A pergunta é: caso venhamos a conhecer, via decodificação biogenética, a disposição de nossos genes afirmando que amanhã estaremos à mercê de doenças terríveis e incuráveis, como reagiremos? Para responder, é preciso saber que essa é uma possibilidade mais que real. O projeto Genoma e as atuais pesquisas e experiências no campo da biogenética deixam isso claro.
O que é suportável e o que é insuportável? Tudo é relativo, eu sei. Einstein gastou a vida para nos explicar como. Mas tudo está condenado à superação por conta da imprecisão que a relatividade e a condição humana nos impõem. Mas, e aí, como reagiremos diante de tamanha péssima notícia?
Estar condenado a mais de 100 anos de prisão e ainda ser obrigado a matar na prisão para sobreviver com o pouco de dignidade que me resta. Saber que se estará à mercê de pessoas desqualificadas para exercer poder sobre você. Pessoas que humilharão, espezinharão, espancarão, torturarão, até por prazer e a vida toda. Estar distante, e saber que as pessoas que te amam passam necessidade e sofrem barbaramente por sua causa. Ter ciência de que estará obrigado a conviver, para o resto da vida, com presidiários; pessoas em processo de sofrimento como você. Essa é uma doença das piores que se pode adquirir, e eu tive de encará-la aos 20 anos de idade. Claro que a culpa era minha, eu sabia, mas de que adiantava isso?
Em 1947, quando os eminentes juristas formataram as Leis do Código Penal, a estimativa de vida do brasileiro era de apenas 50 anos. Cumprir 30 anos de prisão era uma sentença à morte lenta e sem apelação. No ano de 2004, quando saí da prisão, com 51 anos de idade, a estimativa de vida do homem no Brasil havia subido para 70 anos. Assim sendo, ganhei 20 anos de vida de acréscimo. Já se passaram quase três anos e estou bem, muitas vezes.
Acho que já respondi à pergunta. Acredito que, seja qual for a doença ou condição, nossa parte no contexto existencial é continuar existindo. Seguir é preciso, a vida acontece e surpreende sempre, acho. Pelo menos para mim tem sido assim, tem alguma dúvida?
[composto por Luiz Alberto Mendes em 29/01/2007]
