Marco, Paulo, Zé e toda moçada da VIP. Me desculpem mas ainda não consegui entender aquela capa que estampava em letras separadas a exclamação ‘Graças a Deus é sexta-Feira’. Acho que esta matéria foi pensada para pessoas que sofrem de Segunda a Sexta e que acreditam ‘descansar’ no Sábado e Domingo. Imagino que a grande maioria dos interessados em VIP faça parte do mesmo clube do qual vocês são sócios remidos e eu me orgulho de ter a carteirinha. Falo das pessoas que fazem profissionalmente algo muito parecido com o que são e gostam pessoalmente.
Quem tem essa carteirinha, não acha ruim se é Segunda nem vai afrouxando a gravata e tomando um chopinho só porque é Sexta. Na verdade, quem vibra com o que faz, nem percebe o dia da semana e só se dá conta da dimensão do tempo quando começa a ganhar agendas do ano que vem.
Da mesma forma, tenho certa dificuldade para separar ‘viagem de negócios’ e ‘viagem de prazer’. Que negócio é esse? Se for possível separá-las, há algo errado.
Concordo que para os menos assistidos pelo destino, seja difícil explicar que aquela semana de snowboard em Queenstown Nova Zelândia tenha sido das mais produtivas. Quantas vezes não me peguei revirando a carteira em busca de provas de que os 20 dias no Havaí tinham gerado uma nova idéia editorial, ou uma aproximação com um novo mercado.
Li em algum lugar uma definição genial de felicidade. Segundo ela, felicidade seria diretamente proporcional à dificuldade que se tem para determinar se suas atividades são trabalho ou lazer.
Feito meu ‘Statement’, balbuciado meu cantoxão, dou o braço a torcer no sentido de que até o mais desencanado dos felizardos, do degustador de cervejas ao ator de filmes eróticos, passando pelo fotógrafo de mulheres nuas e outras profissões cobiçadas, é capaz de prever se a maior parte do tempo de uma determinada viagem será dedicada a compromissos mais formais e ações profissionais mais objetivas. Qualquer um sabe que uma coisa é ir à China e Macau pra fazer levantamentos antropológicos, outra é seguir para Nova Iorque com o objetivo de contratar o escritório que desenhará a nova embalagem ou desembarcar em Marselha e comprar um navio de carga. Para as viagens como estas últimas, nas quais o objetivo primeiro é executar um plano claro e focado e buscar um resultado planejado, vale a pena pensar em alguns pontos que vão, retomando a tese inicial, tornar indissociáveis trabalho e prazer.
Ponto 1 – Atrasar não compensa
Essa é do meu afilhado de casamento, o fotógrafo profissional norte-americano Aaron Chang. Depois de mais de 15 anos viajando profissionalmente pelo globo a serviço de uma das mais importantes revistas segmentadas da América, Chang chamou-me de lado e confidenciou ‘Não adianta, já tentei todas as maneiras. Chegar duas horas antes, uma, 15 minutos, meia hora depois. Não vale a pena. A relação despreocupação momentânea X stress prolongado não compensa. Cheguei à conclusão de que o negócio é considerar o dia do embarque como parte já integrante da viagem. Não marcar nada naquele dia e seguir para aeroporto entre 3 e 4 horas antes do horário previsto para a decolagem.
Sua saúde dá pulos de alegria e o próprio vôo rola mais tranquilo’.
Ponto 2 – Comer, beber, sofrer…
Mesmo sabendo como é bom receber caixinhas e celofanes cheios de delícias como polenguinhos, Haagen-Dazs, Strogonoffs e tortas, o mais sábio a fazer é comer frugalíssimamente. Saladas, frutas e outras integrantes de listas de regime são o ideal para garantir uma viagem muito mais digna. Se você não ganhou no concurso da TVA, nem trocou seus cupons de milhagem, dificilmente se disporá a morrer com os valores escorchantes cobrados pelos lugares de primeira classe. Mais um motivo para pegar leve na comilança.
Ponto 3 – Economizar em hospedagem e transporte quase sempre é gelada.
Na minha última empreitada a Nova Iorque, caí no conto do design/glamour. Depois de décadas ouvindo falar dos apartamentos lendários do Chelsea Hotel, das aventuras do Sid Vicious e Nancy, das páginas de A Morte do Caixeiro Viajante sendo escritas nos parapeitos das janelas, das obras de arte decorando cada apartamento de maneira distinta, resolvi ceder aos apelos e me registrar no estabelecimento. Decadência é a palavra.
O local foi há muito rebaixado para a segunda divisão, mas continua (estimulado pela mídia) se achando o campeão.
Preços abusivos para apartamentos sujos, gastos e sem graça que só ficam bem em fotos de revistas de decoração e arquitetura. Invista em estabelecimentos sérios e consagrados. Deixe para arriscar quando estiver viajando sem compromisso. Você vai precisar de bons travesseiros, aparelho de telefone moderno, banheiros amplos, toalhas grandes e felpudas, um som decente, guardanapos, pratos, talheres e comida corretos etc.
Certifique-se também se possível, de que seu hotel tenha um conciérge, aquele sujeito que é pago para resolver dúvidas, problemas e outros imprevistos apresentados pelos hóspedes. Da limousine com champagne e gelo até os ingressos para o show dos Stones que estão esgotados. Numa tradução livre (Milloriana) o slogan desta categoria poderia ser ‘We Turn Ourselves’ ou, no português de calçada, ‘A Gente se Vira’.
Em cidades nas quais carros andam (que aos poucos vão se tornando raridade), na maioria das vezes, você fará melhor negócio se servindo dos bons e velhos taxis.
Nos mais diversos paradeiros, de Santiago, no Chile a Kuta, em Bali, é possível negociar com taxistas que ficarão à sua disposição por períodos longos por preços muitas vezes mais em conta que as tarifas de aluguel de automóveis.
Desnecessário mencionar vantagens como não errar caminhos, não ter de estacionar, economizar tempo para ver a cidade, falar ao telefone ou dar aquela última lida no contrato enquanto o motorista dirige.
Ponto 4 – Não seja ridículo
É claro que conhecer algumas palavras do idioma local, tentar aprender algo sobre a história e geografia e principalmente os costumes dos seus anfitriões é sempre interessante. Jamais porém, tente se transformar num especialista em Japão quando for à Tóquio, ou num mestre em cultura Inca quando visitar Lima ou Arequipa. Por mais que você se esforce, vai parecer ridículo de quimono ou tentando cantar a musiquinha da ‘pachamama’. Escolha suas peças de roupas mais sóbrias, certifique-se de que seu inglês esteja em dia, sorria discreta e sinceramente, relaxe e tente ser você mesmo, se é que você não esqueceu como se faz isso. Não há nada mais simpático e curioso que uma visita discreta, educada e divertida.
Ponto 5 – Não queira ser malandro
Conforme-se, você é um forasteiro. Desista logo da idéia de se dar bem, economizar gorjetas, cortar caminhos, descolar aquele hotelzinho que só os ‘locais’ conhecem, pegar ônibus em vez de taxi… Essas coisas se transformam em pequenas aventuras para mochileiros sem pressa ou casais em férias. Se o seu objetivo é concluir negócios, relaxe e esteja preparado para pagar mais pelas coisas, dar gorjetas e encarar os erros e surpresas que esperam todo turista em cada esquina. Considere as despesas extras e os contratempos como parte prevista no budget. De outra forma você vai enlouquecer e se sentir o mais perfeito trouxa desta galáxia. Veja por exemplo a variação de preços dos itens mais corriqueiros (dos quais muito provavelmente você vai precisar) apenas levando em conta as tabelas de diferentes hotéis na América.
Latinha de coca-cola (ideal para a chegada no apartamento depois de um dia de batalha)
New York Hilton $ 3,50
Fointaine Bleu Hilton Miami $ 1, 95
Lavagem a seco de uma camisa masculina (por mais profissional que você seja, é quase impossível não amassar roupas em malas)
New York Hilton $13,00
Houston Hyatt Regency $ 2, 50
Estacionamento período noturno (você não vai chegar no hotel e procurar um estacionamento nas redondezas para economizar, vai?)
San Francisco Hilton $ 25, 00
Sheraton Washington $ 14,00
Enviar um fax de cinco páginas (é inevitável, você vai ter que fazê-lo e não vai querer incomodar seu cliente pedindo um favor!)
Chicago Hyatt Regency $17, 00
Atlanta Marriot $ 5, 00
Telefonema local (esta às vezes parece ser a grande fonte de receita do hotéis. Chega a ser ridículo o preço cobrado pelo uso do telefone)
New Iork Hilton $ 1, 25
Houston Hyatt $ 0, 75
Neste quesito aliás, o simpático 5 estrelas carioca RIO ATLANTICA não quer ficar atrás. Cobra pelo minuto de ligação para São Paulo, R$ 2,73 mais 15% de taxas.
Ponto 6 – Quer fechar negócios? Jogue golfe.
De acordo com quem é do ramo, uma sessão de golfe com o cliente é a situação perfeita. Equivale a seis horas de reunião. Se você vai se encontrar com executivos, jovens ou não, em lugares tão variados como Austrália, Japão, Inglaterra, Estados Unidos e dezenas de outros países, as chances são enormes de que seu interlocutor aprecie tacos, bolinhas brancas e grama verde. Aqui vale o ponto 4. Não adianta se fantasiar de Tiger Woods, mas se você aprecia o esporte, levará sérias vantagens sobre quaisquer concorrentes. Dicas de quem conhece: Não fale de business antes do quinto buraco. Álcool e golfe não combinam. Tenho sempre a mão este endereço: IGOLF.com/travel. Você vai encontrar neste site, a localização de mais de 16 mil campos de golfe nos EUA e 10 mil na Europa. Não veja este esporte como reduto de velhos e aposentados.
O pentacampeão mundial de surf, Kelly Slater, de apenas 25 anos, esteve competindo no Rio de Janeiro em outubro e pouquíssimas pessoas tiveram acesso a ele fora da competição. Os frequentadores de um clube de golf carioca, porém, cansaram de vê-lo. Era lá que o surfista passava suas horas vagas disputando palmo a palmo com seu anfitrião, o diretor de TV Roberto Moura.
Agora é só uma questão de traçar a rota, marcar os ‘meetings’, reclinar a poltrona e esperar o momento de ouvir a clássica frase ‘It’s a pleasure doing business with you’, ou, se tiver mais sorte: ‘It’s a business doing pleasure with you’.
Paulo Lima, 35, editor da Revista Trip,
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