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GRITO DE CARNAVAL

Esta é, junto à semana que antecede ao Natal, uma das mais chatas do ano no quesito áudio. Beira o insuportável ligar rádio, televisão oupassar perto de qualquer lugar público e ser obrigado a ouvir refrões idiotas como ‘Olhaí geeente!!! seguidos de besteiras pretensamente históricas entoadas por vozes ininteligíveis.

Se você é do tipo que não vê a hora de dar seu grito de carnaval, antes preste atenção neste grito.

MAIS DE 130 MILHÕES DE PALHAÇOS NO SALÃO

O que há mais para dizer do Carnaval? Pouco. O que interessa e principalmente o que não interessa já foi dissecado. Sérgio Mallandro, apesar de gostar de jiu-jitsu, tomou um pau na Sapucaí. Marcos Frota foi grosso com garotas no camarote da Brahma. Modelos paulistas tiveram sua bundinhas apalpadas por negrões gigantes na avenida. Quem quer saber?

Há grito que talvez valha a pena. Um brasileiro chamado Pericles Washington brincava seu carnaval como fazia há muito, no plantão do Hospital das Clínicas. Quem já pisou lá, sabe o que é o antônimo exato da realidade virtual. O dr. Pericles e seus colegas desfilavam pelos corredores fantasiados de santos e escravos, remendando a orelha arrancada, removendo as balas da coluna, recompondo tecidos, enganado os desenganados como se tudo não passasse de realidade. Uma senhora com seus 60 anos entra numa cadeira de rodas de lona, lúcida e relativamente sóbria. Nem parecia Carnava, exceto pelo adereço. A tiazinha resolveu cravar na têmpora direita a lâmina de uma faca, batendo com a cabeça contra a parede de modo que o cabo pressionasse o crânio e varasse a bicheira.

Ninguém acreditou. O raio X era lindo. Mostrava a lâmina inteira trespassada no cérebro, e até o cabo preto aparecia na chapa. A ponta saiu do outro lado. E não era faquinha de chupar laranja. Se não fosse a época, diria que era uma legítima faca Ginso, aquela grossona de cabo preto, da rua Cadiriri, que corta até sapato.

O bloco dos médicos entrou em concentração. Serrar o cabo e deixar a lâmina poderia ser a única saída. Tirar tudo deixaria buracos como olhos de côco verde por onde sairiam coisas e entrariam outras tantas: a originalidade da fantasia tirou o ar da comissão julgadora. Resolveram secar o objeto perfuro-contundente, com cabo e tudo.

Segundo consta, a mulher está viva até hoje e só perdeu o olfato. Nem cheiro de outras sequelas.

Agora só resta deixar no ar a pergunta que não quer calar: ‘Vai brincar onde??’

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