Caro Paulo,
Eu acredito que tudo tem uma razão de ser. Não me refiro a uma causa. Mas a um propósito. Até uma guerra. Você prestou atenção no que aconteceu no mundo dia 15 de fevereiro deste ano? Passeatas em todas as capitais juntaram mais de 10 milhões de pessoas manifestando sua opinião contra a guerra no Iraque. O impressionante não é a passeata em si, mas a forma como ela se deu. Foi organizada pela internet com um mínimo de esforço. Não houve grandes alvoroços de mobilização, nenhuma campanha durante meses avisando dia, hora e local ? e de repente 10 milhões de pessoas saem às ruas no mesmo dia, no mesmo horário, com a mesma intenção.
Nova superpotência
Isso é muito novo. Mostra um comportamento que a sociedade não tinha até pouco tempo. O pessoal do The Economist chamou essa capacidade de mobilização veloz sem uma estrutura ou uma instituição que a lidere de enxame de abelhas ? swarming ? porque se caracteriza por uma mobilização de indivíduos, não de partidos ou associações.
Isto é, a humanidade tem capacidade de agir e manifestar sua vontade através dos indivíduos, e não apenas através de suas organizações que são facilmente manipuladas e manipuladoras. É o poder do indivíduo que começa a se estruturar em termos sociais e a mostrar sua força. Koffi Annan, secretário geral das Nações Unidas, em março de 2001, durante palestra no Fórum das Américas, no Equador, já se referia a essa força. Olha que visão emocionante:
?A tecnologia da informação conferiu à sociedade civil mais poder para se tornar a verdadeira guardiã da democracia e da governabilidade em toda parte. Os opressores não podem mais se esconder nos limites de suas fronteiras. Uma sociedade civil fortalecida, unida através de todas as fronteiras com a ajuda das comunicações modernas, não lhes permitirá fazê-lo. De certo modo, a sociedade civil tornou-se a nova superpotência ? pessoas determinadas a promover melhores padrões de vida numa liberdade mais ampla. Cada movimento começa em algum lugar ? usualmente da ruptura. Não existem limites ao que pode ser alcançado pelas campanhas de amanhã ? campanhas ainda não concebidas, para causas ainda não articuladas, defendidas por corações e mentes ainda em formação. E freqüentemente bastam aquelas mentes únicas acreditarem que suas missões são as mais importantes, e também serão provavelmente capazes de torná-las as mais bem-sucedidas.?
Atitude ativista
Você não se sente mais poderoso e ao mesmo tempo mais responsável depois de entrar em contato com uma visão dessas? É isso aí, Paulo. Quando o indivíduo se vê com poder e pertencendo naturalmente a um grupo maior, ele é combativo, otimista, faz acontecer. E é o poder, agora cada vez mais imbatível, do indivíduo comum. Não de bushes e saddams que dependem de grandes resoluções para agir ? mas de mim e de você, de nossas mães, irmãos, companheiros de trabalho, dos nossos queridos leitores. Pessoas que têm o poder do cotidiano, das pequenas e poderosas resoluções.
Uma vez atingida a consciência desse poder, a conseqüência natural é o ativismo como uma atitude cotidiana na vida. Essa é a nova experiência que estamos vivendo e que, apesar de ser por meio de uma guerra, anuncia um mundo novo cheio de esperança, com uma dinâmica de poder totalmente inédita. Sou capaz de apostar que já estamos mudando a história. Quando fechamos esta edição, a paz estava ganhando essa guerra. Espero, isto é, não espero ? estou fazendo de tudo para ela não acontecer, de e-mails a passeatas, de conversa em família à coluna na revista TRIP.
Fica com um abraço ativista e pacifista, espero te ver na manifestação.
Março 2003
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