texto e foto Elohim Barros
Primeira residência com piscina de São Paulo, a mansão e as demais 37 casinhas da vila Itororó devem virar centro cultural no ano que vem. No mesmo ano de 22 da polêmica Semana de Arte Moderna, um tecelão português também causou barulho ao construir, no bairro da Bela Vista, a vila Itororó, a primeira de São Paulo. Extravagante, não só pelo projeto arquitetônico inédito, mas também pela compilação de ornamentos esquisitos, a construção ficou conhecida como a Casa Surrealista. Aproveitando a nascente do Vale do Itororó (que dá nome ao local), a construção foi a primeira residência particular na cidade a possuir uma piscina, e foi palco de festas grandiosas na década de 20, freqüentadas por gente como Oswald de Andrade. Com seus 4500 metros quadrados, a vila agrupa uma mansão de 4 andares, conhecida como palacete, e 37 casas ao seu redor, hoje habitadas por mais de 75 famílias. Tristemente, a vila virou cortiço.
O acesso à vila fica por conta de uma longa e estreita escadaria que desce paralela ao casarão e desemboca em uma espécie de praça que mais parece o palco de um teatro romano. De um lado o palacete, o grande camarote, e do outro casinhas que sobem o morro, como uma arquibancada interminável. “Apesar de morarmos em um dos metros quadrados mais caros da cidade o regime aqui é igual ao da Rocinha”, diz uma moradora que prefere não se revelar. “Aqui dentro não acontece nada, mas inevitavelmente vira rota de fuga.” Hoje, ameaçados de serem desapropriados, os moradores ainda carregam consigo resquícios de uma paz e elegância que já não existem mais.
Ajudar pode atrapalhar
Algumas casas ainda conservam um bom estado mas a grande maioria está comprometida pela falta de cuidado. Por esse e outros motivos, a Prefeitura de São Paulo aprovou, no começo deste ano, por decreto de utilidade pública, um projeto de transformar a vila Itororó em um pólo cultural que vai reunir cinema, teatro, literatura, gastronomia, educação e lazer. “Vamos recuperar o palacete e rodeá-lo de restaurantes e outras formas de lazer e cultura”, explica o arquiteto Décio Tozzi. O projeto tem previsão de ficar pronto no fim do ano que vem, mas para isso a desapropriação tem que ser feita até o meio deste.
“Não vai ser tão fácil… Eles achavam que iriam tirar a gente de nossas casas por qualquer 5000 reais”, se defende a moradora dona Antonia, referindo-se a uma das ofertas feita pela prefeitura e apelidada de vale-coxinha, onde a pessoa recebe 5000 reais, em dinheiro, para “voltar para sua terra de origem”. Outra opção é uma carta de crédito de 8000 reais para auxílio de construção. A terceira opção, único subsídio que foi de fato considerado, se trata de uma carta de crédito que varia de 22 a 40 mil reais.
Dona Irene, que mora com nove pessoas e um cachorro em dois quartos, faz parte de uma minoria que acha o projeto fantástico e acredita que essa é uma oportunidade de realizar o “sonho da casa própria”. “Isso aqui não é meu, não agüento mais ser vista como invasora. Quem disse que 22 mil não é dinheiro?”.
Cada qual com seus planos de vida, a vila se divide. Alguns usam advogados para se defender (amparados pela lei do usucapião), outros esperam ansiosos pela hora de mudar de vida. E a vila Itororó segue sua saga…
