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Estranho

Você não estranha em ser você? Já se perguntou por que não poderia ser diferente? Pois estranho demais que eu possa ser eu mesmo. Porque poderia ser bem diferente. Por exemplo, poderia ser o que imagino ser. Porque não creio que temos conhecimento real do que somos de fato. Acho, possuímos uma idéia que talvez nem aproximada seja. Experimente se ver filmado ou gravado. A diferença entre o que imaginamos que somos para o que vemos ou ouvimos é chocante, não é? Feche os olhos e pense em seu rosto. Perceberá que não se recorda bem dele.
Nós tendemos a não nos identificar com a realidade e teimamos em idealizar essa realidade, imaginando conhecê-la. É como se construíssemos nosso mundinho em camadas acolchoadas, confortando-o. Eu me construí e me identifico comigo mesmo, mas não me vejo este homem maduro, com os olhos marcados pela dor e essa cara de grade que me caracteriza fisicamente. Sei que não sou só isso. Há suavidade, compaixão e calor humano. E isso não transparece em meu rosto.

Acho que se a gente tinha alguma ilusão de que o homem sabe o que esta fazendo, creio, podemos esquecer. Ele não sabe. Não consegue sequer imaginar até onde não sabe. Ainda hoje andamos perdidos da consciência de nossa alienação. Sobre si, então, não sabe o que esta fazendo menos ainda. Às vezes questiono como conseguimos ser competentes em levar o mundo, os países, as cidades, a vida, enfim, se tão pouco sabemos e o que sabemos é tão relativo ao nosso tempo e espaço. Acho que quando nos tornamos pais conseguimos uma pequena noção do quanto não temos noção. Quanta insegurança provém desse feixe de dúvidas! E como sofremos com tudo isso! Ao percebermos que somos tão crianças quanto eles, devia ficar a humildade, mas nos recobrimos de ressentimento.

É muito estranho, mas percebo que, se fizéssemos somente o que entendemos, muito pouco ou quase nada se teria feito. Acho que vamos metendo as caras, muitos ensaios e erros, até que, por experimento, vamos encaixando alguns poucos acertos.
Vivo momentos em que parece que tudo vai se explicar, mas de repente fica impalpável e parece absolutamente fora do meu alcance entender. Tudo é muito estranho e às vezes penso que nos convenceram a estarmos calmos quando deveríamos estar apavorados. Pensar às vezes desespera.
Também acho agora que se tudo fosse transparente, fácil de saber, talvez não fosse tão excitante viver. É totalmente inacreditável para mim que eu tenha sido aquele sujeito inconseqüente que fui aos 18 anos; abestalhado aos 30; idiota aos 40; e estúpido como até algumas horas atrás. Imaginar que o dia de amanhã possa ser ruim faz com que o dia de hoje se faça muito melhor. Tudo o que em mim é menor me compromete a fazer maior.

Não me basta apenas viver. Do sorriso de uma criança ao avivamento das flores e folhas após a chuva; do brilho do couro lustrado às calçadas limpas após a faxina; nada disso me faz viver mais do que vivo. Mas faz pensar que tudo vale a pena e que, embora estranho, sou um ser deste mundo.

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