Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Espetinho de Craque

Parece que no país do futebol ninguém dá pelota a um certo tipo de ludopédio. Mas um boteco em São Bernardo quer provar que até no pebolim nós somos os maiores POR BRUNO TORTURRA NOGUEIRA


Tudo pronto para o espetáculo. O público ao redor do campo, os jogadores em posição. Só falta Edimar, o craque, tomar seu posto. Mas no momento ele está ocupado, abrindo uma cervejinha para uns clientes no seu bar Lendas do Pebolim, em São Bernardo do Campo [SP].

Ele joga fora a tampinha. Sai de trás do balcão, dribla uma mesa metálica, segura duas manoplas e já vê a pelota rolar. Em dois segundos domina a bola. Trava a dita-cuja com os pezinhos plásticos na linha do meio de campo. Ginga para um lado, para o outro. A defesa adversária desliza freneticamente, tentando impedir a fulminante e famosa puxada de Edimar. Não adianta. Correu a mão e o punho para baixo, na vertical, e puxou com violência de volta. Quatro jogadores rodopiaram e a bola desapareceu em uma velocidade hedionda para entrar no cantinho direito e fazer soar alto o barulho de lata no fundo do gol adversário. A torcida – de quatro gatos pingados – vibra. É ponto para Edimar.

Há dois anos, convencido pela esposa que não agüentava esperá-lo bater bola todas as noites, ele largou o emprego de representante comercial para abrir um bar dedicado a seu esporte do coração. Edimar e sua turma de São Bernardo já eram famosos nos principais pontos de encontro dos jogadores de pebolim. Davam paus homéricos em qualquer desafiante. A razão é simples. Eles treinavam duro, gastavam horas diárias aprimorando as técnicas que inventavam ou copiavam de vídeos americanos. Em anos se tornaram lendas do pebolim, daí o nome de seu estabelecimento.

O bar é simples, mas provavelmente o único que mescla pôsteres de garotas lânguidas anunciando cervejas com cartazes e fotos de torneios, jogadores e mesas de pebolim. No fundo há duas mesas para o jogo, aparentemente normais. Mas é só começar uma partida que fica claro o profissionalismo. As mesas do Lendas do Pebolim são especiais, feitas artesanalmente por outro artilheiro, Edgar Mascher. Pesam seis vezes mais do que as mesas convencionais, têm o fundo completamente plano, placar eletrônico e hastes de metal muito mais resistentes do que as comuns. Tanta qualidade tem seu preço: 4000 reais. “Se a gente usasse uma mesa simples aqui não durava uma semana”, garante Edimar, antes de fazer um gol de goleiro usando a zaga adversária como tabela.

Paris–Texas
Os craques de São Bernardo já organizaram três campeonatos paulistas. Edimar levou dois deles. O primeiro, realizado em Diadema, teve mais de 70 duplas inscritas. Mas não são campeonatos exatamente oficiais. Ainda. Os jogadores do bar acabaram de fundar a Associação Lendas do Pebolim e estão começando o processo para fundar a primeira federação do esporte no Brasil.

A categoria do pebolim do Lendas é tamanha que já formou um craque internacional. Roberto Inoue, um dos jogadores da turma, foi para o Japão em 2003. Conseguiu um impressionante terceiro lugar no campeonato japonês e garante que seus amigos peboleiros fariam bonito no mundial. No exterior, o pebolim, chamado de foosball, é bem mais estruturado. Existem dois campeonatos internacionais extremamente disputados. Um na França, realizado no mês de maio, e outro em Dallas, nos EUA, em agosto.

Edimar e seus comparsas não conseguiram ir para os EUA, mas estão organizando um torneio e, com o dinheiro das inscrições, pretendem financiar a ida da dupla vencedora à França para disputar o mundial ano que vem. Edimar se empolga, “a gente joga com um gol muito menor do que o da mesa americana. Temos vantagem”, e sonha em arrancar a bolada para financiar a federação e organizar o primeiro torneio brasileiro. Parece que os “lendas” querem virar história.

Em tempo: os lendários de São Bernardo garantem que vale “rodar”.

Acima, goleiro defende a bolinha que viaja numa velocidade hedionda. O placar eletrônico do Lendas: 6 x 3 para o time da casa; E Edimar [de camiseta cinza e óculos], bicampeão e dono do boteco, com os craques do espeto

Vai lá Bar Lendas do Pebolim – av. Ítalo Setti, 610, Vila Beato Neves, São Bernardo do Campo [www.lendaspebolimfoosball.com.br]

Sair da versão mobile