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Felicidade: em obras

Qual é o motivo de nossa existência? O que realmente nos move? Ao que sinto e vejo, em última instância, buscamos a felicidade. O resto é reflexo disso. Tantos abandonos, decepções, traições e cacetadas da vida que podemos perder a esperança de sermos felizes. Então a existência passa a ser para cada dia, cada momento, sem haver seqüência. É o que percebo, por exemplo, ao olhar dentro dos olhos de uma pessoa desempregada, nos dias atuais. Existir fica assim como hemorragia, uma torneira aberta.

Ainda bem que nada é igual por muito tempo. Tudo passa e, por incrível que pareça, a dor, a tristeza e a desesperança também. Numa dessas tardes docemente nostálgicas, em que o crepúsculo insiste em desfilar seus vermelhos e âmbares esmaecidos, num átimo de segundo, tudo pode mudar. O momento seguinte tem silêncios que, às vezes, consigo ouvir. Talvez poesia, esse silêncio que quase sempre ouço.

Estar feliz é quase sempre possível. O momento pode sugerir motivos; até eu mesmo posso me sentir responsável por alguma felicidade que me causei. Hoje mesmo, estar em liberdade, depois de tantos anos aprisionado, é acontecimento que faz estar feliz. Acordar, abrir os olhos e me ver em casa me faz ser invadido por um sentimento de prazer de viver que supera o explicável.

Já ser feliz é muito mais complicado, senão impossível. Porque envolve avaliação completa de toda nossa existência. Provavelmente as questões principais sejam: se estivermos fazendo o que gostamos em termos profissionais ou artísticos; se conseguirmos um bom relacionamento com os que nos cercam; se estivermos sendo bem-sucedidos na criação e educação de nossos filhos; se formos produtivos em um nível social; se estivermos sendo respeitados; e outros motivos. São vários os componentes para que a felicidade seja inteira. Tantos que a impossibilitam, pelo menos aqui, na terra dos homens.

Muito bem, já que estamos falando em felicidade, o que é mesmo a dita-cuja? Bem, em duas palavras, eu diria que seja satisfação de viver. Prazer de estar vivo naquele momento, naquela condição que produz aquela satisfação. Como atingi-la? Tenho certeza de que existem tantos caminhos quantos forem os que os busquem. Pode até haver um para cada um de nós. Um para agora, outro para depois, infinitos caminhos.

Nós até podemos dizer que queremos amor. Mas a história humana irá provar que só o amor é pouco. Na verdade, a gente vai descobrindo, na medida exata em que vai vivendo, que tudo é pouco. Nada, em si, é inteiro e suficiente para nós, sempre falta. A necessidade humana é de sempre mais. Não importa o que ou quem.

Ser feliz é aqui
Creio, como Sartre, que o homem é uma liberdade a se realizar. Não essa coisa de ir e vir. Isso é limitado; fico cansado de tanto que ando. Já estive livre, foragido, e o fato de não poder estar com as pessoas que amava me fazia chorar na madrugada, infeliz, como na prisão. Liberdade não garante felicidade. Somos um movimento contínuo de expansão. Partimos para todos os lados, devoradores contumazes, absorvendo toda vida que nos cerca. Liberdade de ser feliz porque ser feliz é estar livre? Se ser feliz significa atualizar potencialidades, sim; a recíproca se confere como verdadeira.

Felicidade como projeto de crescimento e desenvolvimento contínuos. Felicidade como projeto do dia-a-dia, instante a instante. Vivi momentos extremamente felizes, mesmo estando preso. O olhar amoroso com que meus filhos me envolviam, quando me visitavam na prisão, produzia felicidade genuína em meu coração. Aqui e agora percebo que, se não conseguíssemos ter um mínimo de felicidade, não suportaríamos a existência com toda carga de pressões, preocupações e sofrimentos que ela representa.

Na verdade, todos ansiamos por felicidade. O problema é que nem sempre somos capazes. O zen-budismo ensina que realização é fazer o que se está fazendo com o máximo de perfeição que for capaz. Talvez realização seja um dos caminhos para chegar à felicidade, ou vice-versa.

Tudo o que é fácil de ler, pode ter certeza, foi muito difícil de escrever. Então, no esforço por tornar minhas idéias e meu texto mais fáceis de ler, atinjo alguma realização. Conseqüentemente, atinjo a felicidade que me é possível quando sou finalista do Prêmio Jabuti, ou tenho um livro publicado no exterior, por exemplo.

Quando meu filho me convidou hoje cedo para que eu o levasse à escola, estranhei (ele tem 11 anos, vai sozinho e jamais me convidou anteriormente). Mas depois fiquei muito feliz porque senti que ele queria minha companhia, andar comigo e conversar. Quer dizer; consigo ser pai, apesar de tudo. Quer mais motivos para estar feliz?

*Luiz Alberto Mendes, 54, com o coração livre, virou escritor na cadeia. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br

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