O Conde Leon Tolstoi, o mesmo que escreveu Guerra e Paz, o tijolo que todos conhecem e poucos tiveram a paciência de ler, escreveu também, na sua juventude, uma série de artigos sobre a guerra da Criméia. A Criméia é uma península russa, no mar Negro, que foi invadida pela Inglaterra e a França, no fim do século 19, quando foram para o pau com a Rússia pelos motivos de sempre: mostrar para o mundo quem é o fodão do bairro Peixoto.
Foi na Criméia, em Balaclava, que houve a famosa carga da Brigada Ligeira. A última carga de cavalaria em uma guerra. Foi executada pelos ingleses que, depois de uma série de ordens e contra-ordens mal-entendidas, foram direto contra uma bateria de canhões russos situada no fim de um vale que, também, era rodeado por mais baterias russas. O resultado foi uma carnificina. Um general francês disse “que tinha sido um ato belo, mas que a guerra não era isso”. A carga da Brigada foi uma das muitas tentativas dos ingleses de tomar a cidade de Sebastopol, a mais importante da Criméia, e um porto importante para o suprimento de munições e mantimentos para as forças, digamos, aliadas.
Um pra cada lado
Bem. Entre as tropas russas que estavam defendendo Sebastopol estava nosso caro Tolstoi. O posto: ofical de artilharia. Ele, na época, não sabia se se tornava escritor ou comprava uma bicicleta. Escreveu três artigos descrevendo as suas experiências na cidade sitiada. “Sebastopol em dezembro”, “Sebastopol em maio” e “Sebastopol em agosto”. Neles descreve, com seu estilo peculiar que mais tarde o consagraria, o dia-a-dia da cidade cercada. O sucesso que obteve com eles, depois de publicados, o convenceu a abandonar a carreira militar e se tornar um dos maiores escritores que a humanidade já teve o privilégio de ler.
Em um trecho do primeiro deles, “Sebastopol em dezembro”, o jovem Tolstoi desenvolve uma teoria a respeito da estupidez e da inutilidade de uma guerra diante de tantos soldados e inocentes sendo mortos e feridos em volta dele. Ele se pergunta: qual é a diferença de um inimigo lutando com outro, ou de 80 mil lutando contra 80 mil? Imagina então o que aconteceria se em um certo momento da batalha um destacamento, de cada lado, marchasse em retirada espontaneamente. O mesmo número de combatentes. E depois mais um, e mais um e que, finalmente, ficasse apenas um soldado de cada lado (supondo, é claro, que os dois exércitos fossem iguais na força e que se pudesse substituir qualidade por quantidade). Que a luta fosse, então, apenas entre os dois soldados. E que eles deveriam resolver suas diferenças (poderia ser na porrada mesmo), poupando assim os que sofrem em cada batalha. Em cada guerra.
Um tio meu me ensinou um ditado: quando o mar bate na rocha quem se fode é o molusco. No momento em que escrevo estas linhas o Líbano está sendo o molusco que sofre enquanto o mar bate nas rochas. As razões claras para uns, inadmissíveis para outros, formam parte de um xadrez político, de um ciclo de morte e destruição que outras nações já tiveram, e outras mais terão, de passar. E é agora que por um segundo (é inútil, já sei), penso no jovem Tolstoi e faço meu o desejo dele. O impossível desejo para o mundo de hoje.
J.R. Duran, 53, fotógrafo e escritor, sabe que a coisa tá russa. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br
Ilustração de stephan doitschinoff reproduzida do livro Palavra Cigana – seis contos nômades, de Florencia Ferrari (Coleção Mitos do Mundo, CosacNaify, 2005).
