Num dia qualquer da semana passada, eu assisti a uma aula magna sobre as relações humanas. Dada por um aeromoço. Não que ele tivesse essa intenção, mas ele deu um curso fulminante sobre a influência dos interesses corporativos nos relacionamentos de hoje.
Comissário de bordo também é cultura. Nós estávamos na sala de embarque da ponte aérea e, pelo tamanho da fila, eu já sabia que o vôo era um daqueles lotados. Todos os passageiros sabiam. E eles aguardavam, civilizados, resignados, com o bilhetinho na mão. O que a maioria de nós não sabia era que a companhia havia juntado dois vôos em um só.
Logo na entrada do avião, o comissário, naquela voz modulada de veludo cotelê exageradamente carregado de amaciante, anunciou: “A escolha de assentos é de sua livre escolha”. A frase redundante transformou num segundo aquele espaço de convivência pacato, que sempre tem um músico de suiças entre vários executivos de poliéster. Num passe de mágica, tudo virou uma dança das cadeiras mal reprimida.
A voz do aeromoço aterrissado tinha soado como um abracadabra às avessas. Todo vizinho de fila tinha sido subitamente transformado num inimigo potencial, alguém que estava ali para roubar o que teríamos de mais precioso nos próximos 45 minutos da nossa existência burguesa:
o confortinho da poltrona reservada.
A frase do comissário era especialmente perversa. Além de repetir a palavra “escolha” duas vezes, num indício de cafonice mal-intencionada, ela ainda a ressaltava como “livre”. Livre? Até uma aeromoça da TAP sabe que a frase foi dita justamente para tirar uma das últimas liberdades de escolha que as companhias aéreas ainda nos dão: o lugar marcado.
A sociedade de serviços gosta de armar danças das cadeiras. E, assim, gosta de colocar, sem que se perceba, cidadão contra cidadão. Quem já não quis estar mandando para o inferno aquela operadora de telemarketing, que nos invade a tarde seguidamente, lotada de gerúndios hipócritas?
Num mundo superpovoado de intenções, é preciso ter a determinação de um lama tibetano para manter o nível das relações com os outros. E não esquecer o óbvio: a operadora ou o comissário são gente, ganhando a vida. Só. Se nos incomodam, ou se envenenam nossas relações com os outros, é porque cumprem ordens de instâncias superiores. Desculpem a inocência, mas sem o exercício da compaixão a vida é sempre um inferno.
TOLERÂNCIA?
“O inferno são os outros”, escreveu Jean-Paul Sartre. E é justamente a despersonalização das relações humanas que dá um vigor renovado ao sentido desta que é uma das mais célebres frases sobre as próprias relações. A operadora e o comissário que o digam. É da natureza do homem entrar em confronto com o outro. Sempre foi. A diferença é que hoje em dia entramos em confronto diário com gente que nem ao menos conhecemos.
Mas será que há algo no ar de nossa época tornando o outro cada vez menos suportável? Não creio. Vai fazer essa pergunta a quem viveu na Europa da 2ª Guerra Mundial ou na China de Mao Tse Tung. Pouco mudou. Os outros continuam sendo nosso inferno e nosso paraíso. E as relações continuam o maior desafio da nossa existência.
Os encontros pessoais, sociais, étnicos, religiosos, nacionais, ou de qualquer outra origem, não são coisas da vida. São a própria vida. Os confrontos também. Para tentar minimizá-los, há uma nova palavra de ordem, vinda dos centros geográficos do poder. Tolerância. Não consigo imaginar palavra pior. Tolerância? Além de estar carregada de passividade que pouco tem a ver com as relações em geral, a idéia de tolerar o outro pressupõe necessariamente que não se gosta dele.
Se quisermos mudar nossas relações para melhor, é provável que tenhamos também que mudar a linguagem que usamos para defini-las. Que tal começar substituindo “tolerância” por “transigência”? E que tal lembrar disso toda vez que estivermos numa dessas disputas por cadeiras, que a vida sempre nos apresenta e sempre vai nos apresentar?
*Carlos Nader, 41, não tolera muito bem a dança das cadeiras. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com
