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Filosofia

Nos ensinamentos primários sobre filosofia, descobrimos que se divide em gnosologia, teoria do conhecimento; ontologia, teoria do Ser; axiologia, teoria dos valores. É o encadeamento do pensamento dentro dessa metodologia ocidental que vai definir as correntes e escolas filosóficas.

 

A teoria do conhecimento é especialmente interessante. Nos coloca diante de questões elementares do ato do conhecer. Por exemplo, nos dá conta de que o que os nossos sentidos percebem como verdadeiro pode não ser. Mesmo, apenas não ser como sentimos e sim diferente ou inteira e radicalmente diferente, num grau acima. Para começar, o ato de enxergar só existe por conta da luz. A luz se projeta no objeto; nós estamos de olhos abertos qual máquinas fotográficas, captamos o reflexo dessa luz que volta do objeto com informações codificados em fótons de luz. O nervo ótico comunica ao cérebro, este decodifica as informações nos proporcionando o conhecimento.

 

Não houvesse luz, não haveria comunicação visual e portanto não aconteceria o conhecimento por esse meio. Se a fonte de nossas informações, que em grande parte nos vem da visão, tem bases tão frágeis (ou me engano?), tão relativas, como tê-los como capazes de definir verdades? Depois, o que enxergamos das coisas é apenas a parte exterior delas. Temos a forma, mas as informações sobre conteúdo nos vêm depois. Não temos uma visão de raio X como o super-homem. Mas fosse possível uma tal visão (as máquinas já fazem isso, e são ferramentas) o que enxergaríamos, de fato, no interior das coisas? Por outro lado, mais de um homem cego afirmou que, quando sonha, enxerga normalmente. Como explicar?

 

A teoria do conhecimento questiona se o que percebemos com nossos sentidos é verdade. E é aí que pega. Até o século passado havia duas vertentes. O Idealismo de Platão, Hegel e Berkeley e o Realismo do Tomismo, da Igreja e do Marxismo (arrepiem!). O primeiro afirma que as coisas que percebemos com os sentidos não têm existência. Platão, em sua teoria da caverna vai explicar que o que percebemos é apenas reflexo da idéia que é luz. Hegel vai dizer que nós criamos as coisas em nossa mente. As coisas não têm existência real; nós as construímos. Complicado demais. Sofri para tentar entender sozinho e, confesso, ainda estou tentando.

 

Já o Realismo coloca as coisas mais próximas (e vamos ser verdadeiros) ao que somos. O chão que nos foi retirado é devolvido como base segura de conhecimento. As coisas voltam a ser tal como somos atingidos por elas. Ô que alívio! A princípio, quando estudei filosofia autodidaticamente, temi fosse impossível para mim sozinho. Mas ao chegar ao Realismo me tranqüilizei. Essa parte era fácil de entender. Mas, depois de iniciar o questionamento sobre essa questão do conhecimento, não é possível mais parar. Você quer saber e desconfia do fácil. Aliviava mas não respondia. Porque tudo é infinitamente complexo, nada é fácil ou simples, no dizer de Teilhard Chardin.

 

Então a terceira opção, a dos existencialistas; o Fenomenismo. Aí sim eu me senti entendido, mais que isso, respondido. Não, depois de tantos questionamentos, as coisas não podiam mais ser como antes. As coisas tinham sim existência fora de minhas idéias, mas não tais como meus sentidos as percebiam, necessariamente. Podiam ser diferentes, já que minha capacidade de percebê-las é relativa. Vivemos em um mundo de relatividade. Tudo é relativo a alguma coisa. Tudo é fenômeno, manifestação.

 

Mas aí tem complicações também. As perguntas nunca estão respondidas por inteiro. Diluindo a realidade a átomos; elétrons, prótons e nêutrons; neutrinos e vai daí ao infinitamente pequeno, tudo é igual. É somente como são posicionados os elétrons e sua velocidade no éter dentro do átomo que vai se diferenciar isso daquilo. Em essência, a ciência prova que tudo é absolutamente igual, está no mesmo éter e se compõe em elétrons, prótons e nêutrons e daí ao infinitesimal.

 

A física quântica preocupa-se muito com essas questões e tem encontrado algumas soluções originais e bastante interessantes. A matéria deixou de ter existência. Não mais é último patamar. A energia agora é a ultima fronteira e o que há de riqueza científica a ser capitalizada.

 

Vocês podem imaginar porque de tudo o que estou escrevendo? É que estou novamente preocupado com essa questão filosófica do conhecimento. Preciso fazer uma reavaliação, uma faxina na memória do conhecimento e comecei a questionar um monte de posições conhecidas e não conhecidas. Então lembrei das filosofias da educação e meu pensamento danou a peregrinar por raízes em busca de um ponto de partida para falar sobre isso.

 

Pensei sobre a visão empírica do conhecimento, que afirma que o professor detém o saber e o transfere para o aluno, que é uma tábua rasa. A visão platônica que afirma o contrário: o aluno detém o conhecimento, cabe ao professor estimulá-lo a apropriar-se de sua sabedoria. Sócrates usava e abusava desse método, como descreve Platão em seus livros. Depois em Piaget, a professora Maria Montessore, essa fabulosa Helena Ferraro e o construtivismo enquanto teoria do saber.

 

Foi maravilhosa a experiência de dar aulas. Procurava bases filosóficas e encontrei Paulo Freire. Sua didática não era interessante na prisão. Provocava o crescimento pessoal, expansão das capacidades humanas. Abria o olho, ensinava a exigir direitos e brigar pelo que se acredita. A didática do oprimido. Nós a fizemos a nosso modo e chamamos o que fazíamos de didática prisional. Um despertamento, tentativa de valorizar a humanidade do companheiro preso.

 

Nosso material didático eram os fatos prisionais. A linguagem era toda nossa, forjada em nosso cotidiano. A geografia partia da localização da Casa de Detenção de São Paulo no mapa municipal e tudo usava a prisão como ponto de partida. A história, matéria essa que honrosamente me cabia, tinha tudo a ver com a história de cada um de nós. Do bairro, da cidade, Estado ou país de cada um dos alunos. Ciência, falávamos dos experimentos e das ferramentas prisionais. Por que e como era possível ferver água em uma pet, sem que ela derretesse. Como o nosso fogão, improvisado em ranhuras de um tijolo e uma resistência de chuveiro, transformava energia elétrica em calor, por exemplo. Português, o primeiro aprendizado era formular uma carta ao diretor da prisão, solicitando alguma coisa. Depois escrever carta para a família.

 

Gostoso conversar assim, ao sabor de minhas preocupações e pensamento. Acho que foi isso que fiz até agora. Conversei com você que me lê. Diga-me se gostou. É importante, posso alongar isso tudo, como posso abortar, como um projeto que não deu cert

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