Logo Trip

FUCK THE FASHION II

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Não é privilégio nosso. O ‘mundo da moda’ parece ser ridículo no mundo inteiro. Tive a chance, meio por acaso, de estar em Paris, durante a temporada de ‘coleções’ certa vez. Ingenuamente pensei que no seio criador de todas as tendências e estilos, até por uma questão de tempo e longevidade, haveria menos idiotas deslumbrados. Engano. Basta olhar para as primeiras filas dos desfiles para ver, agrupados, dezenas de vítimas de complexos de inferioridade com seus olhinhos carentes e bloquinhos no colo.
Alternam olhares de inveja e admiração com ódio puro e destilado. Parecem a cada traje e a cada modelo que entra, consultar seus mais profundos medos para tirar dali as opiniões que imaginam vão ajudar a compor a casca frágil que protege seus egos desprotegidos e pouco privilegiados. Vestem-se de preto para esconder gorduras e poderem ver sem ser vistos. Devoram revistas inglesas, francesas, americanas e italianas em busca das opiniões e idéias que não conseguem ter. Na passarela, salvo exceções que felizmente parecem crescer em número, repete-se o fenômeno. Em 90 por cento das roupas mostradas, meias reverberações enfraquecidas do que se viu na Bazaar, na Face ou na ID, de três meses atrás, que o dono da banca reservou para o ‘estilista’. A busca deseperada de ser chic, que por si é a antítese do chic transforma senhoras de meia idade em bolos de carne apertados em mini-saias de plástico com filés de picanha saltando por todos os elásticos e fendas. Com a desculpa de que moda é ‘conceito’, ‘fantasia’, ‘tendência’, ou ‘experimentalismo’, a grande maioria dos ‘estilistas’ apresenta roupas ridículas e mal acabadas que só servem para drag-queens, e outras dúvidas ambulantes exercitarem suas procuras sem fim em night-clubs deprimentes movidos a ecstasy, cocaína e falta de amor. Sungas de crochê vazadas nas nádegas, perucas black power, camisas justas cintilantes tentam esconder o que Versolato já disse e ninguém ousou contestar. ‘Ainda não há moda brasileira’. Falta só completar a afirmação com uma pergunta: ‘Será que há em algum lugar?’ O ponto, na verdade, não é questionar a interessante atividade de pensar e fabricar roupas bonitas e curiosas. Isto é feito aqui e em outros lugares. O ponto triste e às vezes constrangedor, é ver meia dúzia de deslumbrados tentando levar isto muito a sério. Debatendo-se para alçar suas atividades à condição de arte refinada, comparável às grandes peças musicais ou a obras de mestres renascentistas. Deviam, para cair na realidade, ser colocados na frente da loja Channel em Singapura para descobrir quem são seus verdadeiros mecenas. Senhoras rechonchudas que deixam seus lares apertados em Tóquio e realizam suas pobres fantasias torrando yens em roupas constrangedoras com as quais imaginam, terão seus dias de louras e magras beldades.
Por apenas alguns milhares de dólares, serão Cláudia Schiffer por um dia.
Nem tudo está perdido porém . No Phitoervas Fashion, por exemplo, havia francos e nítidos sinais de evolução. O estacionamento, por exemplo, estava bom. A água servida, bem gelada. Pela primeira vez na história do evento quem não se expôs ao ridículo de sentar na fila do lambe sapato conseguiu ver alguma coisa. Por fim, as modelos brasileiras parecem ter crescido. Em todos os sentidos. Estão mais longilíneas, têm corpos mais desenhados e firmes, andam melhor e conseguiram se livrar dos olhares boçais copiados de revistas. Andam com graça e firmeza, olhando como gente, com imponência, mas sem empertigação. Talvez seja só o caso de ter um pouco de paciência até que com o tempo, todas as pessoas envolvidas com o ‘mundinho’ percebam que são tão criativas e importantes quanto o manobrista do evento ou os bombeiros de plantão (cujos macacões vermelhos aliás, disputavam de igual para igual com boa parte dos modelitos apresentados na passarela).
Não por acaso, macaco velho no ramo, o maquiador Aluísio ‘Lili’ Ferraz, dá aula de sabedoria e experiência. Do alto de anos fazendo um trabalho de maquiagem impecável nos mais diferentes sets de filmagem, estúdios fotográficos e passarelas, Lili aprendeu que não se deve levar nada e ninguém mais a sério do que merece. Perguntado por um curioso sobre quem seriam as modelos maravilhosas pintadas por ele, que desfilavam sob os vestidos transparentes de Leonardo De Chiasso, Lili olhou de lado e disparou: ‘As mesmas horrorosas de sempre…’

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon