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Franga medrosa

Não sei bem por que acordei ontem no meio da noite apavorado. Não acontece sempre, mas também não foi a primeira vez. Meu corpo, coberto por um suor frio, tremia como um telefone celular. Não senti nenhuma dor física, mas achei que o meu coração ia parar de bater. Estava muito só, caindo num precipício gelado, escuro e sem fim. Eu era uma fortaleza sucumbindo ao assédio de um inimigo feroz e inclemente. Achei que estava morrendo.
Depois de horas, cansado desse trem fantasma de quinta, acabei adormecendo. E o dia ama-nheceu lindo e ensolarado aqui em Londres, mais verde do que nunca. Não morri. Ainda não. Acho que não. Estou vivinho da silva, não sou só nem infeliz, muito pelo contrário. É que de noite, quando o lado racional adormece, me sinto muito vulnerável, em carne viva, exposto à babaquice da minha própria fantasia. Foi sempre assim. Quando eu era pequeno, tinha medo de ladrão e ia correndo dormir no quarto dos meus pais. Hoje não sinto mais medo de ladrão (talvez porque aqui em Londres tem pouco assalto). Sinto medo da morte e tenho vergonha de acordar a minha esposa. Tenho um medo horrível da minha morte e da morte das pessoas que amo.

Mamãe eu quero
O genial pensador romeno Cioran diria que eu, além de ser uma franga medrosa, sou também um grande imbecil. Para ele, o verdadeiro problema do homem não é morrer, mas nascer. A vida – não a morte – é o grande abacaxi a ser descascado. Entre tantas outras coisas interessantes, Cioran escreveu: ‘Eu sei que a vida é um acidente cômico e inútil. Mesmo assim, quando me esqueço, me comporto como se ela fosse um evento de primeira importância, indispensá-vel para o progresso e equilíbrio do universo. O nosso grande Nelson Rodrigues dramatizou esse mesmo conceito. Na sua peça Álbum de Família, Guilherme, um adolescente místico e edipiano, diz à sua mãe: ‘Mamãe, o paraíso que eu busco não fica depois da morte, mas antes da vida, quando eu ainda estava no seu útero’.
Antibióticos, capitalismo, comunismo, doces do Amor Aos Pedaços, cinema de Hollywood. Quase tudo no mundo ocidental é gerado por – e ao mesmo tempo perpetua – este medo da morte, baseado na ridícula ilusão de que homens e mulheres podem controlar a natureza através da ciência. Um dia, segundo essa lógica capenga, a gente chega lá. Podemos até ser imortais.
Quem sabe seremos deuses? Mas deuses de quem, e pra quê?

Boi da cara preta
Eu queria não ter a ambição da imortalidade e o conseqüente medo da morte. Para poder dormir sempre um sono tranqüilo e inocente. Mas acho que aqui no mundo dos shopping centers já é um pouco tarde para a abnegação budista. Crescemos com a vontade de ter tudo, e eu, pelo menos, não consigo fazer de conta – para mim mesmo – que de repente não vou querer mais nada. Não sei resolver esse pepino. Então empurro com a barriga, para ver se o lance vai mesmo nas coxas, dando a volta por cima, pra ver se tem uma saída, através de um buraco misterioso que se move o tempo todo. Um buraco que não fica só mais embaixo, mas também mais para cima, mais para o lado.
Sou profundamente apaixonado pela vida, mesmo com toda a merda que rola neste mundo. Só que, às vezes, esse papo pra boi dormir não me deixa dormir.

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