Há anos a Austrália organiza campeonatos de surfe para as categorias de base e há anos os australianos são maioria na elite mundial do esporte. No Brasil a tradição de colocar a molecada para competir começou há 20 anos com o Lightning Bolt Junior Mirim, sucedido há 13 pelo Hang Loose Surf Attack, que divide com o Rip Curl Grom Search as atenções da garotada que planeja um futuro profissional no surfe.
Raoni Monteiro, Bernardo Pigmeu, Adriano de Souza usaram a prancha como brinquedo antes de virar instrumento de trabalho, hoje disputam o circuito mundial. E nos últimos anos um dado curioso e promissor tem chamado a atenção nas provas para iniciantes: vários filhos de surfistas e ex-surfistas profissionais estão no topo das disputas. O vencedor da oitava edição do Grom Search Brasil – que leva os vencedores na categoria Mirim (até 16 anos) para uma etapa final contra os vencedores ao redor do mundo em Bells Beach, na Austrália, no ano que vem –, Miguel Pupo, 15, é filho de Wagner Pupo, 38, que ainda disputa o SuperSurf, é o recordista Top 16 da Abrasp e ficou em terceiro no Mundial Master. Miguel agora está em busca do tetra no Surf Attack e, no começo de abril, vai para a disputa do Circuito Brasileiro Amador em Torres, que pode lhe garantir vaga para o ISA World Junior em Portugal, em maio. “Ele está cheio de planos”, admira Wagner. O pai ainda diz que “ao crescer acompanhando as competições profissionais, é mais fácil entender essa vida”.
Na remada dos filhos de peixes graúdos do surfe nacional, encontramos outras figurinhas que prometem. Ian Gouvea, filho do fabuloso Fabio Gouvea, cresceu viajando ao redor do mundo e sabe muito bem como é ser pro-surfer. Do Havaí à Indonésia, lá estava o garoto com o pai, o mais vitorioso e admirado brasileiro na história do Mundial da ASP. Abençoado por Fabio, ele corre o circuito Junior. Outro que parece carregar DNA competitivo é Felipe Toledo, o Felipinho, 11, que já tem currículo de gente grande: tricampeão da categoria grommets no Hang Loose Surf Attack e bicampeão do Rip Curl Grom Search. Filho do ubatubense Ricardo Toledo, 38, bicampeão brasileiro em 91 e 95, anos de nascimento de seus filhos, e que segue na ativa. “O Felipe nunca sofreu pressão. Não quero que os patrocinadores cobrem resultados de um garoto de 11 anos”, afirma. “Ele primeiro deve se divertir e depois o resultado aparece.” Ricardo concorda que a vivência à beira da praia facilitou a vida dos filhos – Matheus Toledo, o mais velho, 16, também corre campeonatos de surfe e acaba de se despedir dos circuitos amadores, chegando à semifinal do Grom Search.
Muitos são os filhos de surfistas em campeonatos amadores, como Nathan Brandi, 14, filho de Murilo Brandi, e Pedro Husadel, 15, filho do ex-top da Abrasp David Husadel. Crescer subindo em pódio com o pai, ver o velho colocando coroa de flores na cabeça e se consagrando com troféus, rodeado de um estilo de vida único, é para poucos, e uma grande vantagem dessa molecada. A máxima é verdadeira: filho de peixe, peixinho é.
