por Bruno Torturra Nogueira foto Peetssa
Leon Ferrari é um tranqüilo senhor argentino, de português fluente, falar baixo e riso constante. Ri quando constata que o mundo vive uma ditadura, ri quando repara que Jesus era cruel e quando diz que o mundo está lascado. Um riso nada sarcástico – não se trata de humor negro. Soa como uma alegria a consolar um velho homem que sente estar certo: a alegria de quem, neste mundo desgraçado, até que não se saiu tão mal assim. É destaque na Bienal de Artes de São Paulo e lança livro com textos e amostras de cinco décadas de sua, hum, milagrosa produção.
Leon Ferrari é reconhecido como um dos artistas latino-americanos mais assumidamente iconoclastas – no sentido clássico da palavra: avacalhador de ícones. Ele recebe a Trip no meio de dezenas de crianças de um colégio estadual que lotam a sala, perplexas com o pobre Jesus crucificado em um bombardeiro. Leon sorri ao cruzar os olhos com um garoto que fez troça do Cristo pregado em asas. O menino não resiste e pergunta à reportagem: “Foi ele que fez, tio?”. Foi sim. “Imaginei.”
O senhor se sente um homem livre? Creio que sim. Mas durante muito tempo trabalhava para ganhar a vida enquanto fazia arte. Quando cheguei ao Brasil, em 1976, comecei a fazer só arte, de forma bem livre. Agora, por viver de arte, me considero mais livre que antes. Fazer o que se gosta é uma boa medida da liberdade. Mas minha liberdade não oculta a escravidão de muita gente, as privações e as misérias de tantos.
O senhor vê hoje um mundo pior do que quando começou a criar suas obras contra outras guerras e opressões? Na época, havia a esperança do socialismo. A queda do muro de Berlim foi a queda de possibilidades de um mundo melhor. Não que o comunismo foi excelente, mas a queda do muro demonstrou a dificuldade que o homem tem em ser socialista. Quando chega ao poder, se corrompe e o socialismo some. A última esperança hoje é Cuba, a esperança de que a América Latina ainda seja o berço do socialismo e dos direitos humanos.
Em praticamente todas as suas obras, a Igreja é relacionada com as forças que governam o mundo… Desde sempre a Igreja apóia o imperialismo. Até o Vietnã o papa apoiou! Mas ao menos os governos não eram controlados pelo cristianismo, como agora. Li recentemente que o partido republicano fez uma reunião para definir o presidente do partido… e eles elegeram Deus!
É um bom presidente… tem pulso firme… Ah, sim. E uma visão peculiar de justiça. Para fazer a paz, Deus matou toda a humanidade no dilúvio. Agora, repara: 75% dos americanos crêem no Diabo. E 30% dizem que já viram o Diabo. Cem milhões de americanos já viram o Diabo! É bom ter Deus do seu lado nessas horas [risos].
O senhor acredita em Deus? Eu sou agnóstico. Mas sobre os deuses monoteístas sou absolutamente ateu. Jesus, o do evangelho mesmo, disse coisas terríveis!
Por exemplo? Uma mistura de crueldade com loucura: a ameaça do inferno, a intolerância extrema. “Quem crê em mim, está salvo. Quem não crê, vai pro inferno”. Ora, Deus Pai era melhor. No Antigo Testamento não tem inferno. Ainda assim, Deus criou o sexo, uma maldade enorme: para Ele, sexo é como quando um homem coloca um queijo numa ratoeira – só para nos pegar e atirar no inferno.
Mesmo que o senhor não acredite nesse Deus, se baseia n’Ele pra explicar o mundo… Essa religião é importante para explicar o Ocidente, e, agora, o mundo, uma vez que o Ocidente está em todos os lugares. E a intolerância rege o mundo: “Se você não pensa como nós, vamos te castigar pela eternidade”. A herança da intolerância com os pretos, amarelos, índios… tudo travestido de bondade. E ainda têm a cara-de-pau de dizer que são bons porque perdoam, se você pedir. Além de todo o antisemitismo que resultou em Hitler! Conseqüência direta das coisas que Jesus falou sobre os judeus e da acusação de São Pedro de que os judeus mataram Cristo. Aí, hoje, o papa diz que não foram os judeus… Parece que a humanidade melhora, mas não melhora.
Ao mesmo tempo, há quem diga que nunca houve tanta liberdade. O senhor é pessimista? A liberdade temos individualmente. Mas o homem não a tem. No fundo, a ditadura parece a democracia: há fome em uma e na outra. Não gosto de dizer que sou pessimista – mas sou.
Por quê? Primeiro: Deus [risos]. Parece brincadeira, mas como um partido que governa o mundo diz que Deus é seu presidente? Invadem países em nome de Deus, algo antigo como a Inquisição – matando, seqüestrando, legalizando a tortura. E depois: tem mais fome hoje em dia pelo fato de que tem mais gente. Cada vez acumulam mais dinheiro. Socialismo não volta mais. Ecologia? Péssima, porque Deus não assina o tratado de Kyoto [risos].
O senhor crê no Apocalipse? Ah, sim. Temos bombas para matar anos-luz ao redor da Terra. E as cabeças encolhem. Israel vai jogar uma nos árabes, ou um terrorista vai explodir uma maleta atômica em Washington e os EUA vão atirar bombas para todos os lados. Não é brincadeira!
O senhor morou no Brasil e já foi censurado na Argentina. Qual a diferença que o senhor sente em relação à sua obra aqui e lá? Aqui há uma tolerância tão maior que na Argentina… A Bienal está cheia de obras fortes. Tem a Virgem toda cravada, coisas que despertam a ira da Igreja. Mas, aqui, tudo bem! Uma senhora com a neta disse a ela: “Não olhe!”. Só isso…
O senhor não se sente frustrado ao chegar aos 86 vendo um mundo pior? Arte é só uma forma de opinar. Hoje, não pretendo transformar o mundo com arte. Nos anos 1960, a gente pensava que com arte fazia uma revolução. Errado! Os que conseguiram mais coisa com arte foram os que apoiaram a Igreja: Michelangelo, Dante… esses sim dominaram o mundo [risos], ajudaram a Igreja a aterrorizar o mundo. Nenhuma agência de propaganda tem essa capacidade de marketing. Claro, muitas obras se justificam, são maravilhosas e exibem os horrores. O inferno de Bosch, com os demônios enfiando pauzinhos no cu do outro… explica muita coisa!
O senhor não teme a morte? Ultimamente tenho pensado um pouco na morte – porque, morto, não se pode fazer arte. No além não deixam a gente criar arte criticando Ele. Foi só um anjo se rebelar para ser expulso – e deu no inferno! O céu não é democrático… Poxa, Deus é o presidente! [Risos]
Vê lá: Retrospectiva. Obras 1954 – 2006 de Leon Ferrari. CosacNaify, R$ 120
