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Eu, Roubou

Meu nome está envolvido na CPI dos Sanguessugas. E eu já imaginava que isso um dia iria acontecer. Já faz anos que eu sabia que mais dia menos dia meu nome iria aparecer em alguma lista de corruptos federais. Agora ele está definitivamente sujo na praça. Logo ele, o casto, o ilibado, o imaculado ainda que humilde nome deste moralista mensal que vos escreve. Ele mesmo. Carlos Nader. 

Ainda bem que é só meu nome. Lembro agora o dia em que o vi pela primeira vez, estampado numa série de outdoors ao longo da Linha Vermelha, em 1998, logo depois de desembarcar no Galeão. Cheguei ao Rio cansado e achei que estava sonhando quando vi letras garrafais dizendo “Vote em Carlos Nader para Deputado Federal”, passando pela janela do táxi, feito o slogan voador de um pesadelo. Logo perguntei ao motorista do táxi: “Você conhece este candidato, este Carlos Nader?”.  “Não, deve ser novo na praça”, ele disse. E logo acrescentou: “Mas pelo nome deve ser ladrão”.

Educado, concordei com o motorista. “Claro.” O nome Nader tem uma grande tradição de denúncias de corrupção política no Rio de Janeiro. Quando morei na Cidade Maravilhosa, havia um José Nader, do PT, presidente da Assembléia Legislativa, tio do deputado xará investigado na CPI dos Sanguessugas, que saía na capa de O Globo todo dia. Na época, começo dos 90, eu trabalhava no núcleo do Guel Arraes na TV Globo, e entre meus colegas estavam Hubert, Bussunda, Pedro Cardoso, André Vaisman, Sergio Mekler, Barrão, Marcelo Tas, entre outros ases da sacanagem. É claro que eles me deixavam devidamente informados. Toda vez que eu entrava na redação já havia um clipping da imprensa com as principais manchetes: “Nader acusado de mais uma falcatrua”, “Família Nader envolvida em outro escândalo”. Etc.

Eu gostava da brincadeira dos colegas. A gente sabe que no Brasil em geral, e no Rio em particular, a sacanagem é uma forma de carinho. Que inclusive ajuda a amolecer o apartheid pessoal em que pode se transformar a boa educação dos centros civilizados. Naquela época do José Nader, quando um garçom do bar ou uma arrumadeira do flat me perguntavam se eu era “parente do deputado”, e eu respondia que “não, nem conheço”, era visível na expressão deles um viés de decepção. Naquele tempo, a corrupção ainda não gerava a ânsia de vômito que gera hoje e o fato de eu não ser “parente do deputado” me relegava ao plano dos reles mortais, desconectado da esfera dos ricos e famosos. Era isso, certamente, que desapontava meus interlocutores populares.

De José Nader para Carlos Nader, do tio do PDT para o sobrinho do PFL, sinto que alguma coisa mudou. Pouca gente veio brincar comigo sobre semelhança, agora total, do nome. Isso se deve em parte ao fato de eu ter voltado a morar em SP, cidade mais civilizada nos melhores e sobretudo piores sentidos. Se deve também ao fato de que a corrupção não tem mais graça. O escândalo do Mensalão foi um divisor de águas na consciência da nação. Uma parte do Brasil chegou à conclusão de que chegamos no fundo do poço, mesmo, e que é preciso mudar. A outra parte chegou à conclusão de que aqui vale tudo, mesmo, e quer participar do vale-tudo. Parece que chegamos a uma hora da verdade, ao fim de uma adolescência nacional idílica em que, entre outras coisas, a malandragem tinha seu glamour.

 

Subconsciência

O que há num nome? Nada. Nader. Foi o meu, poderia ser de qualquer um. Mais da metade dos nossos representantes está metida em denúncias. E a outra metade está sob suspeita da população. Cresce a idéia de que corrupto é quem pode ser. É uma idéia que carrega um niilismo perverso, uma desesperança perigosíssima. Não só aqui. Se impunidade soa exclusividade de países parecidos com o Brasil, corrupção soa cada vez mais universal. E ainda mais universal que a corrupção é a valorização da riqueza material. Os valores daquilo que um dia Guy Debord chamou de Sociedade do Espetáculo transformaram o desejo de fama e riqueza num instinto básico. Mesmo o mais chinela dos ladrões não rouba mais para comer. Rouba para ter o tênis da moda. Já um deputado rouba para ter o Range Rover da moda. O grau de riqueza desejada pode ser diferente. A pobreza de espírito é a mesma.

 *Carlos Nader, 41, homem honrado, tem muito a declarar. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com 
 

ilustração de stephan doitschinoff reproduzida do livro Palavra Cigana – seis contos nômades, de Florencia Ferrari (Coleção Mitos do Mundo, CosacNaify, 2005)

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