefere caminhar, mesmo que isso signifique andar por duas horas até seu compromisso. Um se mostra, outro se esconde. Srur amarra, sem permissão, uma âncora no símbolo da cidade que não deveria parar. Aí, telefona para avisar o jornal, garantindo uma repercussão que a maioria das exposições jamais terá. Foi assim com sua intervenção no Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret. Cidade remove sem ninguém notar (especialmente a polícia) uma placa sinalizando a cinzenta Zona Leste de São Paulo. Depois a transporta por 450 quilômetros para a Zona Leste carioca – onde passa a indicar o oceano Atlântico, emoldurado pelo Pão de Açúcar. Leste Maravilhosa é o nome da performance, devidamente registrada em foto. O playboy e o mano? Srur e Cidade não cabem nesses estereótipos.
Como viver em São Paulo influencia o trabalho de vocês?
Srur – É fundamental estar aqui. Antes, sempre viajava pra sair de São Paulo, esse lugar me incomodava. Depois que meu trabalho começou a ir para a rua, passei a sentir falta de participar da cidade ativamente. Não fujo mais. Meu estúdio ficou pequeno: agora preciso da cidade, é meu laboratório.
Cidade – Claro que não era consciente, mas desde pivete São Paulo me influencia. Jogava bola na rua, andava de skate… Skate é um jeito de subverter a arquitetura, você usa a escada e o corrimão de outra maneira. É uma vivência diferente daquela de quem só usa a cidade para ir e vir do escritório. O grafite é um outro jeito: você procura linhas de trem e buracos na cerca para entrar e grafitar.
Como a arte entra nisso?
Cidade – A arte veio como uma maneira de entender melhor o que eu fazia. Antes era mais intuitivo, era mais “Vamos foder tudo!”. Agora, pra mim, grafite é outra coisa, é você numa micropolítica, tem um lado sociológico. Faço na maior cara-de-pau. Se alguém me pára, uso uma desculpa, jogo uma groselha conceitual pra justificar. Mas sem falar que é arte, por favor.
Que tal uma das galerias mais tradicionais de São Paulo, a Fortes Vilaça, expor grafite?
Cidade – Sou bem contra… Não é contra, mas tenho uma opinião forte: grafite pra mim é subversão, ilegal, acontece na rua sem autorização. Desse jeito, são bons trabalhos de pintura, pinturas-murais. É uma coisa estética, de design. Como o pessoal não tem base crítica e precisa de grana, aceita isso.
Srur – [Interrompe] Fui viajar e voltei com o prédio pichado. Invadiram minha casa, pegaram minha tinta, meu pincel. Depois ainda lavaram o pincel, deixaram em cima da pia e foram embora [risos]! Até hoje o pessoal do condomínio acha que fui eu…
Cidade, você tomou muita dura pichando?
Cidade – Tomei processo e me fodi mesmo. Quando faço grafite, faço grafite. Não é arte, é vandalismo. Então, quando o cara me enquadra e pergunta o que tô fazendo, respondo que tô fazendo vandalismo mesmo, tô fodendo tudo.
Por que o processo?
Cidade – Por pichar um trem. Parece banal falando assim, mas era pichar um trem de ponta a ponta. Três semanas seguidas fodendo Carapicuíba [município da Grande São Paulo]… Na quarta, tavam esperando. Aí tem que usar “sim, senhor” e “não, senhor” pra não morrer, porque lá neguinho dá tiro em pichador. O cara tenta tirar uma grana. Como não tem grana, faz direitinho e vai todo mundo pra delegacia. Estou pagando advogado não sei por que, o negócio não anda! Pra viajar pro exterior no ano passado, precisei da autorização do juiz…
Placa da Zona Leste paulistana que Cidade transferiu para o Rio de Janeiro
E você, Srur, foi enquadrado quando amarrou uma âncora no barco do Monumento às Bandeiras, um símbolo de São Paulo?
Srur – Botei a âncora lá à luz do dia, em praça pública, sem autorização. Foi rápido, uns dez minutos. Já tinha terminado quando chegou a Guarda Metropolitana. Falei pros caras que tava tudo autorizado e fui embora. A surpresa é que, depois de umas três semanas, fui lá tirar a âncora e a polícia não deixou [risos]. O cara disse que era patrimônio da cidade!
E quando explodiu bolsas de tinta em outdoors publicitários?
Srur – A polícia parava e eu dizia que as bolsas eram parte da publicidade. Quando iam embora, acendia o pavio e documentava a explosão. Estava andando no limite, na fronteira: o outdoor é um objeto privado no espaço público, está no meu campo de visão. Tem um bombardeio de publicidade em cima da gente. Porra, vou responder!
Qual foi a reação das pessoas?
Srur – Uns disseram que sou vândalo, outros gostaram. Claro que em termos práticos não faz diferença explodir 40 outdoors. Os anunciantes compram pacotes de 300, 400 outdoors. Mas eu queria é mostrar que qualquer um tem capacidade de responder ao sistema, em vez de só receber tudo passivamente.
De que outras maneiras a produção de vocês afeta a cidade, as pessoas?
Srur – A cidade tem uma dinâmica muito perigosa. Muitas intervenções são devoradas por ela, e não surtem efeito nenhum. Por isso me preocupo com a dimensão e com a escala do que faço. Meu próximo projeto é espalhar 100 caiaques por quatro quilômetros do rio Pinheiros. Vejo aquele rio morto, inerte, e tenho que preencher como se fosse uma tela. É um empreendimento, são 400 mil pessoas passando ali pelas marginais todos os dias. É uma questão matemática: se milhares de pessoas vêem o trabalho, gera mais reflexão que quando apenas algumas vêem.
O que o trabalho de vocês tem em comum?
Cidade – Vejo mais diferenças que semelhanças. Nós dois começamos com pintura e temos a ação na rua como fator importante para produção… Mas os processos são opostos, meu modo de agir sobre a cidade é diferente. Tento cada vez mais me camuflar, ficar anônimo.
Srur – Gosto de meter o peito mesmo. Boto a âncora e ligo pro jornal falando que botei um bigode na Monalisa paulistana. E aí sai na capa. O importante é saber que a mídia está ao seu dispor. Não tenho exposição em galeria, mas me sinto muito bem lá fora.
Cidade – Quando entrei pra galeria deu uma certa crise. Na faculdade tinha aquele papo de ir contra as instituições. Acho que a mudança deve vir de dentro. Quem vem aqui [na galeria]? Vem perua comprar meu trabalho, e não é só pra enfeitar a casa dela ou pra combinar com o sofá. Tem coisa por trás.
Muitas galerias de arte lembram um frigorífico. São frias, não dizem nada pra maioria das pessoas, estão sempre vazias. Ir pra rua foi um jeito de contornar isso?
Srur – Sinto esse incômodo também. É comum levar uma pessoa numa exposição e ela perguntar o que é aquilo. E com freqüência também não sei que merda é aquela!
Cidade – O cara até gostaria de ir à galeria, mas todos os problemas sociais etc. criam um grande distanciamento. Vai vir aqui ver uma coisa que não entende? Mas, ao mesmo tempo em que vêm umas peruas, a molecada que mora debaixo do pontilhão aqui perto vinha todo dia à exposição pra pegar moedas que as pessoas atiravam dentro de uma das obras [a escultura-instalação Transestatal, uma espécie de fonte de cachaça]…
Como você lida com essa divisão que existe nas grandes cidades?
Cidade – Tem que aproveitar as brechas que existem no sistema. Pra mim, dá muito tesão meter um tag numa vitrine da Oscar Freire ou assinar meu nome no muro sem ninguém saber quem fez aquilo. Ou ver o metrô passar inteiro pintado na Sé e o pessoal perguntar “caralho, como isso aconteceu?!”. São brechas…
Vocês acabam representando dois lados de São Paulo: Srur é o cara criado nos Jardins, e o Cidade é da Zona Sul.
Srur – Minha mãe era argentina; meu pai, brasileiro. Eles se casaram na Argentina, e viemos para São Paulo, para os Jardins. Sou catalogado: “Esse não é artista, é surfista”. Gosto de surfar, meu oxigênio é a natureza. Fui expor na Suíça, passei dez dias lá. Resolvi o trabalho em um dia e fiquei oito na montanha. Quando a curadora foi me buscar, me encontrou com prancha, botas: “What happened?!”. Ah, snowboard [risos]…
Cidade – Nunca tive essa coisa de sair em fim de semana, feriado. Todos meus amigos iam pra praia, mas eu era o chatinho e ninguém convidava [risos]. Ficava em São Paulo e tinha que me virar com alguma coisa. Cresci na Vila Sônia, quando a família tava bem de grana fomos pra Giovanni Gronchi. Aí faliu tudo e voltamos pra Vila. Hoje vivo em Pinheiros, ali perto do largo mesmo.
O que mudariam na cidade?
Cidade – Metrô pra galera. Não só pra pintar. Com o trânsito, nem adianta ter carro em São Paulo. Prefiro caminhar duas horas a ficar preso num ônibus ou num carro. E o que faz a cidade ser um gerador de empregos, um gerador econômico, é o fluxo dentro dela, é a mobilidade.
Srur – Gostaria dos rios despoluídos, o Pinheiros e o Tietê. Moro em frente ao rio, é um retrato da destruição causada pelo cara que joga lá uma garrafa de guaraná e pela empresa que ainda despeja produtos químicos… A cidade nasceu do rio, né?
