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EU NUNCA DIGO A VERDADE

Tem aquela estória, conhecida como O Paradoxo do Mentiroso, em que o Ignorante diz para o Sábio Chinês: ‘eu nunca digo a verdade’. E o Sábio retruca, ‘não posso acreditar’. ‘ Porque?’, pergunta o Ignorante. ‘Porque só há duas opções’ responde o Sábio Chinês, ‘ou isto que você está me dizendo é mentira ou é verdade. Se é mentira, é mentira. E eu não acredito. Mas se é verdade o que você está me dizendo, então é mentira que você sempre mente. Aí, também não acredito’.
Pensei muito nesta estória logo depois dos atentados de 11 de Setembro. Foi quando li que algumas fontes do Pentágono declararam que os Estados Unidos iriam criar uma agência de notícias falsas. Como é que alguém declara honestamente ao mundo que vai criar uma agência de notícias falsas? Tá certo que eram militares, gente que costuma ter mais jogo no braço do que na cintura, mas acho que nem o mais caxias dos caxias, nem o Duque de Caxias, nem o ministro das forças armadas portuguesas anunciaria à imprensa a criação de uma agência de notícias falsas. Aquilo que a gente chama de ‘verdade’, na mídia ou em qualquer outro lugar, é um bicho tão arredio que o simples anúncio de uma agência oficial de notícias falsas desacredita um pouco todas as outras notícias. Era esta a idéia do Pentágono? Ou o anúncio foi de uma burrice tão
grande que fica difícil, quase impossível de se acreditar nele?

Cortina na fumaça

Poder militar e Poder midiático são inimigos históricos imbatíveis, inclusive entre si. São forças que ora se atacam, ora realizam operações conjuntas. Por isso, o que surpreende no anúncio de uma agência de notícias falsas, é só o anúncio. Anúncio que inclusive foi cancelado dois dias depois pelo mesmo Pentágono. Mas depois de terem lançado uma lebre deste tamanho, quem é que garante ao colunista paranóico que não foi justamente este cancelamento a primeira notícia falsa da agência? O fato é que, para plantar notícias falsas, ninguém precisa de agência. Que o digam tantos políticos brasileiros. Que o digam tantos generais do Oriente Médio, onde informação e contra-informação são as armas mais usadas dos dois lados do campo de batalha. A foto acima, por exemplo, apareceu recentemente num grande jornal brasileiro com uma legenda que dizia mais ou menos o seguinte: ‘Soldado israelense espalha fumaça em volta da Natividade para impedir a visão da imprensa’. Em face disto, o colunista ressabiado volta a lembrar do Sábio Chinês e também de um cartaz bem intencionado que ficava na entrada da redação de um outro grande jornal lembrando: ‘Jornalismo é exatidão’. E fica impossível não enxergar de novo o paradoxo. Se a legenda da foto corresponde exatamente à realidade, trata-se da milionésima vez que uma odiosa história se repete e um exército se apressa em matar a verdade antes de matar as pessoas propriamente ditas. Mas se a legenda não corresponde exatamente à realidade, então é ela mesma que faz parte de uma outra cortina de fumaça, aquela constituída pelo excesso de partículas de informação e desinformação lançadas na atmosfera pela grande mídia.
Nos dois casos, é melhor acreditar em outras coisas.

*Carlos Nader, 37, paranóico, sabe transpor um antigo ditado para os dias de hoje. carlos_nader@hotmail.com

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