Filhos da utopia

A nova geração de Brasília cava seu espaço no rap, em lanchas no lago e andando de skate

por Alexandre Casatti em

Trip / Skate / Wakeboard / Brasília / Esporte / Comportamento / Arquitetura

Aos 50 anos de idade,  a capital ideal de Niemeyer e Lucio Costa ainda busca sua identidade. Lutando para viver bem e se divertir em uma cidade com fama de pouco amigável, a nova geração brasiliense cava seu espaço, seja no rap das satélites, nas lanchas do Paranoá ou de skate pelo setor bancário sul

Não é fácil crescer em Brasília. A rapaziada vai conquistando espaço meio que à força, espremida em meio a avenidas largas, transporte público fraco, uma população classe média no último -com tudo o que isso tem de bom e ruim-- e cidades-satélite excluídas do filé do plano piloto. Essa galera cresceu em meio a uma das mais férteis cenas do rock nacional, vizinha do poder máximo do país, circulando por ruas iguais e numeradas de uma cidade planejada que, se por um lado aparenta ter dado apenas mais ou menos certo em relação ao seu projeto inicial, por outro, está mais viva e jovem do que nunca. “Brasília foi se desenvolvendo com um monte de equívocos, principalmente em razão de uma lógica do consumo, do status. Com isso, ficou paradoxal em suas ambições. As pessoas só aceitam morar aqui por boas propostas de ganhar dinheiro, pensando em voltar para suas cidades de origem. Qual utopia resiste a isso?”. O questionamento do cineasta José Eduardo Belmonte, 40 anos, nascido em São Paulo e morador da capital desde os 4, ajuda a começar a entender a cidade. Nesse habitat áspero que se tornou o Distrito Federal às vésperas de completar 50 anos, crescem as filhas e filhos dessa utopia, um grupo ao mesmo tempo heterogêneo e único.

“As pessoas não pensam de forma coletiva. Existe uma lógica de viver num espaço interno, sem identificação com o externo, com nada. Ainda não há uma definição de quem é, como é o brasiliense. A condição do migrante por aqui se expandiu para uma lógica do gueto. É uma lógica individual”

Belmonte, diretor de A Concepção, filme em que jovens da classe média brasiliense criam o Concepcionistas, grupo que passa a maior parte do tempo em um apartamento buscando viver um nova identidade a cada dia, vai além em sua explanação: “as pessoas não pensam de forma coletiva. Existe uma lógica de viver num espaço interno, sem identificação com o externo, com nada. Ainda não há uma definição de quem é, como é o brasiliense. A condição do migrante por aqui se expandiu para uma lógica do gueto. É uma lógica individual”. (Na capital, ainda não há nem sotaque próprio, que só agora estaria aparecendo em Guará e seria uma mistura do jeito de falar do sul da Bahia com o do Norte de Minas, na avaliação de Belmonte).

Essa lógica do gueto da qual o cineasta falou se reflete não apenas na compartimentação da cidade em setores (bancário, hoteleiro, embaixadas etc) mas também em uma lógica “cada um no seu quadrado” que atinge em cheio esses garotos e meninas. “As longas distâncias, a setorização, tudo isso acaba provocando uma distância entre as pessoas, criando pequenas ilhas”, analisa Rafael Barroso, 20 anos, coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de Brasília (UNB), um dos responsáveis pelas recentes manifestações contra o governador José Arruda (DEM), flagrado em vídeo recebendo um maço de dinheiro –em tempo, até o fechamento dessa edição, Arruda seguia sem punição, e mandava sua polícia reprimir qualquer manifestação de jovens como Rafael contra seu governo.

Mas, além de protestar, difícil mesmo em Brasília é ser pobre e não ter carro. O senso comum de que não dá pra fazer nada sem carro é exagerado, mas realmente a coisa fica bem mais complicada sem um veículo automotor em uma cidade inteirinha planejada para eles. “Falta integrar as satélites com o centro, tem pouco transporte e ainda é caro [R$ 2 a R$ 3, dependendo da distância]”, critica o rapper e educador social Nego Dé. Com 45 anos, o também rapper GOG, que nasceu em Sobradinho e cresceu no Guará, é o principal representante e um dos pioneiros do movimento no DF. Para ele, as satélites, que seriam esquecidas pelo poder público, são um caldeirão cultural. “Não só musicalmente, mas na dança, no teatro. Ali está sendo produzida cultura com originalidade”. Bares de música ao vivo em Taguatinga, por exemplo, vem atraindo cada vez mais jovens que não querem/podem ir ao plano piloto.

Os dois rappers tocam em outro ponto fundamental da identidade de Brasília, as cidades-satélites, que surgiram praticamente junto com o plano piloto, formadas pelos trabalhadores à época da construção. Apesar da denominação popular, não há municípios no Distrito Federal, todos são tratados como regiões administrativas.

“Existiam gangues como a Falange Satânica e a Falange Zumbi, que brigavam de turma. Sempre tinha pancadaria no Gilberto Salomão [centro comercial na Asa Sul]”

“A classe média de funcionários públicos com carreiras estáveis, portanto bons consumidores, foi essencial para o sucesso de uma política da indústria automobilista na capital federal. Um ou outro gato pingado usa transportes alternativos como bicicletas, mas o carro com ar-condicionado é o veículo do brasiliense”, analisa a produtora Anna Karina de Carvalho, que nasceu em Brasília mas foi criada em São Paulo. A impressão é que você vê mais carros na rua do que pessoas.


Rachas e morte
A produtora Anna lembra também que, quando passava as férias na cidade, ficava chocada com a quantidade de mortes violentas de jovens que chegavam a seus ouvidos, apenas nas poucas semanas em que ficava por lá. Quase todos vítimas de rachas, perigosamente constantes na capital nas décadas de 1980 e começo dos 90, mas que foram escasseando a partir da implementação dos pardais (radares) pelas ruas.

Os rachas e suas conseqüências, tão brasilienses quanto as superquadras, foram um dos vários temas locais versados por Renato Russo, nesse caso, na música “Dezesseis”: “João Roberto era o maioral / O nosso Johnny era um cara legal / Ele tinha um Opala metálico azul / Era o rei dos pegas na Asa Sul (...) E os motores saíram ligados a mil / Pra estrada da morte o maior pega que existiu / Só deu para ouvir, foi aquela explosão / E os pedaços do Opala azul de Johnny pelo chão (...)”.

O brasiliense, é bom dizer, ou adora o Legião Urbana ou gosta pouco. Achar algum candango (apelido dos moradores locais) que desgoste da banda de Russo é mais difícil do que dobrar uma esquina --que, afinal de contas, nem são tão raras assim. O sucesso vem da enorme capacidade do compositor em sintetizar sua terra natal. Vale relembrar mais trechinhos, como esse de “Tédio (com um T bem grande pra você)”: “Não tenho gasolina, também não tenho carro. Também não tenho nada de interessante pra fazer” ou esse outro, de “Anúncio de Refrigerante”: “Sentado debaixo dos blocos sem ter o que fazer / Olhando as meninas que passam / Matando o tempo, procurando uma briga”.

Os moradores reconhecem que hoje tem muito mais o que se fazer na cidade, principalmente na noite, do que nos anos 1980 e 90 cantados por Russo. “A gente saia caminhando. Caminhava por horas para ver se encontrava uma festa, algo para fazer”, lembra o ator e cineasta Bruno Torres, adolescente na década de 90 (hoje com 29 anos). Por sinal, as brigas que o Legião cantou, e as gangues, foram um sério problema de segurança pública na década de 90. Torres qualifica a época de “ápice da inconseqüência” em Brasília. “Existiam gangues como a Falange Satânica e a Falange Zumbi, que brigavam de turma. Sempre tinha pancadaria no Gilberto Salomão [centro comercial na Asa Sul]”. O primeiro grupo foi responsável pelo espancamento e morte de Marco Antônio de Velasco e Pontes, de 16 anos, em 1993, caso que ganhou repercussão nacional.

O cineasta conhecia integrantes dessas gangues, porque eram os garotos da sua idade. E mesmo fora das brigas, aquilo mexia com ele. “Quando houve a morte do Velasco, eu conhecia alguns dos caras que o tinham agredido. Aquilo, de conhecer eles, me deixou muito tempo com uma puta angústia, com medo de tudo aquilo. Pensei muito sobre toda a situação”. Torres é autor de curtas que tratam de temas como impunidade, violência e preconceito. “A Noite por Testemunha”, sua obra mais recente, é inspirado na morte do índio Galdino Jesus dos Santos, queimado por adolescentes de Brasília em 1997 – outro caso bem conhecido.

Playboys e balada
Galdino foi queimado vivo por quatro rapazes de famílias ricas e influentes da cidade, que alegaram pensar “que era apenas um mendigo”, e que queriam apenas lhe dar “um susto”. Crimes à parte a, digamos, ”categoria” dos playboys é numerosa no Distrito Federal. “A gente freqüenta o Lago Sul e o Pontão, basicamente”, situa Daniel Dias, 25 anos, microempresário mineiro em Brasília há seis anos. O Lago Sul é a mais rica região da capital, e o Pontão é o centro de lazer e gastronomia do pico. Com ares praianos, reúne uma turma abastada e tem um clima com um fundinho de inspiração litorânea, mas as moças só usam salto e os rapazes seguem um estilo praia-chique ou traje social para frequentar os restaurantes e boates finas do pedaço. O maior movimento de pranchas de wakeboard, windsurfe, lanchas e jetsky do Distrito Federal é ali.

Amigo de Dias, o  também empresário Leonardo Pessoa, brasiliense, 32 anos, gosta de passear em sua lancha de R$ 170 mil. “Se tem sol nos finais de semana, passamos o tempo todo no lago. Aqui junta a turma do barco, do jetsky. Daí a gente compra bebida e fica curtindo por aqui mesmo. Muitas vezes passamos a madrugada na lancha”. Pessoa e os amigos frequentam as casas noturnas Moena e Hype, no Pontão e no Lago Sul. Em geral, eles gastam uns R$ 300 por noite. “Mas às vezes chega a 500”.

Voltando à terra firme, mas ainda no capítulo esportes, os skatistas têm uma vida um pouco mais dura do que a da turma da lancha, mas cavaram seus pedaços. Downhill é na ladeira do estacionamento da Ermida de Dom Bosco, à beira do lago Paranoá. Mas street é no setor bancário sul, onde o chão é liso e há saguões amplos, bancos, corrimões e essas coisas que fazem a alegria da turma. O capixaba Alex Steinkopf, 20 anos, que já rodou o Brasil pelo circuito amador e há um ano vive na capital federal, garante: “aqui é `o´ pico para andar de skate”.

“A gente não tem muita opção de obstáculos, porque Brasília é esquisita [risos]. Tudo é plano, espaçoso, e os obstáculos estão longe um do outro”


Morador da satélite Samambaia, o skatista e estudante de informática Rodrigo Licar, de 18 anos, também curte os points, mas aponta o povo da cidade como “fechadão”: “no plano piloto é ainda pior, as pessoas são mais desconfiadas”. O parâmetro de Licar é São Luiz, capital do Maranhão, onde nasceu e visita de vez em quando. “O pessoal lá é mais aberto. O cara nem te conhece e já chega comentando a manobra que você fez. Aqui isso não rola.”

A rapaziada do Le Parkour também se virou. “A gente não tem muita opção de obstáculos, porque Brasília é esquisita [risos]. Tudo é plano, espaçoso, e os obstáculos estão longe um do outro”, reclama Millano Carvalho, 19 anos, da equipe brasilense BR Tracer.

Concurseiro forever

Responda-me uma coisa e lhe direi de onde és: seus amigos e família conversam sobre concurso a toda hora? Se a reposta for sim, você só pode ser de Brasília. O assunto é quase onipresente em mesas de bar, jantares e rodas de conhecidos. “Competir nos concursos com os caras daqui é quase uma violência, eles vivem isso”, diz  o professor José Wilson Granjeiro, diretor de um dos principais cursos preparatórios de Brasília e autor de mais de uma dezena de livros sobre o assunto. Muitos jovens brasilienses optam pelo funcionalismo público antes mesmo de definirem uma graduação ou mesmo de atingir a maioridade. A explicação, segundo Granjeiro, é simples: “quem passa em um concurso público não sofre discriminação no processo seletivo em relação à aparência, raça ou gênero. Não há cobrança de experiência, se mora longe ou perto, qual escola frequentou. Ele garante um emprego por mérito próprio. Fora a estabilidade e os salários, que costumam ser quatro vezes maiores do que os da iniciativa privada”.

Entre os concurseiros, a opinião comum é a de que, uma vez dentro do serviço público, você nunca mais sai, ou seja, ficaria com a vida “garantida” e aumentos por tempo (e não por mérito) e com pouca chances de ser mandado embora. Mas isso é pra quem quer encostar o burro na sombra, porque parece que prestar concurso vicia. Uma vez aprovado em uma seletiva, o concurseiro não pára. Ele busca sempre outro cargo melhor, e então segue estudando. Essa vida não costuma ser fácil. Boa parte das seletivas são mais concorridas do que as dos mais duros vestibulares, e muitos não têm renda porque passam oito, dez horas por dia estudando. Só param para comer algum coisa em algum quilo da vida.

Alguns deles são vistos diariamente na Conic, galeria colada na rodoviária da cidade que é uma boa amostra da juventude não-rica de Brasília e, de certa forma, da própria cidade. Ali se encontram skatistas, punks, parte da raia miúda da política local que frequenta escritórios partidários que se instalaram por ali, metaleiros, clientes das lojas e os filhos das cidades-satélite, que dividem as mesas dos restaurantes por quilo com funcionários públicos do baixo escalão, concurseiros e outros seres da fauna do DF. À noite, uma boate gay, alguns bares e puteiros atraem meio que o mesmo público, mas com outras intenções. A Conic data da construção de Brasília e foi o primeiro shopping center da cidade, mas é de um tempo em que esses prédios comerciais ainda nem respondiam por esse nome. Começou arrumadinha, como a capital. Mas, nas décadas seguintes, foi se deteriorando, envolta na prostituição e degradação da região da rodoviária, tradicional ponto de mendigos, travestis e afins. Hoje a Conic está em recuperação. Atrai jovens, livrou-se de parte da prostituição e virou cult. Uma volta em seus corredores (ou melhor, duas, uma de dia e outra de noite) é um bom jeito de começar a decifrar a rapaziada e a mulherada que hoje habita uma cidade que, construída para ser uma utopia, como toda utopia acabou deformada pela realidade. Mas ganhou personalidade.

Crédito: Chris Von Ameln
Crédito: Chris Von Ameln
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