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Grande sim

Caro Paulo,

Sim ou Não? É a pergunta mais simples e fácil de fazer e, talvez, a de resposta mais complexa e difícil de dar, principalmente se você escolheu tomar decisões conscientemente em sua vida. Tenho prestado muita atenção em como as pessoas decidem, inclusive eu. Outro dia, quando participamos do referendo sobre desarmamento, tive uma boa oportunidade de avaliar a oscilação entre o Sim e o Não.

Eu, por exemplo, desde antes da campanha do referendo, era Sim convicto. À medida que o debate foi se instalando na sociedade comecei a oscilar entre o Sim e o Não. Pessoas queridas e que eu respeito sustentavam argumentos muito concretos e sensatos para decidir pelo Não. Em geral, eram razões baseadas em medo e na incompetência do Estado de cuidar da nossa segurança. Falavam da preservação do direito de ter arma, mas no fundo a razão era medo. A partir do pressuposto da existência de uma guerra, o sentimento era de medo dos outros, dos marginais ou dos marginalizados. Um medo justo e real que me sensibilizava e me fazia considerar o pragmático Não como resposta.

Do outro lado, os argumentos do Sim não eram movidos por medo nem pelo pressuposto de uma guerra, mas por ideais e pela possibilidade de uma sociedade de paz.

Entre o pragmatismo do Não e o

idealismo do Sim, minha opção era anular o meu voto. Confesso que entrei na cabine de votação convicto de que votaria nem Sim nem Não, nem um nem dois mas três, como Tiago, meu filho, me sugeriu com a sua campanha “Não ao governo, Sim à paz. Vote 3”. Cheguei a apertar o três, mas não consegui confirmar. Em frações de segundo todas as pessoas e seus argumentos do Sim e do Não se encontraram e debatiam dentro da minha cabeça. Fiquei confuso. Pressionado pelo tempo e envergonhado por demorar a responder pergunta tão simples me interpelei: “Afinal, Ricardo, o que você quer?!”. A resposta veio fácil: “Uma sociedade de paz”. Então, o botão é o do Sim. Rapidamente confirmei e voltei para casa.

À noite, quando saiu o resultado – 65% Não contra 35% Sim –, reconheci: esse é o resultado do embate entre o Ricardo pragmático e o Ricardo idealista que habitam em mim. Isso quer dizer que não sei o que quero? Não! Quer dizer que eu sei o que eu quero: o Grande Sim, que me move e me entusiasma mas, às vezes, muitas vezes, são os pequenos Nãos que tomam conta das minhas decisões.

E aí, meu caro Paulo, eu concluí. É aí que mora o perigo. O poder do pequeno Não. O pequeno Não que em geral é movido pelo medo e pelo objetivo de curto prazo assume o poder quando não existe um Grande Sim ou quando ele existe mas não se faz presente.

O Grande Sim é uma visão do mundo como a gente gostaria que ele fosse. O Grande Sim é fruto da nossa imaginação alimentada pelas possibilidades e pelos prazeres e não pelas limitações e deveres. Origina-se no desejo e não no medo. Não é uma circunstância que está lá fora e que depende do governo, mas uma crença íntima que muda a circunstância lá fora e, se precisar, derruba governo. É o combustível e a fonte de energia que move o criador, o revolucionário, o pioneiro, o visionário, o empreendedor.

Decisões movidas pelo pequeno Não aparentam inteligência e sensatez no primeiro momento, mas no momento seguinte se revelam pequenas e nos levam a lugar nenhum, que, em geral, é um lugar “seguro”, chato, feio e sem prazer, e que por isso mesmo fica muito longe do lugar desejado. Repare como isso é verdadeiro nas empresas dirigidas por pequenos Nãos. Apostam na segurança em detrimento da inovação e da criação de valor. Por isso perdem atratividade de mercado.

Precisamos tomar cuidado com os pequenos Nãos. São eles que nos afastam do Grande Sim. Melhor que isso, força e poder ao Grande Sim para evitar que os pequenos Nãos desenhem nosso descaminho.

Paulo, que o seu Grande Sim continue norteando nossa Trip. Fica com o abraço do amigo que quase não votou Sim,

Ricardo.

A Bend on Porlock Hill, Crédito: J Salmon Ltd, Sevenoaks / Saiba mais na acp desta edição

*Ricardo Guimarães, 56, é presidente da Thymus e, sim, sabe muito bem aonde quer chegar. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br

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