Tá certo que o Donald nunca escondeu sua pélvis do escrutínio público, mas pela primeira vez no Brasil uma série de gibis revela o que estava embaixo de suas penas – e das calças de uma infinidade de personagens normalmente pudicos
Por Diego Assis
“Tudo o que Donald quer é comer uma pata.” Essa frase nunca estaria em um gibi infantil. Mas é ela que abre o primeiro volume da coleção “Quadrinhos Sujos”, reunião das historinhas mais imundas que muitos personagens infantis já protagonizaram, mas que você era puro demais para poder ler. Agora, com a carteira de identidade numa mão e 39 mangos na outra já é possível espiar o que dezenas de personagens pueris faziam entre quatro paredes – ou qual outro membro, além do braço, o espinafre de um famoso marinheiro ajudava a enrijecer. Bem-vindo às Tijuana-Bibles, HQs clandestinas produzidas entre 1930 e 1950 nos Estados Unidos cujo principal objetivo era o de sacanear com todos os ícones culturais da época. Vendidas em barbearias, estações de trem e cais de portos dos Estados Unidos, as “bíblias” foram precursoras do quadrinho underground da revista Mad e de artistas malditos como Robert Crumb e Gilbert Shelton. Artigo raro no Brasil, surgiram antes também das HQs eróticas – ou “catecismos” – de nosso Carlos Zéfiro.
A coincidência religiosa, no entanto, pára por aí. “Zéfiro talvez jamais tenha visto uma dessas Tijuana-Bibles. A inspiração dele eram umas fotonovelas mexicanas melosas, feitas para mulheres”, aponta Gonçalo Junior, organizador de “Quadrinhos Sujos”.
Dividida em quatro livrinhos de bolso, a coleção vai além da gozação com os heróis dos gibis e desenhos animados: atores de Hollywood e personalidades políticas da primeira metade do século passado também eram “homenageados” nas Tijuanas. “Uma Estrela para Machos” flagra Ingrid Bergman e Roberto Rosselini em ação… pornô; Carmen Miranda mostra para onde vão as bananas de seu chapéu em “À Maneira Americana do Sul”; e Cary Grant põe fim às insistentes especulações que se faziam sobre a sua masculinidade em “O que É uma Bicha?”. “São histórias preconceituosas, racistas, mas bastante representativas do período que os americanos estavam vivendo”, justifica Gonçalo. Retratado como adepto dos “ritos revoltantes e repugnantes do homossexualismo”, em “Você, Homem Nazista” Adolf Hitler nunca teve o seu moral tão caído… Heil, Biba!
VOODOO NÃO É JACU – Goiânia tem um estranho carma. Para cada melequenta dupla sertaneja que sai de lá, algo surge da mesma terra para encher os pulmões do underground nacional. É o caso da revista Voodoo. Com pretensões de ser uma “Raw dos pobres” (a lendária publicação dos anos 80 que revelou gente como Art Spiegelman), é tão bem-acabada que ninguém se atreve a chamar de fanzine. Formato americano, papel nobre, folder interno, bela direção de arte, coisa fina. No primeiro número traz entrevista e inéditos de Fábio Zimbres, fotos e perfil de Cindy Sherman e cinco páginas com a mais caprichada e perversa pornografia de Moebius. Vai lá:www.livrosvoodoo.co(Bruno Torturra Nogueira)
Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.