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Eu não sou daqui

Nascido sozinho no mundo, o rapaz sempre teve uma relação de profunda estranheza com tudo e com todos, como se a vida fosse um reencontro de velhos amigos ao qual ele não foi convidado. Sentindo-se exilado em seu próprio bairro, o rapaz cresceu e se buscou em partes estranhas da cidade onde não falava as línguas nem sabia cozinhar pratos tipicos locais. As partes estranhas da cidade o queriam ainda menos que o velho bairro. Cumpriu-se então o destino do outsider, por dentro e por fora.

Um dia, caminhando nos abismos das terras estranhas da cidade, o rapaz conheceu uma mulher linda que se sentia igualmente exilada em todos os lugares. Ela o levou para sua casa e tocou músicas que o fizeram lembrar de um tempo feliz no mundo perdido de seus avós, onde todos se sentiam benvindos. Na casa da mulher linda, o rapaz não se sentia mais estranho.

O rapaz prosperou muito e se tornou cidadão honorário das terras estranhas da cidade. Sonhava em ter filhos que ali crescessem, eliminando o desterro da face da terra. Mas teve um filho que uma águia levou para o céu antes do primeiro choro. Teve um outro que – de tanta náusea que sentia do mundo – nasceu já morto. E teve uma filha que, em vez de crescer, desapareceu numa caverna escura. Sem nunca poder beijar a cabeça dos filhos, o rapaz passava os dias evocando o velho degredo. Cansado de odiar a si mesmo, tentou odiar a mulher linda – mas não conseguiu. Saiu para o mar – porém nem além do horizonte havia mais para onde fugir.

Deuses e telescópios

Mas a história teve um bom final porque um filho perdido, de um outro casal perdido, foi jogado fora no mundo e chegou à praia procurando carinho. A mulher linda o encontrou, levou-o para casa, deu carinho e comida. E os três perdidos se encontraram num abraço que dizia tudo o que nunca se conseguiu dizer no mundo. Inventaram palavras novas e passaram a rir de piadas que só eles entendiam.
O rapaz e a mulher linda sumiram da história. O filho cresceu e passou a ser o protagonista. Ele também embarcou numa viagem de dor e ódio. Sonhou com paraísos perdidos, se afogou no mar. Foi salvo por uma sereia bonita e viveu feliz para sempre. Como ninguém jamais entendeu direito essa história simples, inventaram deuses e telescópios.

* Henrique Goldman, 45, cineasta, está exilado há quase duas décadas em Londres. Seu e-mail: hgoldman@trip.com.br

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