“O único tirano que aceito neste mundo é a voz interior, suave e serena” Gandhi
Fazer alguma coisa na vida que seja significativa é simples. Mas de uma simplicidade que tem a ver com intensidade. Substancialidade da pessoa que empenha a existência no que faz. Eu li Che Guevara dizendo que afiara sua vontade qual fosse o fio da espada que defenderia sua vida. A vontade em ação é bem mais fácil. É descarrilar o trem em direção ao objetivo perseguido. Fica até parecendo que, para ser um grande herói, se faz necessário a violência: “É preciso endurecer, mas sem perder a ternura”, dizia o grande herói da revolução cubana. Seríamos capazes nós, míseros mortais, sufocados pelas nossas mesquinharias e sem nenhum pingo de vocação para herói?
Mas não é bem assim. Ainda bem. Há outros caminhos possíveis. É o que senti ao assistir ao monólogo Gandhi, um Líder Servidor, escrito por Miguel Filiage e protagonizado pelo magnífico ator João Signorelli. Digo isso de boca cheia, depois de assistir ao espetáculo pela segunda vez, em menos de dois meses.
Acompanhado do amigo Paulo Santiago, a primeira vez, fui assistir curioso. Era a segunda vez em minha vida que estava indo a um teatro. Sou profundo admirador dessa grande alma. Li tudo o que pude, tenho até, aqui em casa, uma autobiografia dele. Carreguei-a junto comigo para todo canto cheio de grades e muralhas em que fui arremessado, durante boa parte do tempo em que estive preso. Era quase uma bíblia; li, reli e consultei trocentas vezes. O livro esta orgulhosamente velhinho, ali no canto da prateleira. Uma pena não haver conseguido assimilar, em termos de comportamento, quase nada de tudo aquilo que ensinava o grande mestre. E era tão simples… Embora demasiadamente intenso. De qualquer modo, olho-o ali na prateleira e penso, mentindo-me, que nunca é tarde (sempre é tarde, só o agora faz a hora).
Além do espetáculo, fui para conhecer o João. Se houver duas palavras que definam o que sinto em relação ao novo amigo ator nesses dois meses e pouco de relacionamento, são as seguintes: simplicidade e intensidade. Sua voz sai da boca cheia de coisas que a gente sente, tão suas, do fundo de sua alma generosa. E, no entanto, é o grande líder falando. Uma voz que envolve a gente em uma doçura que só é explicável depois que a gente conhece melhor o ator. A simbiose é tão perfeita que, quando Gandhi oferece uma flor à minha acompanhante, agradeci, reverente à simplicidade do gesto.
E o João dança Gandhi. Com certeza, ele devia dançar daquele jeito mesmo. Há tamanha graciosidade e delicadeza nos gestos que a gente esquece que o ator é enorme em comparação ao personagem real. O sorriso, de tempo integral, galvaniza. É, com certeza, branco, como queria Vinícius. Aquele, o de Moraes. João se casou com o personagem e a gente sente que é ele falando do que pensa, embora seja Gandhi. São mais de dois anos interpretando e a gente sente, vendo mais vezes, que o texto agrega mais vida e entusiasmo a cada novo espetáculo.
O cenário cabe no porta-malas do carro do João. É simples, embora de cores e dramaticidade intensas. As cores sépia prevalecem, embora cada vez mais pastel. A composição é harmoniosa com a roupa que cobre aquele ser feito mais de ossos pontudos do que qualquer outra coisa. Gandhi, pelo seu porte físico, poderia ser um nordestino tranqüilamente, até pelo cajado que carrega. Ao fim da peça, quando nos encontramos, saiu até uma brincadeira sobre aquele cajado. Segundo João, compõe-se de homens a maioria daqueles que, após cada espetáculo, querem pegar no pau (o cajado) do Gandhi.
É emocionante, o tempo parece parar e o caminho torna-se inevitável. A gente sabe que é aquilo mesmo: que só o amor cura, nutre, une, entusiasma, motiva e possibilita a vida. Mas nós, pobres mortais, estamos à distância de um nunca chegar. Ainda nem chegamos ao respeito, como queremos sonhar com o amor? No entanto ele existe e tem toda essa força a nos deslocar de dentro de nós em direção ao outro.
O caminho, o texto baseado em discursos do Mahatma, demonstra claramente. Nos alimentamos de pensamentos desequilibrados e sentimentos sombrios, como ousamos querer uma vida melhor? É contraproducente. Também parece certo que o mundo não seja nem um pouco justo, mas porque nos perdermos mais ainda? Isso, creio, é possível a todos, até para um passageiro da tormenta como eu: não nos perdemos mais do que já o fizemos. Parar por aqui. É ao que nos convoca o monólogo.
A discussão é das mais sérias possíveis, embora a poesia na larga figura do personagem nos recubra de calor humano. Nos convida a refletir sobre questões como liderança, não-violência, princípios ético-filosóficos nas relações humanas, integração, cooperativismo e amor. Tendo a filosofia oriental como fundo, nos coloca como seres humanos iguais, em busca de novas experiências para evoluir com maior rapidez.
Após todo aquele show de interpretação, fomos conhecer o João. Estava ali para sondá-lo. Havia composto um monólogo e queria submetê-lo à sua apreciação. Caso gostasse, a idéia seria convidá-lo para protagonizar. Após vê-lo, eu já achava que somente ele poderia dar a vida que desejo ao meu personagem. Parece que, automaticamente, eu o vesti com as cores e odores de minha peça. Descobri, finalmente; seria ele e mais ninguém. E, para minha surpresa, após a leitura do texto, o ator aceitou o papel muito entusiasmado.
Voltei para casa certo de haver feito a melhor das escolhas. Agora, ao assistir novamente, ficou a convicção de que tudo foi muito simples, mas absolutamente intenso, como devem ser todas as coisas.
Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para a Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na Redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há dois anos Mendes conquistou sua liberdade. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
A imagem que ilustra esta coluna é de autoria do pintor austríaco Werner Horvath: “Garden of peace (Hannah Arendt, Mahatma Gandhi, Bertha von Suttner, Immanuel Kant)”. Óleo sobre tela, 60 x 80 cm, 2002
